sexta-feira, 12 de junho de 2020

Quanto custa ser anormal



A diferença devia ser amada por aquilo que  tem de melhor e pela criatividade e inovação que, potencialmente,  transporta. 

Porque é da loucura e da diversidade que se faz o progresso!

Ser diferente é caminhar por uma vereda estreita, que é a mais torta, é seguir em desequilíbrio pela via menos conhecida,  mais íngreme e perigosa (ou se calhar, apenas mais temida), é outra forma de percorrer a vida, tão honesta e válida quanto a nossa vontade, nem melhor nem pior, mas em regra mais difícil. 


É outra via de caminhar no mundo, ao lado dos que seguem direitinhos pela faixa de rodagem mais ampla onde cabe um porradão de gente semelhante entre si. São concerteza todos diferentes - porque cada um de nós é único - mas são relativamente parecidos e enquadrados pela bitola da via simples e homogênea de uma autoestrada linear e bem traçada. 
Outros, porém - por natureza ou transvio - preferem a rota das curvas, o caminho das pedras, a imitação do voo das aves ou optam até por ficar sentados, sonhando num mesmo lugar sem caminho. São os anormais! Os que fogem da norma.
Todos nós somos diferentes, uns mais do que outros. A grande maioria cabe toda dentro daquela massa humana que constitui, orgulhosamente, a maioria maior. O lugar confortável que é comum a muitos. Esses, os quase-iguais, pela similitude do muito que partilham de parecido, nos seus valores, nos seus pensamentos e, sobretudo, nas práticas sociais ou íntimas são aqueles que usamos chamar de "normais". Ora a normalidade é um conceito estatístico que soma muitas variáveias diversas com frequências próximas. Se se foge um pouco do centro da barriga da curva normal... é um cabo dos trabalhos... tende-se a ficar nas margens da normalidade, do bom senso, do bem visto...
E depois, como estatisticamente se comprova, são em menor número os tais “anormais” das margens. São marginais científicos, contudo a sociedade tende a classificá-los. Como em tudo, o homem procura entender o seu semelhante, e tende a classificá-lo em categorias, grupos, palavrões, bairros, defeitos e feitios, cores, opções ideológicas... etc. tentando salientar as diferenças, porque são elas que carregam a carga negativa - se não és como eu, cuida-te!... é mau sinal, em princípio.
Há os marginais da margem de baixo (do lado esquerdo da curva) que são os piores, coitados... a posição menos favorecida: o clube dos feios, porcos e maus, isto é, uma miscelânea que vai desde a escumalhada criminosa, potencialmente perigosa ou a tender para o revolucionário... até aos pobrezinhos de Cristo, os que nasceram sem sorte, no local errado, com pais errados ... sem saúde ou com azares vários que os chutou para a tal ponta esquerda.
E depois há os marginais à direita - também são poucos e diferentes, vidas alternativas, mas mais por opção ou talento, do que por azar.
Nada tem este posicionamento com a tradiconal geografia política E/D. A culpa é da curva de Gauss. Tem uma esquerda de baixas frequências e baixo valor é uma direita de grandes valores e frequências também escassas.
A malta marginal da ponta final é talvez mais interesssnte e heterogênea - mete de tudo um pouco: gênios loucos, poetas, libertinos e libertadores, revolucionários mas dos finos - há revolucionarios em todas as margens felizmente - artistas, gente de ciência e de grandes feitos, gente maluca e tarados sexuais ou excessivamente esfomeados, quer para bom proveito próprio (que felicidade!) quer para mal dos outros.
Há de tudo mesmo - alguns com graça e inofensivos, outros perigosos, outros maravilhosos...  porque é de aqui que saiem os aventureiros, os inovadores, os criadores, os que fazem o mundo avançar... e também os que são capazes de destruir pequenos ou grandes pedaços da nossa Sociedade, na sua versão curta ou na alargada do mundo global... E é aqui também que moram aqueles que, a título individual, mudaram valores que condicionaran a sua vidinha íntima e pessoal e os tornaram diferente à luz do olhar dos outros.
De todos os marginais tenho medo. Quer dizer de todos não, só dos que trazem mau augúrio ou "agendas próprias" para arrasar quem lhes atrapalha o caminho, dos que lutam para vencer e dominar o próximo. Tenho medo dos que vão em frente, indiferentes ao sofrimento alheio porque acham que o seu sofrimento é maior e têm direito a resolver os seus problemas pisando os outros. É a luta pela sobrevivência, ganham os mais fortes, destemidos, que não têm nada a perder porque já perderam tudo (ou quase).
Vivo assustada, tenho medo de viver com o desconhecido, com o eventual encontro com gentes daquelas franjas da curva. 
Á esquerda, sei lá se algum bêbado de maus instintos, algum sem-abrigo em raiva me ataca de noite? 
Á direita, sei lá se uma bruxa esfomeada desesperada e inteligente não estará a esta hora preparando uma beberagem para me matar? 

Tenho muito medo. 
Medo de perder a paz e o amor normal que só se encontra na barriga da curva... na zona azul. Azul como o mar.

Zona pacífica mas nunca a salvo das ondas selvagens que podem submergir alguém, como eu, que vive na fronteira da normalidade como a da anormalidade. 

Vivo na corda do trapézio num equilíbrio instável - sou uma louca consciente (do mal o menos), sei que posso cair a qualquer momento. Sei que estou em risco, quase a cair na marginalidade da direita... dos marginais perdidos, esfarpelados, enfraquecidos, pobres-ricos. É aí que me vejo. Mais ninguém vê. Só eu. Ao longe pareço normal, tenho tudo para ser feliz, saudável, tenho rotinas pacatas, família e amigos de suporte, porto-me aparentemente bem. Não sou um gênio louco, nem bato em ninguém, tenho criatividade  e talentos tão discretos que raramente alguém dá por eles. Contudo, eu sei que vou pelo caminho da diferença, para a direita... apesar de querer o contrário, apesar de saber que o melhor seria correr em sentido inverso para o meio, onde se encontra a normalidade, onde talvez me sentisse mais feliz... onde alguns dos meus frouxos talentos vissem o sol... e fossem úteis a alguém.

Como não gosto de solidão absoluta e permanente, precisava de encontrar a tal alma-gêmea (um mito, bem sei!) a tal alma louca que me compreendesse e amasse, na diferença . Eu não sou maricas nem lésbica nem pertenço a nenhuma minoria desfavorecida, tenho as pernas, os braços e demais órgãos a funcionar, sou caucasiana (logo não posso ser uma desgracadinha descriminada pelo racismo), não sou refugiada, vivo no meu País, tenho educação q.b. e nasci do “lado certo do mundo”! Sou diferente, contudo. Sou marginal, porque acho que sim. Porque no meu íntimo, não penso como os outros... e infelizmente não me sinto muito bem com isso. 
Queria ser mais burra, mais acomodada, mas pacata e tolamente feliz... queria saber gozar plenamente a sorte que me é dada todos os dias, não queria continuar a ser uma alma inquieta, que está a ser puxada por forças obscuras para um lugar de desinquietude e angústia.
Estão a puxar-me para sair da barriga azul da curva da Normal? Ou sou eu, que me estou a auto-marginalizar?
Queria amor! Sei que ele estás nas franjas também, porque é um bem raro... por isso continuarei e arriscar a aventura de trilhar por esse caminho que vai para a direita, o lugar do por do sol. 
Talvez o encontre no fim da linha... mas sei que terei de sobrevoar as pedras e as rasteiras que essa via comporta. 

Há um capuchinho vermelho à minha espreita, parece uma menina querida e boa ... mas é o lobo mau disfarçado. Será preciso força e coragem para o aniquilar sem sangue... com secura e bom-senso. 
Ensinar-lhe o caminho diverso, que não choque com o meu, que para além do negrume das nuvens, há casinhas para todos, brancas, lindas, sólidas e de pedra,  onde poderá medrar o amor. Outro amor diverso e bom, que não tenha se de alimentar das fogueiras ateadas nas madeiras de alguém inocente.




terça-feira, 9 de junho de 2020

Cheira a limão



Cheia a limão na minha almofada...

Não adormeço. É um ténue aroma, suavíssímo e discreto que envolve o princípio de uma noite de sono. Um sono auspiciosamente bom, prometedor de ternuras e confortos... que a angústia da noite torna impossível. 
O aroma do limão é real ou imaginário?  Evoca tanta coisa possível, amada ou desamada, que me é dificil separar a natureza ambivalente dos sentimentos que afluiem em catadupa dentro de mim, que me tiram o sono, perante as várias possíveis origens deste cheiro maravilhoso, perante as memórias que me evocam.
Tentei relaxar e apreciar a agradabilidade que me transmitia, pensei tirar partido da leve fragância que acalmaria a minha mente - o que só seria viável, se ela não estivesse compurscada de lixo e de dúvidas, se ela não estivesse tão causticada de augústias recentes e antigas... se ela não evocasse velhas cicatrizes mal curadas e provocações recentes ainda em dor ativa.
Limão é de frescura e leveza, um aroma que nos torna seres voantes e leves; é tal, que conduziria a um sono propício ao descanso, induzida pelo sonho de dormir sob a sombra luminosa e amarela, cheirosa e reconfortante de um limoeiro, um dom da natureza bravia. Um limoeiro nasce bem nos mais agrestes terrenos, aguenta anos e resiste à pobreza dos solos, para bem dos pobres que habitam lugares menos bafejados pela abundância, com melhores frutos e flores, com melhores colheitas e mais ricos produtos da terra. 

Limão tem a gratituidade do sol e a alegria do seu amarelo,
Limão é amargo como a vida, mas transporta um toque de doçura picante que nos faz acreditar que tem redenção, se acompanhado de algo mais doce (limonada com açúçar, por exemplo, ou doce do mesmo) ou em algo ainda mais promissor: um prato requintado que exige a sua participação, uma bebida de mistura ou apenas o usufruto do seu aroma retido num armário de roupa, num frasco de perfume, numa almofada convidativa pelo seu doce amargo aconchego aromatizado.

Tanto de bom nos pode dar um limão. A mim, deu-me insónia e o regurgitar da angústia latente.

Resta saber de onde veio o limão que me tira o sono: se da almofado ou da fronha. Pode parece indiferente, mas não é: no primeiro caso, pode ser os despojos de um perfume elegante, natural e discreto trazido por outra habitante do meu ninho (os perfumes ficam agarrados aos têxteis, por algum tempo, não é fácil apagá-los... a curto prazo.). 

Ou se, em alternativa resulta, tão prosaicamente, do novo detergente perfumado posto na máquina de lavar roupa.

A diferença é muita. Saber se a origem é um corpo humano perfumado, banhado na hora de dormir em felizes essências, ou se 
é, apenas, a química posta numa máquica de lavar.


A primeira é a mais plausível hipótese. Simultaneamente e para apagar a dor, leva-me para a realidade de um lugar de sonho que há muito desejava conhecer e para onde tive a sorte e a felidade de viajar no ano passado - Capri - a ilha dos limões, por todo o lado.
Á beira do Mediterrâneo estonteante de azul esverdado, da cor de turquesas, de verde-água, de dourados da pedra, de rosa dos corais, de ciprestes e pinheiros pendentes sobre as arribas e o mar. Vi e senti o Mediterrâneo tal como nasceu, sem desiludir (se nos esquecermos das hordas dos turistas) e se nos comportarmos como as princesas que se ali se deslocam para admirar os limoeiros refletidos no azul-verde do mar. Não sendo o meu caso - humilde turista - desejei regressar um dia para fazer de princesa, para passear enamoradamente entre palácios e varandas debruçadas sobre o mar, para me entregar ao enebriante cheiro dos limoeiros, para me sentar ao fim da tarde a tomar um limoncello, numa varanda romanticamente maravilhosa...

O limoncello que trouxe de "recuerdo" para tomar num fim de tarde, com o meu amor... noutra varanda perto de outro mar... foi barbaramente arremetido contra o chão de pedra, mal entrei na casa que acolheria esse prazer - a casa estava assombrada demais para permitir a entrada do meu limoncello de Capri com sabor a amor turquesa.
Hei-de voltar um dia à ilha, se um amor verdadeiro me acompanhar... para ter um beijo debaixo de um limoeiro em flor ou em fruto, para procurar escarpas acima a romba de Tibério, o imperador romano que aí se recolheu e que deixou rastos de palácios e  de pedras, entre as quais velhos limoeiros despontaram e medraram...
Hei-de voltar, nem que seja sozinha, para ver melhor a Capri dos iluminados e privilegiados, à procura de Axel Munthe, talvez para escrever e, sobretudo, para reflectir sobre a vida dos limoeiros.
Hoje despertei do sono que ainda não tinha chegado, sob a influência de um cheiro novo. 
Lembrei-me do pior... de que ele poderia provir de alguém que tivesse encarnado o espírito dos limoeiros velhos, teimosos e resistentes, que persistem em ficar à beira da falésia que se debruçam sobre o Mediterrâneo e que se aguentam, anos a fio, em posições de queda iminente, num equilíbrio que parece frágil, mas afinal é sólido e duradouro, aguentando com muita força as intempéries, as desgraças, os vendavais, porque a resiliência vem de séculos de adaptação à aventura, de terem sido levados pelos povos marinheiros que povoaram o Mediterrâneo e os tornaram fortes, cheios de esperança de vencer sobre as situações difíceis, de vingar nos terrenos mais pobres, mais inclinados.
Com algum risco, mas sem medo, parecem ter no seu amarelo brilhante um sorriso vencedor, porque da terra só levam o melhor e tendem a esquecer as desventuras e a fazer da fraqueza força.
Num precipício da vida, há sempre quem esteja pronto para nos agarrar.
Os limoeiros são assim aventureiros e resistentes, um pouco amargos, porque a vida lhes é dura. Alguns caiem no mar ou secam sózinhos... um dia, deixam de dar frutos, mas partem tranquilos porque deram muito limões, daqueles que é preciso distribuir pelos amigos, porque tanto amor amarelo extravassa a capacidade de gasto de cada um...


Os limões amargos procuram o seu caminho, criando a ilusão da sua doçura intrínseca, como se fosse uma magreza bonita. Disse Mrs. Simpson: uma mulher nunca é nem demasiado magra, nem demasiado rica! Estou de acordo, e acrescentaria uma mulher nunca é de desprezar se tiver demasiada magreza na beleza amargo-doce-fresca-cheirosa de um limão (tudo lhe fica bem, nesta combinação exótica!), nem nunca é demasiado rica em talentos de amor e de carinhos repartidos.


O azedume potencial do limão, da feieza que a falta de doce comporta, não é impedimento para que não possa ser comparado, favoralmente, à doçura redondinha de uma boa e gostosa laranja.

Uma laranja mais doce, mais apetecível, mais própria para comer por inteira, mais rica e mais sedutora ao paladar, não apaga a utilidade dos limões.
Só um parvo diz que os limões não fazem falta - uma bebida, uma sobremesa exótica... uma utilização picante e cheirosa... os limões fazem falta, sim, e são poderosos. São resistentes, mesmo os que se debruçam à beira da falésia das costas italianas, ou os que residem em vulgares quintais dispersos ou mal cuidados, desabitados... conseguem sobreviver e despontar em maravilhosos amarelos que alguém colherá, com gosto ou por misericórdia... porque a natureza tem de ser respeitada e valorizada.  
Há que respeitar a auto-estima de um limão bonito que se acha amargo. Com essa desculpa, leva-se para a almofada, por bondade, por afeto ou algo mais, o aroma do limão, para encher a noite de bons fluídos e do calor humano de um abraço, numa experiência sensitiva a não disperdiçar.
As laranjas também serão guardadas, mas para alimento mais trivial...
Uma laranjeira dura menos que um limoeiro. Dá mais trabalho fazê-la feliz, exige muita água, muita poda, sol a preceito... é mais rica e radiosa mas exigente... e  fortuita, vai-se um dia... morre nova.
Ao fim de muitos anos, no limiar da vida, o limoeiro estará resilientemente no seu lugar, agarrado ao solo, solo pobre sem grandes exigências, adaptado a tudo e pronto a oferecer-se, generosamente, para se dar em luz, no seu esplendor de vida, fruto da uma dádiva, que provém do nada de quem nada tem.

Tem a pobreza e a simplicidade de um amargo aromático que se tornará em condimento para completar uma bebida, um petisco, um amor, uma companhia...

E transfigura-se para anular a sua seca acidez, vira poesia ou pintura, cria espaços de influência, pinta ingénuamente aguarela sem arte, com o objetivo de marcar o solo e se agarrar à arriba, solidamente, como os limoeiros das velhas veredas de pedra de Capri.

O limoeiro resiste e sobrevive, enquanto o resto do quintal definha, ou exige cuidados maiores, replantação de outras árvores, de outras espécies... Tudo muda na natureza dos cultivos de curto prazo... os limoeiros permanecem, com poucos cuidados.
As laranjas comem-se, deitam-se fora caroços e a casca, que envelhece...


Eu também envelheço e penso se vale a pena refletir demasiado sobre limões e laranjas. O ocaso vai chegando, o sol põe-se no mar da Ericeira, é belo. O meu ocaso virá um dia... que não será tão belo. Portanto, há que olhar apenas este pôr-do-sol que é uma paisagem perfeita e feliz, esquecendo o futuro amargo que o excesso de limões trará à minha vida.



Hoje é dia de laranjas e vou tentar vê-las debruçadas sobre o mar, escondendo-se, em cada fim de dia, no seu semi-círculo laranja, deslisando suavemente no horizonte azul, calmo e amorosamente...
Sem rancores, sem o ácido do limão amargo, que amargura a minha vida.

Porque vida há só uma e a minha quer-se redonda que nem uma laranja azul!

Lembro o poema de Paul Éluard: 
"A terra é azul como uma laranja".





terça-feira, 2 de junho de 2020

Janelas




Janelas sobre o mundo e sobre a alma.



Janela é o lugar do olhar, do infinito imaginado e do finito real.




De uma janela aberta sem pudor, sem preconceito vemos tudo, tudo o que interessa para nós, para alimentar as fomes que temos do "de dentro" e do "de fora".



De olhos e coração aberto, abrimos a janela do nosso Eu mais íntimo, por vezes fechado de timidez e reservas de privacidade. 
Não precisamos de escancarar essa janela discreta, apenas o bastante para receber o raio de sol do amor e da amizade de que precisamos para sobreviver, receber  a solidariedade e a entre-ajuda que nos vai permitir ser uma pessoa melhor, mais em paz consigo mesma, que nos vai ajudar a melhorar por dentro e a ser feliz, se possível... um bocadinho, pelo menos Se houver necessidade será a janela que areja a casa e vai revolver o negrume acumulado ou recém chegado, ensinar a sorrir melhor, a cantar ou a dançar às escondidas, a preencher aquela falta de aconchego humano, bem guardado no interior. 
Depois há a janela da frente, na entrada nobre virada à rua... aquela que tem um vista infinita sobre o mundo, sobre as suas mudanças, sobre as nossa esperanças de que vai mudar. É a janela da nossa ambição em olhar, ponderar, imaginar e fazer. 
Uma janela que também pode ser porta, caminho para o espaço livre... para além dela, se estende a paisagem das possibilidades em aberto, os campos de cultivo expectante da nossa capacidade de criação, onde podemos trabalhar, inventar e ajudar a fazer a diferença, diferença que terá mais impacto na vida dos outros, dos que nos rodeiam e nos são queridos e também daqueles que não conhecemos mas que, direta ou indiretamente, podem ser tocados com a nossa ação, com a ciência e os seus desenvolvimentos (se formos alguém na crista da onda da inovação e mudar das organizações com quem lidamos) ou mais modestamente porque somos seres humanos que podem ser vistos da tal janela exterior e tocar o percurso de quem nos olha de fora, de quem sente a bondade do nosso olhar e o benefício da ação, por simples que seja. O sorriso da enfermeira, a imaginação do poeta, do pintor ou do criador posto a uma janela de grande alcance vai mudar qualquer coisa - de bom ou de mau - consoante os ventos dos contextos sociais, políticos ou de guerras. 
São infinitos os horizontes dessas janelas amplas e repetitivas, que se desmultiplicam como as da imagem e vão por aí fora até ao infinito... por muitos anos depois nós, levando a poeira ínfima da nossa ação .
Janelas amarelas e belas. Lembremo-nos delas, viradas para fora ou para dentro. Porque há sempre um retorno. A satisfação do que damos aos outros, retorna a nós pelo corredor da gratidão e da satisfação pessoal. 
Amarelas como o sol e a alegria. São janelas alentejanas, sedentas de água e de amor retiradas de uma campina de calor e postas dentro da frescura de um palácio - o da Inquisição de Évora. 
Com amarelo se apaga a lembrança que o nome do palácio traz, na perspetiva profunda daquele corredor desmultiplicado em portas que são também janelas. 
Com elas se percebe uma coisa muito importante: 
A melhor maneira de multiplicar e felicidade, é dividi-la.,.
dividi-la pelos amigos e pelos amores...
















domingo, 24 de maio de 2020

Um Amor à Sombra


À sombra?
Como pode uma coisa solar estar à sombra e não estiolar?

Um amor à sombra não é o mesmo que um amor na sombra. Ambos são um pouco tristes, ou talvez não, podem ser apenas a imagem de uma tensão dramática obscura, contra-natura, suavemente clandestina.


Um amor à sombra, aonde ficará essa sombra? Onde se esconde? Debaixo de uma árvore frondosa e fresca, perdido dos olhares dos outros, do bem amado, da censura alheia, do gozo dos descrentes, sim desses, uma grande maioria de homens e mulheres, que não acreditam muito na sua existência. Que nunca viram, nem à sombra nem à luz, essa coisa máxima verdadeiramente demolidora e absorvente que nos leva a alma, o corpo e ocupa todo o espaço que encontrar na mente. Sim, porque durante o período de incubação - o mais grave, se bem que o melhor, o mais forte se bem que transitório - ele espalha-se por todo o lado, ocupa os alveolos mais pequeninos de cada neurónio cerebral e estende-se para fora de nós, até ao espaço exterior envolvente - uma cadeira, uma almofada, uma borda de colcha na cama, um postal de uma viagem de férias, uma flor no jardim, um anúncio a um gelado delicioso, um cheiro a clulé que ficou no chinelo abandonado a um canto, um mail amalucado que foi mandado às 3h da manhã e não apagado no telemóvel, por anos a fio... Tudo sinais exteriores...

Mas esses são os sinais luminosos, não os da sombra.
Um amor à sombra é de que cor? Quase não tem cor e mal se vê, talvez cinzento muito clarinho, ou então é verde-água, o lilás desmaiado também não lhe fica mal... mas é tão esvoaçante e fugidio quanto o vento que abana as folhas na frescura da tarde de Primavera. 


Ou será de uma cor mais escura, colorida pelo tom pardo das folhas que caiem, se for um princípio do Outono ventoso e se este tiver resolvido cobrir-nos de dúvidas e de calmas...

A sombra nem sempre vem da natureza, vem das pedras da cidades, vem das manchas que a alma tece.
Um amor à sombra na cidade: uma senhora madura que já teve melhores dias, grisalha de nariz encostado ao vidro da janela de uma qualquer Madragoa ou Alfama, olhando a rua estreita e vazia, olhando o gato da vizinha da frente, que lhe parece bem mais nobre e bem sucedido do que ela, impertigado no seu posto fronteiro - está ao sol, ao que ainda resta e cai sobre o lado oposto da viela, para ele as sombras da alma nada dizem. A mulher de olhar vazio está na sombra, ali posta talvez por um amor perdido, por alguém esquecido ou simplesmente pelo gajo desaparecido ao seu lado, estirado no sofá da sala, olhando o tecto de sombras e manchas de humidade. 
Na sombra da vida, estes dois. Estes e muitos outros, sei do que falo.

Estar na sombra do amor, como quem o usa manso, devagarinho... para não aborrecer ou acordar o ser amado... que quer sossego e compostura, não quer amor, nem complicações, nem prisões, nem lágrimas, nem paixões, apenas lume brando ... Gisela, a sopa feita em lume brando fica melhor... deixa ferver baixinho... Deixa a panela, não faças barulho, não me peças nada...
E há solidão na sombra, uma solidão desértica por ser um amor simulacro, arraçado de  afecto invisível, interior ... 



E há sombra também no afastamento, nos dias de dúvida, de paradeiro incerto...
Um lago escuro de águas paradas, suavemente ondulante nos dias em que ele sai de barco... um pequeno passeio, o barco é a remos e velho, há que puxar com pouca força para não acordar o monstro que poderá estar adormecido no fundo do lago... todo o cuidado é pouco... Esse é o amor sombra cauteloso, em que um ama e o outro está "à coca", espreitando o que o espera na outra margem... vai remando no silêncio das águas mansas para que mais ninguém ouça, para que não entre mais ninguém a bordo,agora que tem a sua sossegada e contente com o passeio... na sombra.
Sorrateiramente, vai olhando em redor: será que deixei pistas? Será que devia trazer outra para o lago, talvez para ir pescar, de que tanto gosta... desde que seja discreta e não se ria alto, desde que volte para a sua aldeia do outro lado do lago, desde que ele a traga e depois a devolva, sem compromissos, nem ilusões...
Nem sempre é capaz, a sombra é um lugar perigoso, susceptível a tramas e subterfúgios, na sombra tramam-se estratégias, lançam-se feitiços, criam-se expectativas, nada se vê com os olhos. Não obstante, os corações ardentes pegam fogos e lançam armadilhas, que o barqueiro não vê. Porque não vê o amor ou não acredita nele, na sua fantástica fantasia... só vê sombra e paz, só sente silêncio e vazio, enche-se de paz e sossego, conforta-o o amor-sombra, sente-se seguro... Nos dias em que pensa que pode haver verdadeiro afeto escondido por detrás de um amor-sombra, tenta convencer-se de que é inofensivo e que foi confinado a assim permanecer silenciosamente na sombra, sem nada cobrar (apesar de tudo esperar).
Na sombra, na sombra...
Sente-se o fresco e o vazio, sente-se a solidão e desamparo, tem-se medo do abandono... fica-se calmo pela frescura, inquieto pelo futuro, ansioso pela desilusão presente...
Não, a sombra não é um bom lugar para ficar sempre, mas pode ser um bom espaço de paz para reflectir, para descansar.
É tão cansativo estar sempre a viver ao sol, sempre em brasa, sempre a rir, sempre a chorar, sempre a amar com força...
Estar à sombra é estar fora, ou semi-fora, um pé dentro do barco outro na água, quase a cair e a mergulhar, caso o monstro lhe dê para rosnar, caso uma luz apareça a tremeluzir na outra margem, sinal de que um passeio é esperado.
Mas a sombra pode ser uma paragem, para ganhar folego, para continuar a respirar, para amar com calma, para partir com coragem, suavemente, sem grandes roturas... para ir estando molengas... 
Que remédio! O que fazer quando não há sol e o nevoeiro cobre o horizonte? Dormir, parar, pensar...



Um amor à sombra é um bichinho fraco e meio ensonado, é um deixa andar... adormecido e desleixado, é contentar-se com pouco, porque ambicionar muito é demasiado cansativo, ou talvez mesmo impossível, face às circunstâncias. A pobreza é tantas vezes endémica, que por mais que se esforce não se consegue dar a volta por cima. 

Mas entre ter um amor pobrezinho e tímido, por falta de condições... ou estar na sombra vai uma grande distância.

Estar na sombra é desesperante, desgastante ao fim de algum tempo. 

É viver afastado dos outros, da família, dos amigos, da sociedade... como se algum crime houvesse para esconder. Quer seja uma facto verdadeiro, quer seja uma sombrinha chocha, a clandestinidade é difícil de aceitar e de gerir.
Na sombra da clandestinidade, não se é gente, é-se uma espécie de imitação, um teatro, uma personagem falsa que tem de andar fugida.
Tudo sombras, dúvidas e destino imprevistos... como são aliás todos os destinos.




quarta-feira, 20 de maio de 2020

Tanta coisa por fazer



A alegria é o que a esperança nos concede. 

Mas é também o que acontece sem ser esperado.

Demasiada fé na realização dos sonhos não é saudável, porque se corre o risco de se inventar uma fantasia-redoma, que em breve será prisão. 
Já assisti a isso, ao longo da minha longa vida. Gente que sonhou demais e viveu realisticamente de menos. Gente (neste caso só me estou a lembrar de mulheres) que fixaram objetivos a atingir - um casamento, filhos, carreira profissional, casa e vestidos e, sobretudo, um marido "bem-visto" pelas outras e que quando não atingiram esse ideal sonhado, deprimem.

Claro que o conceito de parceiro "bem-visto" é um pouco vago e subjetivo, ela até pode nem ambicionar um marido rico e bonito, bastando-lhe um homem bom, seguro, que dê estabilidade e respeito. O que importa para essas mulheres - umas mais sonhadoras, outras mais determinadas - é o sucesso da sua capacidade de sedução/realização. É demonstrarem, a si e às outras, que foram capazes de atingir enquanto mulheres um estatuto invejável, que não ficaram sós na vida, que foram suficientemente competentes para sacar um homem, de preferência bem visto, que encontraram o conforto dado de bandeja pela sorte. Para a maioria, isso significa casar. Para outras, basta um parceiro... o que, hoje em dia, vale quase o mesmo e até é uma coisa moderna. Há, também, aquelas que optaram por ser solteiras e investir na carreira, e fazem-no conscientemente. Por decisão livre... 
E depois, naturalmente, haverá sempre as mal-amadas - aquelas que sonharam demais e tiveram de menos. Sentem-se azaradas e carentes talvez porque o desejo entrou pelo caminho da ilusão e da fantasia. Imaginaram o mundo ideal: uma vida feliz, um homem modelo, o orgasmo perfeito, o jantar à luz da vela num resort idílico... e correram atrás da aventura, correram e perderam-se atrás da perfeição imaginada, naturalmente com pouco sucesso, porque o Santo Graal não existe. 
Algumas, pelo caminho, cansam-se de correr e aceitam a imperfeição colhida na berma da estrada... sucedâneo capaz de acalmar o desejo de mais e melhor. Essas, as acomodadas, serão talvez mais felizes.

As sonhadoras perseguirão eternamente o inatingível... e sofrem.
São as que inventaram o amor antes de o ter vivido. 

Ora, o amor só se sabe o que é, depois de sentido, em direto e ao vivo. Ler livros e ver filmes, saber a teoria imaginária e fantástica, sem aprendizagem própria, não chega e pode dar mau resultado. Pode-se estar à espera de um milagre e deixar passar ao lado uma situação maravilhosamente boa e real. 

A alegria é o que a esperança nos concede e é muito bom quando essa esperança se realiza...  

Mas quem espera demasiado da vida, corre o risco de ser uma eterna desiludida. E neste grupo existem, pelo menos, dois tipos: as otimistas/esperançadas e as pessimistas/ressabiadas.
Podem parecem diferentes, extremos opostos de postura perante a vida, mas têm muito de comum. 
São mulheres que vivem a perseguir uma ilusão, aventuram-se com alegria nas promessas hipotéticas, embarcam em qualquer barco... sonham, auto-alimentam-se da imagem grandiosa que criaram de si próprias e esquecem-se de viver a vida real.

Para essas, a alegria que a esperança lhes concedeu, pode ser um pedacinho de sonho inventado, uma personagem que representam no seu próprio teatro. E por aí ficam apalermadas e numa espécie de alegria ilusória...
Depois, há as outras, as negativistas, certamente mais infelizes porque ambicionam, não atingem e logo se sentem perdedoras. São mais realistas que as primeiras, mas igualmente desfasadas do seu caminho, do seu tempo neste mundo. 

Porque a vida não é nem cor-de-rosa, nem negra.
Tem muitas cores, tal como as flores.
A vida é o que acontece sem ser esperado.


Se não esperarmos demasiado do destino, se estivermos de coração aberto ao que chega, pode muita coisa boa acontecer.
De nada vale ler o horóscopo, deitar cartas ou búzios para saber o que aí vem. De nada vale, esperar que o príncipe encantado nos beijará ao entardecer, nos fará flutuar e ver estrelas. De nada vale, pensar que um romance é um conjunto de folhas de papel cheias de fantasia. Nada disso, o romance é o que o nosso coração constrói com aquilo que vai encontrando pelo caminho.
Não se deve comparar esse achado, com nada. Deve-se aceitar, moldando esse presente real, com amor, dedicação, resiliência e... muita determinação. Porque é único, é nosso, acabou de ser inventado e é incomparável no nosso coração.
Felizes os que não sonham, mas encontram um lugar na terra tão bom que até parece um sonho. Felizes os que em vez copiar modelos dos romances, lhes acontece encontrar um amor que até parece saído de um livro. Mas não é fição, é o seu real chão!

Sou terrena, gosto de gostar do que tem sentido e é verdadeiro.
Gosto de me sentir segura por aquilo que conquistei sem pretensões de imitar ou de roubar ideias exotéricas e romanescas.

Gosto do que é meu por mérito próprio, do que aceitei de coração aberto, da sorte que não chegou por acaso, da vida que se vive sem ambição. 
Não espero que os sonhos se realizem, espero ser capaz de estar atenta ao que me rodeia, de estar disponível para aceitar quem vier por bem e de ignorar o que me pode fazer mal. 
Não vale a pena insistir, em forçar o destino a dar-nos a fantasia sonhada, de nada serve procurar aquilo (ou quem) não quer ser encontrado... 

O Amor não se procura, encontra-se...
E não se inventa, existe!

Está na Terra e não no Céu. 
É realidade, não é esperança.

É um passeio à beira-mar, uma noite maravilhosa, um sofá da sala ou um grandioso pôr-do-sol no Alqueva.
O aqui e agora é que interessa. No futuro, estamos todos mortos... mas até lá, em vez de sonhar, espero estar viva e acordada!

E há tanta coisa por fazer... 

domingo, 17 de maio de 2020

Nunca é tarde





Nunca é tarde para amar! Pode acontecer aos 20 anos, aos 40... por aí fora e até na velhice verdadeira de um lar de terceira idade. Imagine-se um velhinho simpático que fica feliz só por ter alguém (uma colega de lar com quem criou mais empatia) que lhe cortava as unhas dos pés.
Todos já ouvimos histórias assim: a das unhas dos pés passou-se mesmo com uma parente minha que vive num lar e que, não obstante o romantismo da tarefa e o desvelo do galã, nunca cedeu aos avanços. Amor assolapado, impossível, portanto. Contudo, enquanto durou aquela ilusão, tinham talvez sonhos de amor à noite, cada qual na sua ala da residência. Ele morreu primeiro, ela teve um desvelo de viúva na proximidade do fim... não perguntei, mas uma memória rosa permaneceu, concerteza, até o esquecimento e a demência lhe terem levado tudo.

É bonito saber que quando se tem um coração quente, ele se pode manter ativo e feliz, quente na mente, de pila fria. Ou talvez não, afinal o que sabe uma mulher como eu, um pouco mais nova, do que pode ser a vida de um velho senhor.
Eu que tenho a sorte de nunca ter deixado de ter o coração quente, e até de conseguir que nem todos ficassem indiferentes ao meu calor, sinto que sou uma privilegiada, vivi um contínuo amoroso raro e bom. Efervescente, batalhador ... mas com luz, cor e vida... noites de reboliço ou de calmo prazer, em continuidade e conjugalidade, com altos e baixos, mas com sabor. Com verdadeiro sabor a prazer! Noites e também dias, vida, enfim! Esse passado ninguém me o tira. Com excepção de uma desilusão, já lá vão 9 anos, tive sempre a sorte de ser aquecida por dentro e por fora. Ás vezes, tão por dentro, tão total e absorvente era o lavrar das chamas no meu interior, que era com verdadeiro fascínio e espanto que contemplava a beleza do incêndio... apesar de saber que, no que respeita a incêndios, mais cedo ou mais tarde, alguém virá para os extinguir. Felizmente que é assim, senão seria hoje um cavaco carbonizado, podre e acabado, em vez de me manter um pinhalzito que já ardeu, mas de onde a verdura voltou a despontar e a natureza a renascer.
Acho maravilhoso saber que poderei ainda inflamar corações  de homens bons (e porque não de mulheres?) com o calor que tenho para dar. Gostaria muito que o futuro próximo fosse mais calmo, num morno aconchego, sem envolver os bombeiros, sem chamar as lágrimas, nem consultar psicólogos.

Excluindo um período depressivo que durou um ano, findo o qual fui resgatada para a vida por um bom amigo, tenho uma vivencia longa cheia de sucessos e alegrias. Fui bem amada e acho que soube amar com toda a plenitude. Também sei que fiz sofrer, sem o querer. Infelizmente é a contrapartida de quem vive intensamente o amor, de quem ambiciona demais, de quem se quer manter no trapézio do equilibrista, no ponto mais alto e de maior risco. 
Esse amigo que me salvou da tristeza, não me curando as insónias nem o desassossego, acordou-me para a vida, para o sabor gostoso da amizade verdadeira, para o mundo dos afectos plurais. Deixei de ser a pobre desgraçada, abandonada e mal-amada e passei a rainha das conquistas. Nem eu sabia quão fácil e bom é dar alegria a homens mal-casados, mal-amados, mal-vividos e aborrecidos com o seu pouco sucesso amoroso. E foi esse amigo que me fez ver como são parvos todos os homens, em geral. Primários, com pouco jeito para construir um mundo de afetos e de fantasia, até aqueles que em tempos tiveram jeito para engatar meio mundo e fazer uma mulher "feliz", sob todos os pontos de vista, desde a oferta de rosas aos afagos. Escusava era de se ter apaixonada de caixão à cova. Fez-lhe mal a ele e, quanto a mim, desorientou-me... mas vivemos uma coisa bonita. Passou, fica a memória de um tempo de sonho. Ficam os mails que davam para escrever um romance e os raros contactos que, com pena, são cada vez mais espaçados.
Sofrendo as atribulações boas de relações amorosas com mais ou menos amor, manteve-se o meu calor interior em lume brando, em alegria de viver, num espaço de liberdade que entretanto conquistei, mas sempre na inquietude que me alimenta, sempre com medo de cair do alto trapézio (lugar de que não abdico).
Umas vezes com dramas, outras com paz... foi uma vida cheia de Amor. 
Imagino, talvez com exagero e soberba, que fui uma nuvem ampla e branca que cobriu de sol (e alguns aguaceiros) quem comigo se cruzou.
Sou uma pessoa realizada, privilegiada mesmo... porque nunca estive só, no fundo fui tendo um ou mais pilares afetivos que me mantinham de pé e me mantêm viva. Apesar de tudo,  inquieta e insegura, vou mantendo a esperança de haver, para cada dia da minha vida, um pãozinho de afeto que me irá alimentar. Não deixarei de sonhar com uma refeição melhorada, quiçá um dia. Ou até uma refeição reaquecida, apurada ... melhor ainda.

Que melhor coisa pode haver, que uma pessoa acordar de manhã e saber que existe alguém para quem importo, haver um ser amado (gostado) em quem se pensa logo, ao primeiro olho ensonado que abre, que bom haver gente amiga com quem se imaginam passeios, beijos, afagos ou uma simples mensagem a dizer: Estou aqui, acordei, está sol para passear (hoje não podemos, estás longe, tenho saudades, fica para o fim de semana). Ou então, dizer: Acordei, azonzada das drogas contra a insónia, entorpecida pelo desgosto que me destes (ou eu inventei, sou muito sensível), acizentada porque o tempo está de chuva. Ou atrever um outro dito: Olha, sabes, em vez de ir trabalhar, o que eu queria mesmo era mais um pouquinho de cama contigo dentro de mim... ouvindo a chuva bater na janela ... olhando o relógio e a hora de ir pegar ao trabalho, vendo o tempo a fugir à nossa frente, atrapalhando
a nossa pressa ou vagar de saborear mais um pouco um do outro.
Sabendo que há um alguém especial, longe ou perto, sabendo que há outros que nos estimam e que há a família no seu silêncio calado de quem já tudo disse entre si e para quem a minha felicidade não é assunto... os dias seguem a sua normalidade.

A alegria é o que a esperança nos concede.
Quem não sonha e não espera, não vai encontrar a felicidade num cestinho à porta de casa ou na caixa do correio. 

Sonhando com o encontro seguinte, pensando em pequenos prazeres, pensando não só no pilar especial do momento, mas em todos os outros amigos que gravitam na nuvem de poeira e de estrelas que tenho para dar luz aos outros. Também isso é uma forma de amor.
Memorizando o passado - foi grandioso, se pensar bem no assunto, grandioso porque intenso, não pela variedade mas pela riqueza intrínseca de quem comigo se cruzou. Espero continuar a encontrar no meu caminho pessoas boas de quem gostar, pessoas que não tenham medo de amar, porque isso é a coisa mais importante de tudo.

Esperançada em que floresça uma relação sólida daquilo que foi uma frágil e tímida planta, semeada em morno encontro, que ganhou raízes fundas e sólidas, parecido com o apego sério e duradouro próprio das ervas bravias e livres, que não se arrancam com facilidade. Dessas ervas tão entranhadas na terra, que não se deixam arrancar por uma qualquer jardineira ligeira.
E espero que na intimidade, sejamos abençoados pelo dom da transcendência espiritual e que esta ultrapasse a agradabilidade física, animal e primária. Para que ganhe a solidez de um elo completo, gratificante, tolerante e livre.
Firmar uma coisa só nossa, especial - que eu acabei de inventar - porque também eu sou especial e inventiva. E se não for hoje, aqui e agora, irei por aí ... até encontrar o que gosto. 
Não interessa se é igual ou parecido com o que já tive, se é melhor ou mais intenso, sei que tudo muda com a idade e com a perspectiva que vamos tendo dos sentimentos e das emoções, nossas e alheias.
O que importa é acrescentar calor a um coração quente.



Um coração que gosta de rosas - de todas as espécies e das amarelas, em particular, que nascem fraquinhas, clarinhas e se tornam cada dia mais exuberantes e marcadas de cor.

Que esta linda, a primeira, seja o início de uma nova era!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Quarentena


Passei uma quarentena maravilhosa.
Pensei que a paz do ambiente e a companhia me envolveriam numa nuvem de afecto eterno...
Porque as coisas boas sentem-se como eternas, enquanto duram.
Havia tele-trabalho, havia sol, havia mar, havia momentos de ternura... e muitas horas de um silêncio habitado, tão gostoso...
Um silêncio que não era solidão, era paz.
Noites de aconchego em que não se percebia que se habitava um espaço de janela fechada sobre o mundo, nem se sentia a escuridão da noite, nem um distanciamento da vida normal. Foi um confinamento de luz, atrás da janela que nos isolava obedientemente do virus.
Momentos de felizes rotinas, de tarefas independentes, de presenças sentidas, mas livres... de ar puro, por dentro e fora de mim.
Se a felicidade - como se costuma dizer - não tem história, esta minha quarentena tem.

Tem e teve (pelo menos até certo ponto) uma história feliz.
Claro que todos sabemos que não há bem que sempre dure... Claro que estava preparada para partir, assim que fosse possível e necessário. Afinal outros mundos me esperam cá fora daquela redoma de madeira onde confinei, sem me sentir presa. Cá fora - no mundo real - esperava-me família, a quem dar apoio, os amigos que precisavam de mais aconchego mesmo que à distância de um telefonema, obras em casa e as muitas outras tarefas que uma mulher sempre inventa como prioritárias (do cabeleireiro, às compras de roupa nova, passando pelas arrumações de casa), Além disso, o trabalho profissional continuou a ser intenso - mas na prática igual ao que foi feito em tele-trabalho.

Aos poucos alguns sinais foram anunciando que havia uma percepção errada (talvez mentirosa) da vida fora da cabaninha amorosa da Branca de Neve.  
Sempre assim fora e não era novidade que ao regressar ao meu sítio normal, nada voltaria a ser como dantes.
Só que fui confrontada - em choque - com algo que me disseram ser a "Nova Normalidade"!
E que a mesma consistia, entre outras coisas, em aumentar o grau de clandestinidade. A tal cabaninha que eu vi límpida e transparente como o mar em volta, cheia de sol e de liberdade, afinal teria de passar a ser (na melhor das hipóteses) um refúgio clandestino.
Quiz saber porquê?
Tremo em saber a resposta...
Ela vem aí... foi sendo anunciada... eu já a devia conhecer de ginjeira...
A razão para a minha clandestinidade eterna é sempre a mesma - não magoar a minha sensível e amorosa concorrente, que não pode saber tudo. Proteger a princesa é uma forma de defendê-la na sua miserável situação de dependência alegre e inconsciente e de, ao mesmo tempo, continuar a gozar daquilo que a princesa traz consigo de bom - uma simpatia e uma sedução requintada, mascarada de amor romântico, de carinho e dedicação sem limites, disposta a ir até aos confins do razoável, para tudo ganhar... nem que seja um dia mais tarde, à hora da morte. 
E assim, prossegue a saga da eterna mulher pseudo-apaixonada, competente doméstica e elegante presença, que sobrevive e construiu toda a sua vida assente no estereótipo clássico da mulher dependente de um homem, qualquer um, que lhe dê posição, dinheiro e estatuto para viver em segurança e ter o reconhecimento alheio, da sociedade, do seu ego e, sobretudo, das outras mulheres.
É o eterno-feminino!Modelo tão do agrado dos homens, novos e velhos, mais ou menos instruídos, com diferentes ideologias e experiências.
A fada do lar - ser for boa, prendada, cordata, calma e carinhosa - é sempre melhor que a intelectual louca que queima soutiens e atira com as panelas ao ar (só não é a loiça porque está se parte e é chato, enquanto as panelas não!).
Quando não há Amor, prevalece o interesse, o proveito obtido do usufruto de quem der mais.
E quanto mais se tem melhor! Se se pode ter tudo e se o tudo é bom e agradável, porquê descartar alguém?
Afinal todos precisamos muito de vitamina F.
Eu também preciso de vitamina F, de preferência F de friens with benefits...