quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Amor


Eu amo o amor em tudo. Como essência de vida. Como o ar indispensável à sobrevivência humana. 

Amo o amor-alimento da alma e do espírito criativo, amo o amor-paisagem, amo o amor feito carne e feito sexo, amo o amor-amizade indestrutível e sólido que nos ampara nos piores momentos, amo o amor-carinho, o amor ternura da infância e solidariedade adulta, amo o amor-futuro, aquele que é o horizonte indispensável para que o caminho para a morte se faça certo, pacífico, direito.

É como eu estou, nesse caminho - uma quase vida de moribunda que se arrasta… enquanto os pés não lhe obedecem, ando na rua em desequilíbrio, na verdade não ando em passo terreno mas também não flutuo. 

Sou um fantasma vestido de branco ou de preto ou de outra cor qualquer, que ninguém vê.

Alguém que circula na multidão, aos tombos, vazia de amor, não vê ninguém nem alguém a vê .

Sou como um daqueles montes de trapos e papelões nas soleiras das portas, que tem por baixo um sem abrigo.

Alguém que  ninguém vê , a que quase todos viram a cara, por ser invisível, por ser mal amado . Ninguém lhe fala, nem lhe dá um beijo porque está sujo e isso repele os contentinhos-um qpoço e coberto por um fardo de palha, fechado num contentor de lixo descarregado no mar. Partir para algures onde a sua existência não exista, algures onde não seja gente, porque gente já não é há muito.

Quem deixou de saber amar ou de fazer-se amar por pessoas, quem foi desclassificado pelo baixo valor das causas que defendeu ou das obras que fez e deu com amor e boa vontade (algo que é quase o mesmo) não tem direito a circular por aí, não tem direito a comer, nem a dormir, nem levantar os olhos do chão ou tocar num seu semelhante … devia preparar - se para morrer sem chatear ninguém. Afastar-se para não ferir os corações daqueles que ainda sabem amar a sério, ou dos que têm migalhas de afecto guardados para um pobre faminto de amor, e também daquela gente que até é decente … mas que egoisticamente não está Interessada em ver a realidade da miséria humana, que definha e adormece ao som das drogas e das lágrimas, que se afunda na depressão e tanto mal faz a si à família e aos amigos . Poucos são os corajosos que se abrem a um sem abrigo e perguntam do que precisam…

Eu não preciso de um cartão, nem de um edredão, nem de sopa ou meias secas. Vivo num palácio (tipo t2 confortável) que não é revestido a ouro porque as paredes são manchas tristes de desamor, de vazio e de saudade . Cobre-o uma liga metálica que é uma mistura de ódio com injustiça e de impotência por não conseguir fazer os outros felizes.. Em tempos, consegui sentir me amada porque gostava de fazer os outros felizes. E sabia o bem que um abraço faz. Agora ninguém me dá um abraço sério. 

Vivo de raiva de eu própria não saber ser feliz, de raiva por ter perdido esse talento, que julgava ter - a capacidade de fazer, partilhar e comer amor todos os dias. E de me agradecerem e apreciarem por isso. 

Raiva por ser invisível para a família e por não poder nadar ao seu ritmo, de adormecer embalada na esperança, de que no dia seguinte algo de útil espera por mim , que eu possa sorrir e que isso me seja agradecido só com um olhar, porque o que fiz foi por amor.

Era para bem dos outros que tanto me davam e agora me abandonaram e me deixaram vazia de amor. Perdi o valor de mercado por ser velha.

Estou cheia de saudades e de boas recordações. Eu já fiz coisas bem feitas, dei beijos sérios e cambalhotas gratificantes, mimos e ternura. 

Dei por amor sem pedir nada em troca, mas sinceramente julgava que o caminho seria recíproco - que podia pedir uma esmola de amor quando mais precisasse. E não esperava recusas …desalmadas . 

Virei incompetente no amor  e incompreendida nas minhas mais tristes  carências . Não só de quem eu mais quero,  mas de todos.

A minha depressão não é apenas o resultado da insensibilidade de quem me rodeia. É o resultado de um Mundo de gente má, sem amor ao próximo onde eu caí. Por minha culpa , eu sei.  

O mundo está mal, são todos ingratos e autistas perante o sofrimento humano, a bondade desapareceu  .Já não se fabrica. 

Não há a mais pequena pinga de afeto à minha volta .   Morro de sede… morro sozinha como todos nós…mas estou a morrer demasiado devagar … e estou cansada. 

Ninguém me telefona ( salvo uma pequena exceção) ninguém me dá um beijo ou pega na mão. Fogem do cheiro obsceno da minha depressão e vão depressa lavar se em águas perfumadas e alegres . Não ligam ao desamor de que eu sofro … talvez porque não saibam bem o que é o amor e como ele faz falta para levar a vida em frente; construir uma casa, criar um filho, plantar uma flor, cozinhar qualquer coisa, trabalhar ou ler.

Sem paixão por um assunto, pessoa ou coisa, nada se cria e mundo não avança.

Aqueles que perderam a paixão por fazer dar ou receber, não fazem falta a sociedade. Podem partir … porque não há prisões para estes loucos inúteis que tiveram o desplante de roubar o amor que existe no ar . E agora sem esse oxigênio vital , morrem devagar e cheiram mal .

Se não fazem prisões para os incompententes do amor e para os mal amados diversos, ao menos empurrem nos de uma falésia abaixo.

Quem não sabe amar, não merece viver!

domingo, 23 de março de 2025

A Bolha



Por vezes, uma palavra de sentido dúbio ou mal percebida fere a nossa sensibilidade como se de uma facada se tratasse.
A bolha caiu ontem do nada como se fosse uma pedra varada… como que empurrada por um mau vento.
 Talvez eu seja mais uma vítima da tempestade do dia (entre tantas as que andam por aí, nestes dias de fim de inverno desvairado), sou uma vítima que não consta dos tele-
jornais … porque bem vistas as coisas eu não sou importante e a pedrada não me partiu cabeça nem fez sangue. 
Não a percebi! Não teve uma causa perceptível para mim, mas o certo é não foi dita com boas intenções. Pareceu-me uma crítica à minha postura  (acusada de morar numa de bolha), pode ter sido com ou sem intenção de me magoar, mas a verdade é que dilacerou os meus frágeis interiores, atingindo um lugar onde os neurônios já andam tão doentes, que qualquer aragem lhes faz mal. 

Um abalo que depois de bem gerido até pode ser bom, se me conseguir afastar da tal origem da “bolha” que não sei bem o que é.

Eu não tinha percebido que vivia numa bolha e que isso é uma situação nefasta para alguém e se calhar até para mim. Provavelmente a culpa é minha que me meti dentro de uma bolha invisível e virtual .., 

Mas acho estranho porque a distância física e emocional já é tanta, entre mim e quem se queixa da bolha , que nem dá para perceber como ela foi criada.

Eu de bolhas percebo pouco mas julgava ser uma coisa redonda e pequenina cheia de ar. Uma espécie de campânula onde se podia ficar fechada, só ou acompanhada, numa proximidade de clausura. Uma bolha prisão, talvez.

Ou uma bolha-ninho, gaiola de portas abertas. Onde pássaros livres entram e saem quando querem , onde guardam os seus segredos escondidos nas palhinhas da cama por ambos construída ou, pelo contrário, soltam as suas histórias mais íntimas segredadas ao ouvido, em transparência e amizade, quando há confiança e alegria em partilhar intimidade. 

Enquanto não entender de que bolha sou acusada, o mais sensato é nem piar, ficar à espera … distante, fria, livre, desinteressada e alerta para não cair numa bolha má, que não é a que me convém.

Temo que o vendedor de bolhas não as anda a vender às portas e a tentar convencer potenciais interessados para saber se querem bolhas, de que tipo, etc.. Talvez se admire se encontrar alguém que odeia bolhas de qualquer tipo e apenas comprará mochilas com saco-cama, para fugir para um país sem bolhas negras…

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Vento que nos leva a vida


 Há ventos que são arrasantes e nos levam tudo. Ventos que trazem chuva e lágrimas, que molham e magoam e nos deixam encarquilhadas, rotas e velhas.  sem préstimo, servindo talvez para lavar o chão,  uma rodilha encharcada, escrava da limpeza e da alegria de outros… rebaixada para onde o vento a transportou, ferozmente, para o reino da baixa auto-estima. 

Talvez não seja um verdadeira depressão-demência, mas um grande desarranjo mental que a manter-se por muito tempo, que é agora uma tristeza sem esperança de voltar a ver a alegria. Um círculo fechado de melancolia e importância. A prisão. Uma prisão de portas abertas donde não se consegue fugir … porque anos de submissão lhe tiraram a força anímica para saber correr, para saber mudar e recomeçar de novo, longe das grilhetas e das ordens amachucantes.

Viver dentro de tristeza permanente e estar numa prisão, da qual até  tem a chave mas não quer sair …

Sei de quem falo… É de dar pena!

Mas também, há ventos mais brandos, tempestades que nos trazem esperança e alguma bonança, novo rumo de vida, que nos empurram para a mudança, que pode vir a ser boa ou má, ou ambas as coisas. Contudo sopram no sentido da liberdade possível. 

Estes são os ventos que despenteiam mas deixam rastos de alegria, de uma certa anarquia colorida.

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Lágrimas


Que as lágrimas que se choram agora, possam um dia ser um sorriso … e que esse sorriso seja de sol, seja entendido como sinal de bondade e de afecto, sem comportar humilhações, nem derrotas, nem mágoas, porque no fundo somos todos seres humanos . 
Porque como sabemos, haverá sempre dias de chuva e de sol… e subsiste a esperança, a fé certa de que o amor prevalece sobre as lágrimas. 

Todos temos sentimentos e quando se trata de pessoas boas, livres e iguais, em crenças e valores, que se conhecem bem ou, pelo menos, que o suficiente para ter uma intimidade sadia, não é preciso demonstrar nada, nem de se afirmar em superioridade, nem de esconder defeitos, nem de fingir qualidades. Ninguém é melhor que ninguém.  Cada um tem os seus talentos, que são naturalmente diferentes. Se houver boa-fé e valores sérios, cada qual vale por aquilo que é, pelo que dá e pelo que faz.

sábado, 14 de setembro de 2024

Tempo sem Métrica



Chegaste sem avisar.
És tão antigo quanto o tempo. 
No tempo que recordo, 
quando assento no caminho e acordo, 
és tu que habitas essa memória.
Só tu és o tempo e a glória,
só tu és o tempo em que me fui embora.

Hoje sei, de consciência plena, que só o momento existe,
que a felicidade são segundos, são minutos profundos, 
saboreados na sofreguidão da eternidade, noção que em nós loucamente persiste.

Na ilusão da perenidade, não sabemos a idade do tempo, não sabemos nada…

Os problemas chegam, resolvem-se se e passam.

Quanto às pessoas, poucas importam - as raras que valem a pena, podem não ser aquelas que por nós se interessam. É pena!

As crianças que, um dia embalámos e julgávamos nossas, não o são. Nunca o foram. Eram delas, nasceram no passado e não sei onde estarão no futuro. Futuro que também não existe!

Depois de morar tantos anos neste lugar chamado Terra, o futuro é uma língua de areia à beira-mar da velhice e da morte… 

Tudo é relativo, transitório… e já nada devia ser importante, nem necessário. 
Na velhice, que se aproxima e para mim cedo demais, nada mais me deve incomodar. É deixar andar.  

 O melhor remedio para a solidão e para o desamor é o desprendimento das coisas, o deixar correr a vida sem nela participar… o contentar-me com a miséria dos dias tristes e alegrar-me com as migalhas boas que me caiem no colo… cada vez menos…

Penso no tempo do antes e não te vejo lá, porque, hoje, é como se sempre estivesses estado cá.

Olho este tempo presente como uma paisagem estática: a vista de uma mesma janela, sempre igual, mudando de cor segundo as regras das estações e os caprichos da natureza.

Só tu estás lá, presente. Ou ausente. Por vezes, num tempo de bruma, esbatido por detrás de uma cortina de chuva intensa, outras num dia de sol, quase invisível pela luminosidade imensa, que cega e ilude… mas estás. 

Pensava em ti como uma paisagem eternamente presente, apesar da inevitabilidade e imprevisibilidade das ausências, num certo desprezo desinteressado, que associava ao caracter fleumático, à falta de jeito para lidar com o calor humano… 

Ás mulheres que seduzias, mentias.

Fazendo de conta que não te “tocavam”,  fingias não te prender, com medo de te perder. 

Tudo isto eu vi, há muito, com a doçura e com o jeito de quem te tem no peito. 

Julguei ser feitio, defesa própria, acto heroico para manter a liberdade, a bandeira do amor nunca içada, desprezada, pisada, coração sem tecto, bloqueado ao afecto, na crença de evitar compromisso. Mas, não é  isso!

Enganei-me. Hoje sei que te prendeste a ti mesmo e a mais ninguém. 

Por não  te queres prender, estás-te a perder.  Finges uma falsa liberdade, finges que és autônomo, livre e não precisas da solidariedade e da amizade alheias, mas sabes bem que gostas de mimos com jeito, que não és indiferente às imanências de uma fêmea e à paz viva do seu leito.  Manténs o calor do corpo e o gosto do afecto.  Queres o toque de uma qualquer pele … quer saiba a goiaba ou a mel. Qualquer uma que venha com o vento… porque nunca dormes com uma mulher mas com Tempo.

Precisas de amigos , que provavelmente vão desaparecendo… É a lei da vida. Refugias-te na família de sangue, como forma de fuga, com medo de seres tomado por outros afectos, para não teres de dar nada de ti … como se tu fosses eterno e os demais simples humanos mortais, que vão primeiro para o além dos lindos quintais. 

Mas um dia descobrirás que  todos se vão e estarás só, sobram talvez os mais novos que, se calhar, te estimam um pouco ( e são cada vez menos). Nesse dia, sentirás a falta de afecto de alguém próximo que te estime de verdade. E aí a verdade poderá revelar-se travestida de mentira…

Não sei quem será esse alguém, se existe ou está para vir, porque pouco sei sobre o teu tempo… Só conheço o tempo antigo e solitário que é o meu.

Nele, habitas um espaço que não tem passado nem futuro… que é só momento, molécula da vida, finita e, por vezes, doente. 

Um chá de bondade, com sabor a paz, alegria com um toque de mimo reprimido é o segredo para a saúde, que ofereço e desejo.

É este o meu tempo, o único que tenho e onde te tenho. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Os Normais


A vida é injusta para com as pessoas “normais”. 

Que são a maioria, felizmente!

Apesar de serem uma maioria em regra silenciosa…

São aquelas pessoas que batalham no dia a dia cumprindo discretamente os seus deveres, muitas vezes com esforço e abnegação, porque assim manda a sua consciência. Vivem com cedências constantes, sofrimento, traições, aceitando contrariedades com cara alegre… e desde que as ofensas não ponham em causa a dignidade de cada qual, seguem em frente, sem alarido nem publicidade.

Claro que a fronteira da dignidade aceitável e suportável é difícil de definir; o que para uns é admissível (por exemplo, apanhar pancada do marido), para outros a fasquia da ofensa e da indignidade está muito acima (é o meu caso). 

Ser bom para as pessoas de quem se gosta não tem nada de heróico nem de especial. Não é apreciado nem louvado. É normal! 

E os “normais” são aqueles a quem não se liga e se diz: vai-te à vida! Tens boas condições para isso, tens pão e tecto, não tens necessidade de amor, nem de compreensão, nem de ajuda ou de solidariedade. Não tens direito a estar doente ou deprimido. Desenrasca-te!


Pelo contrário, os “desfavorecidos” da sorte merecem piedade e apoio. E são logo enquadráveis em situações de dependência que é fácil justificar - os coitadinhos que tudo merecem (pobres, doentes, velhos solitários, desempregados, sem-abrigo, sem

Pátria, malucos, etc). E efetivamente precisam de ajudas, subsídios, legislação adequada, não duvido.

Mas isso não faz deles um grupo nem melhor nem pior do que os outros. São humanos desfavorecidos e devem ser ajudados. Esta condição não lhes deve dar direito à “arrogância da pobreza”. 


Enquanto, os ricos e poderosos são objeto de inveja e ódio e desprezo por razões diferentes. Não precisam de ser ajudados mas têm direito a ser olhados com o mesmo respeito que qualquer ser humano. A menos que, na origem da riqueza haja crime… mas a parte criminal não é para aqui chamada. Acontece em qualquer grupo ou local.

O que interessa aqui é o comportamento da sociedade perante as pessoas. Somos todos humanos e todos temos os nossos problemas , defeitos qualidades e direito à vida e à solidariedade coletiva. 

Irrita-me o discurso de que os desfavorecidos são todos uns coitadinhos e os ricos uns malandros… e depois há os outros: os Normais, a quem ninguém liga.


Bem-aventurados os pobres de espírito porque será deles o reino dos céus.  

Eu dispenso fazer o papel de desgraçadinha, só para aumentar a minha cotação de mercado e cativar a compaixão alheia. 

Tal como cultivo a bondade, desprezo a arrogância e não faço alarde das minhas “riquezas” materiais ou espirituais, nem dos meus talentos e desejos mais íntimos.

Resumindo, sou normal e desses não reza a história. E são praticamente invisíveis, mesmo junto de quem lhes é mais próximo. 

Sei, há muito, o que valoriza um ser humano, não é nem a riqueza nem a desgraça.


Um ser humano vale por aquilo que é e não por aquilo que faz ou por aquilo que tem (ou não tem).


A trilogia do “ser”, “fazer” e “ter” comanda a sociedade, as pessoas e as organizações, de um modo que considero perversa. Talvez não seja esta a melhor palavra. O que gostaria de expressar é a injustiça que grassa por aí, pela importância a meu ver distorcida daquilo que uma pessoa vale pelo: ser, fazer e ter . Ou não ter, no caso dos desgraçadinhos.


Posso ser mal-amada e mal-fodida, posso ser mal compreendida, posso fazer muitos erros (e certamente os faço) mas nunca porei a culpa nos outros.

A imagem que transmito com os meus atos, o bem ou o mal que faça são da minha exclusiva responsabilidade.

Tal como um chefe é responsável pelos seus subordinados. Eu sou a chefe de mim mesma. Se algo corre mal, é em princípio culpa minha. Falhei e gosto que o digam para poder corrigir.

O facto de falhar e de não conseguir atingir o meu nível de “ ambição” - aquele que os outros me atribuem mas que para mim não é demasiado alto, é normal e justo - não faz de mim uma infeliz, permanentemente insatisfeita. 

Faz-me sentir triste e impotente por ter falhado, pode fazer com que me sinta eventualmente deprimida e só, é uma atitude pontual e normal, quando se tem uma desilusão. Mas jamais me sentirei derrotada por não atingir o que quero. 

Posso ser chata e reivindicativa - é sinal do meu gosto por querer mais e não um lamento por ter menos e me sentir derrotada.

Não farei parte dos deserdados da sorte, que deixam de lutar. 

Não farei parte do contingente das sanguessugas, dos que dependem dos outros para prosseguir as suas vidas à custa alheia, dos que lamentam as suas desgraças pondo a culpa em quem lhes atrapalha o caminho, ou lhes roubou um passado sonhado. 

Eu penso pouco no passado e as marcas que eventualmente me deixaram não me angustiam, nem criam sentimentos de vingança, nem condicionam a liberdade e independência, nem me provocam arrependimentos nefastos daquilo que não tive ou já tive mas perdi. 


O passado de cada um de nós foi o que foi, passou! 

É saudável pensar assim . 

Nem todos os sonhos de infância e juventude se realizaram, pois não! Acontece a toda a gente, sobretudo com os mais fantasistas. Mas não é saudável procurar no futuro tapar todos buracos, desgostos ou erros que o passado nos deu. 

Numa idade “ já mais para o avançado ”, como a minha, é errado olhar o presente como se fosse a última paragem do caminho de ferro da vida. O lugar onde à pressa tudo de bom tem de acontecer - tipo pudim instantâneo que é preciso fazer porque surgiram visitas inesperadas e não houve tempo de fazer um doce melhor.

É estúpido pensar que é nesta estação que, por milagre, se irão, realizar todos os sonhos por concretizar e emendar todos os erros acumulados. Não há milagres!

Isto sou eu a falar. Porque sou normal. 

Tento viver o presente como uma criança que recebe um presente. Gosto da prenda com muita força e quero mais e melhor. Quero agora porque vivo na realidade e não porque o tempo urge e há que recuperar o passado desperdiçado ou mal usado.

Farei tudo para vencer, para ser feliz, para ser “normal”. O poder e o dinheiro em demasia não são objetivos. A riqueza do afecto humano é o mais importante.

O amor é o maior tesouro… sei perfeitamente que nem sempre se encontra, nem todos o conhecem. Fui uma  privilegiada neste aspecto, não tenho expetativas de que se repita.

Mas tenho a ambição e o

direito de ser ambiciosa e de querer viver confortavelmente e em paz, num ambiente de afecto, o pouco tempo que me resta. Lutarei para ter amigos bons que gostem de mim e me respeitem. Lutarei contra o ódio, a indiferença e o desprezo, lutarei contra quem me quiser destroçar, evitarei aqueles que não me souberem ouvir com o som do coração. 


Não acredito muito na família “pura”. Nem tudo o que vem da família é bom, nem sempre podemos contar com ela. Os membros de uma qualquer família são tão bons ou tão maus como outras pessoas quaisquer. Isso do sangue é uma treta! 

Temos deveres legais para com eles, é certo… a nossa sociedade está assim construída… até um dia mudar, como tudo…

Há mosquitos com mais sangue meu do que algumas pessoas da minha família… (gosto de dizer isto para relativizar a preponderância do “império” da família dita normal). 

Há amigos e amores mais importantes e não são mosquitos!

domingo, 25 de agosto de 2024

Eu não gosto de mim?



Acusaram-me de eu não gostar de mim.

Fiquei horrorizada! Eu que tanto luto para ser feliz. Procuro pedrinhas preciosas nos buracos da calçada. Procuro aproveitar o prazer e a bondade escondida em cada bosque, em cada alma.

Procuro fazer amigos que me encham o coração, ajudo no que posso e faço por trazê-los para o meu meio. Faço-o por mim, para meu gosto pessoal e também por eles, para lhes levar um pouco da minha alegria.

Eu gosto de mim e dos outros. Porque só quem gosta muito de si tem amor/amizade para distribuir. 

Talvez haja um certo desequilíbrio, reconheço, entre o gostar de mim e o preocupar-me demais com os outros.

Tenho de rever isto - gostar ainda mais de mim e estar-me nas tintas para ajudar o próximo. Tenho sobretudo de pensar naquilo que me dá prazer. Ser mais egoista.

O pior é que ter uma vida demasiado auto centrada não é saudável. Ser feliz consigo mesma e esquecer o meio envolvente, torna-se claustrofóbico e, às tantas, damos por nós a virar eremitas ou… dementes. Não estar dependente de ninguém é bom e mau, ao mesmo tempo. 

É bom porque se eu gostar muito de mim, isso far-me-á sentir realizada e “importante”, poderosa e vaidosa.

Mas, é mau saber que se anda nesta vida, em solidão emocional… só, orgulhosamente só, sem contar com aquelas pessoas de quem gostamos para se ser ainda mais feliz. Isso também me parece ser triste.

Ninguém é feliz sozinho. Com exceção de eremitas e seres estranhos. 

Eu gosto muito de mim. Mas preciso de me ver ao espelho. Preciso de ver nos olhos dos outros que agrado. Que valho alguma coisa como ser humano.

Gosto de mim. Mas se ninguém perceber isso, de que serve? 

Só eu e mais ninguém saberemos que gostamos uma da “outra”- uma espécie de masturbacão afetiva. Não é saudável. 

E perde-se tanta coisa boa da vida - que é gostar de nós porque somos bons, porque fazemos bem a alguém e isso é reconhecido.

Se alguém me diz que eu não gosto de mim, é uma desfeita no meu caracter… e essa pessoa pode não o fazer por mal.

O razão estará talvez em mim: que não sou capaz de demonstrar o contrário. Eu gosto de mim  tanto… que posso ter a ambição de ser melhor ainda e esta “aparente insatisfação” vem do facto de eu não conseguir mostrar aos outros a felicidade que existe em ter uma auto-estima elevada e em querer sempre mais e melhor para mim mesma.

Talvez tenha de ir mais vezes ao espelho e cantar bem alto como gosto de mim, como me sinto orgulhosa pelo que consegui, por ser corajosa e resistente, como construí uma vida de liberdade e independência, não preciso de quem me sustente ou me dê um tecto. Sou orgulhosa disso. E também de ser capaz de rir de mim mesma e de olhar os meus fracassos como um incentivo para melhorar. Estou orgulhosa desta mulher maravilhosa que sou, dos filhos que criei e do neto que cresce com a minha alegria, orgulhosa e feliz por gostar ainda mais de mim, por ser capaz de ultrapassar as dificuldades que a vida sempre traz… por privilegiar o amor digno acima de eventuais percalços, ou desgostos. acima de interesses materiais. E por enfrentar a vida, mantendo a cabeça erguida com um sorriso de prazer por gostar de mim: lutadora, refilona, sempre insatisfeita por querer mais, mas pronta para ignorar quem se põe em bicos dos pés e julga ser a melhor do mundo, a dona disto tudo e a única capaz de conquistar território pela via de artifícios vários. Mas como eu gosto de mim, saberei resistir e inovar, para tudo de mim dar ou para partir para outro lugar , sempre gostando de mim … e de quem me quer bem.

Por causa desta minha maneira de estar na vida, por causa deste meu complexo de superioridade, tenho aguentado estoicamente situações que, se calhar outros não aguentariam. 

Não é fácil estar sistematicamente a semear um campo de amor, onde floresçam as plantas de que gosto, e elas murcharem pela minha falta de jeito as regar ou, então, serem regadas, pisadas ou tinadas por outros. Não é fácil assistir ao ódio.  que pende sobre o meu campo de amor,  chuva ácida que tudo tenta destruir. 

Não é fácil persistir em andar de cabeça levantada, sorrir e ser normal num clima que conjuga forças para me diminuir a auto-estima, para me desprezar ou mesmo para me mandar embora.

Sinto que tenho sempre a mala feita, para partir. Afinal todos estamos de passagem… quer da nossa vida (porque morreremos, um dia), quer da vida dos outros (que podem escorraçarmo-nos, como um cão desprezado). 

Vemos todos os dias, à nossa volta e sabemos que é assim: já tantos cães vadios e pessoas mal-amadas, abandonadas e repudiadas…

Mesmo assim, tudo farei para manter a minha dignidade, preservar quem eu amo e guardar a pequena dose de felicidade que me couber… sem… desfalecer. 

A mim só chateia quem eu quero e admito, porque primeiro estou eu e o respeito por mim mesma. Eu e o prazer de estar viva!