sexta-feira, 15 de maio de 2020
Quarentena
Passei uma quarentena maravilhosa.
Pensei que a paz do ambiente e a companhia me envolveriam numa nuvem de afecto eterno...
Porque as coisas boas sentem-se como eternas, enquanto duram.
Havia tele-trabalho, havia sol, havia mar, havia momentos de ternura... e muitas horas de um silêncio habitado, tão gostoso...
Um silêncio que não era solidão, era paz.
Noites de aconchego em que não se percebia que se habitava um espaço de janela fechada sobre o mundo, nem se sentia a escuridão da noite, nem um distanciamento da vida normal. Foi um confinamento de luz, atrás da janela que nos isolava obedientemente do virus.
Momentos de felizes rotinas, de tarefas independentes, de presenças sentidas, mas livres... de ar puro, por dentro e fora de mim.
Se a felicidade - como se costuma dizer - não tem história, esta minha quarentena tem.
Tem e teve (pelo menos até certo ponto) uma história feliz.
Claro que todos sabemos que não há bem que sempre dure... Claro que estava preparada para partir, assim que fosse possível e necessário. Afinal outros mundos me esperam cá fora daquela redoma de madeira onde confinei, sem me sentir presa. Cá fora - no mundo real - esperava-me família, a quem dar apoio, os amigos que precisavam de mais aconchego mesmo que à distância de um telefonema, obras em casa e as muitas outras tarefas que uma mulher sempre inventa como prioritárias (do cabeleireiro, às compras de roupa nova, passando pelas arrumações de casa), Além disso, o trabalho profissional continuou a ser intenso - mas na prática igual ao que foi feito em tele-trabalho.
Aos poucos alguns sinais foram anunciando que havia uma percepção errada (talvez mentirosa) da vida fora da cabaninha amorosa da Branca de Neve.
Sempre assim fora e não era novidade que ao regressar ao meu sítio normal, nada voltaria a ser como dantes.
Só que fui confrontada - em choque - com algo que me disseram ser a "Nova Normalidade"!
E que a mesma consistia, entre outras coisas, em aumentar o grau de clandestinidade. A tal cabaninha que eu vi límpida e transparente como o mar em volta, cheia de sol e de liberdade, afinal teria de passar a ser (na melhor das hipóteses) um refúgio clandestino.
Quiz saber porquê?
Tremo em saber a resposta...
Ela vem aí... foi sendo anunciada... eu já a devia conhecer de ginjeira...
A razão para a minha clandestinidade eterna é sempre a mesma - não magoar a minha sensível e amorosa concorrente, que não pode saber tudo. Proteger a princesa é uma forma de defendê-la na sua miserável situação de dependência alegre e inconsciente e de, ao mesmo tempo, continuar a gozar daquilo que a princesa traz consigo de bom - uma simpatia e uma sedução requintada, mascarada de amor romântico, de carinho e dedicação sem limites, disposta a ir até aos confins do razoável, para tudo ganhar... nem que seja um dia mais tarde, à hora da morte.
E assim, prossegue a saga da eterna mulher pseudo-apaixonada, competente doméstica e elegante presença, que sobrevive e construiu toda a sua vida assente no estereótipo clássico da mulher dependente de um homem, qualquer um, que lhe dê posição, dinheiro e estatuto para viver em segurança e ter o reconhecimento alheio, da sociedade, do seu ego e, sobretudo, das outras mulheres.
É o eterno-feminino!Modelo tão do agrado dos homens, novos e velhos, mais ou menos instruídos, com diferentes ideologias e experiências.
A fada do lar - ser for boa, prendada, cordata, calma e carinhosa - é sempre melhor que a intelectual louca que queima soutiens e atira com as panelas ao ar (só não é a loiça porque está se parte e é chato, enquanto as panelas não!).
Quando não há Amor, prevalece o interesse, o proveito obtido do usufruto de quem der mais.
E quanto mais se tem melhor! Se se pode ter tudo e se o tudo é bom e agradável, porquê descartar alguém?
Afinal todos precisamos muito de vitamina F.
Eu também preciso de vitamina F, de preferência F de friens with benefits...
quarta-feira, 13 de maio de 2020
Quem quer discutir comigo?
Quem quer discutir comigo que a coisa mais linda da vida é o Amor?
Desafio todos os maiores de 60, para uma corrida de fundo: quem é o melhor, quem tem mais sabedoria, interesse, traquejo, opinião, fantasia e capacidade intelectual para aguentar um bate-papo inteligente, sobre este tema tão importante.
Desafio os trôpegos, mazelentos, meios surdos, pitosgas, distraídos, esquecidos, assarapantados ... até mesmo os descrentes na coisa e os que se julgam impotentes !
Todos juntos talvez consigam produzir matéria científica - conhecimento, como se diz na gíria das elites mais educadas, os intelectuais mais ou menos estudiosos e sérios e os curiosos auto-didatas.
Todos serão bem vindos para dizer o que pensam do Amor.
Ou mais simplesmente para falar do vasto mundo dos afetos que nos envolve a todos, mesmo àqueles que se sentem excluídos desta benesse.
Lembro que é grátis e não há escassez na natureza. Podem divagar à vontade - inclusive dizer asneiras, que não pagam imposto.
Contem histórias verdadeiras ou falsas. Sejam polêmicos, descrentes, convictos, apaixonados ou estupidamente desinteressados do tema.
Mas falem!
Falem do Amor, porque nada de mais importante existe. Não preciso de me alimentar quando (por sorte) o Amor se cruza comigo. Se, pelo contrário, ele fugir tristemente , também não como... porque o espaço guardado para o amor enche-se de amargura e a comida não cabe.
Se não tiverem imaginação, ao menos leiam este sábio (Gandhi).
Desafio todos os maiores de 60, para uma corrida de fundo: quem é o melhor, quem tem mais sabedoria, interesse, traquejo, opinião, fantasia e capacidade intelectual para aguentar um bate-papo inteligente, sobre este tema tão importante.
Desafio os trôpegos, mazelentos, meios surdos, pitosgas, distraídos, esquecidos, assarapantados ... até mesmo os descrentes na coisa e os que se julgam impotentes !
Todos juntos talvez consigam produzir matéria científica - conhecimento, como se diz na gíria das elites mais educadas, os intelectuais mais ou menos estudiosos e sérios e os curiosos auto-didatas.
Todos serão bem vindos para dizer o que pensam do Amor.
Ou mais simplesmente para falar do vasto mundo dos afetos que nos envolve a todos, mesmo àqueles que se sentem excluídos desta benesse.
Lembro que é grátis e não há escassez na natureza. Podem divagar à vontade - inclusive dizer asneiras, que não pagam imposto.
Contem histórias verdadeiras ou falsas. Sejam polêmicos, descrentes, convictos, apaixonados ou estupidamente desinteressados do tema.
Mas falem!
Falem do Amor, porque nada de mais importante existe. Não preciso de me alimentar quando (por sorte) o Amor se cruza comigo. Se, pelo contrário, ele fugir tristemente , também não como... porque o espaço guardado para o amor enche-se de amargura e a comida não cabe.
Se não tiverem imaginação, ao menos leiam este sábio (Gandhi).
À DESCOBERTA DO AMOR
Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive à sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.
Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive à sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.
terça-feira, 12 de maio de 2020
O caminho faz-se em frente
A vida é complexa, como um emaranhado de troncos e de raízes antigas, imbricadas umas nas outras, cujo fim e principio se confundem. Caminhos tortuosos, cheios de erros e de reviravoltas podem, numa planta de sol e de amor, transformar o negrume em viçoso verde.
É costume dizer-se que se aprende mais com os erros do que com as aprendizagens de sucesso.
Porque será?
Talvez porque um erro nos coloca à beira do abismo, inadvertidamente, no lugar onde somos confrontados com a nossa própria sobrevivência.
Ali, onde a morte nos espreita do fundo da escuridão, onde o futuro próximo é uma realidade cruel e dolorosa, temos de suspender um pouco a marcha e reflectir.
Refletir nos enganos e olhar o abismo.
Será que quero ir por aí?
Será que ainda há hipóteses de voltar atrás, emendar o erro cometido? Tantas vezes se erra por desleixo, por estupidez, sem ser por maldade, sem ser deliberado, sem más intenções. Quantas e quantas misérias e tristezas foram rotuladas de erro e o meu "crime" foi mera injustiça...
O erro ou o pecado para os crentes terá perdão? Haverá remissão do nosso engano, quando já estamos nessa borda de falésia que nos puxa magneticamente para o fim?
Sei que nem sempre o retrocesso é possível, nem sempre os nossos actos infelizes têm conserto e aquilo que foi apenas fruto de falta de senso, nos pode condenar à derrota à infelicidade, à rotura do que nos é mais querido.
Estou nesse planalto muito estreito de todas as decisões, joga-se a minha vida...
Não é a primeira vez que perco tudo, por ser uma irrefletida desalmada, por ser excessiva, extrovertida, escadalosamente sincera, frontal, de crítica acesa na ponta na língua... Bem tenho penado por isso, pelo meu mau-feitio, pela impaciência, pelo destrambelhamento. Sei que é a angústia da perda que me desatina e me leva à imprudência da loucura. Como se a loucura pudesse ser prudente ou sensata... que disparate!
Confesso: não sou uma menina bem comportada, certinha, obediente, cordata, amorosa, submissa...
Não sou e não é agora depois dos 60 que vou mudar. Tenho a alma inquieta, a imaginação desalvorada a flutuar em meu redor, sobre os meus mais queridos, os mais amados ou até os mais odiados compartes...
Sou assim, ponto final.
Quem me conhece, sabe. Quem não me liga, não quer saber e desliga...
Esses, os que não têm paciência para o meu feitio - efusivamente cortante, eternamente insatisfeito e desmesuradamente exigente e apaixonado - afastam-se.
Alguns desprezam-me, outros bombardeia-me de raiva contida ou explícita, há ainda os que fazem chantagem emocional (desses tenho anos e anos de prática) e os que me tentam dominar pelo medo. Desses tenho medo, confesso. Porque sou frágil...
Sou muito frágil, apesar da imagem de segurança e de garra. É mentira! Sou mais frágil do que um biscuit delicado, (não tão bonita, claro), que se parte se for mal cuidado. Sou mais vulnerável do que uma princesa mimada.
Esses, de quem tenho medo, afastam-se porque me temem e eu tenho medo de que se afastem porque não me entendem, porque se assustam, porque têm receio da diferença que se calhar manifesto e não vem a fragilidade que contém.
O horror à diferença facilmente vira ódio. (Não vou falar de chauvinismos, nem de guerras ideológicas ou reais baseadas na incompreensão pelo outro).
Mesmo que o sentimento do interlocutor não seja tão forte, não seja de verdadeiro ódio, facilmente resvala para a indiferença e para o fastio.
Para quê aturar uma louca apaixonada e "demanding", crítica e insatisfeita... se se pode ter paz e submissão, doçura e mansidão?
Realmente, eu não sou para todos os estômagos, mas sou assim!
Esforço-me muito por mudar (na medida do possível e dentro da civilidade necessária) mas há demónios que me assaltam e transtornam.
Não é todos os dias, que consigo desempenhar o papel de mulher ideal, de parceira perfeita, de amiga afetuosa, de mãe ou de filha desveladas, de profissional séria, fria e competente. Esforço-me bastante e tenho passado a vida inteira a representar (com alguma proficiência, diga-se) os papéis que a cada momento esperam de mim.
Em geral, desempenho-o com êxito (visto por quem está de fora e é objeto da minha ação).
Em geral, faço-o com sacrifício próprio, com renúncia à minha liberdade e maneira de ser.
E nos dias maus, expludo! É quando não consigo representar o êxito e assumir o sacrifício, nas doses certas.
Há que encontrar um equilíbrio entre a natureza selvagem e ardente que me inflama por dentro e o politicamente correto que a família, os amigos ou a sociedade me impõem.
Conseguir esse equilíbrio sempre foi um objetivo que tive em mente, na minha caminhada pela vida...
Considero que ele é importante porque me dá paz, porque sei que ser uma alma inquieta me pode levar à beira do abismo.
Todos precisamos de algum escape - e para mim só os amigos (poucos e bons, íntimos e compreensivos) me podem salvar, ajudando a pôr cá fora o que me queima por dentro. Ajudando-me com muita vitamina F a curar os erros, a desviar-me do abismo e a encontrar um caminho que vá em frente e seja bom, um caminho de paz, mas simultaneamente onde possa seguir de cabeça erguida, sem vergonha, sem pecado, sem viver em clandestinidade.
O caminho faz-se em frente, com bondade e compreensão - que é isso que se espera de um amigo - alguém que ouça, que acalme, que não faça muitos juízos de valor, mas aconselhe e critique os maus passos.
Esses são os verdadeiros amigos. Não aqueles que gritam, se ofendem, partem para longe e nos abandonam quando mais precisamos.
Preciso de vitamina F que, para quem não sabe, vem de Friends, a coisa melhor para nos tirar da beira da infelicidade suicida. É tão importante quanto a vitamina D, que o sol nos dá... para não falar daquela que não existe à venda, nem se pede emprestado - a A, com A grande.
E vou encontrar esse caminho, tortuoso e imbricado como todos os trilhos da vida; e vou recheá-lo de flores regadas a vitamina F, fazer muitas coisas boas que ainda não escolhi mas de certo serão para dar...sempre para dar a coisa certa, aos amigos certos e amados, aos desconhecidos por descobrir... Vou deixar para trás os erros - merda de cão que pisei sem querer e limparei sem nódoa - por ora, vou em frente...
Por enquanto, o abismo que espere. Para já a aventura, mais uma, a de estar só e caminhar direita.
segunda-feira, 11 de maio de 2020
Solidão e Liberdade
Nada mais livre que o mar!
Vai e volta quando quer... ao sabor de uma força invisível e superior: a Lua.
Pela energia agitada do vento, pela roda em permanente movimento das altas e das baixas pressões, pela leveza de cada gota de água e pelas forças da natureza, ele mexe e avança... recua e volta aos nossos pés.
Nunca se deixando apanhar, fugindo depois de um momento de prazer, regressa na próxima onda, para fugir logo a seguir, para longe, rumo à origem da sua liberdade.
No fundo ou no ar, de onde quer que ela venha essa força que o move, o mar é livre, ou assim nos parece esse infinito azul, que se ama e não se tem.
A sua sabedoria é sibilina, de manha subreptícia, movido por forças que se movem na sombra da clandestinidade, invisíveis. Mesmo que a ciência as descodifique, para uma alma simples e um olhar romântico, o mar está lá para nos deslumbrar e para nos fazer sentir livres.
Misterioso e sedutor, só nos mostra o que tem de belo, mas as forças que o movem são obscuras.
Afinal, há uma liberdade aparente, linda de se ver... linda e que apetece seguir, embalada pela sua música, pela dança das ondas ou, simplesmente, no som das águas das ondas chocando na falésia ou deslizando com alegre barulho na suave areia.
Será da beleza deste azul que gostamos? Ou o que nos atrai é a noção de infinitude e de liberdade?
Porque quase todos gostamos do mar.
Eu gosto por tudo isso, mas sobretudo pela sensação de que é um espaço infinito de possibilidades e de liberdade. Um lugar sem limites, onde posso ser eu. Eu com a minha solidão, sou mais eu... se estiver em frente do mar.
Quem não ama a solidão, também não ama a liberdade: apenas quando se está só é que se está livre (...) Cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exacta do valor da sua personalidade. Pois, na solidão, o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o grande espírito, toda a sua grandeza; numa palavra: cada um sente o que é.
SCHOPENHAEUR, A.
Eu estou só e olho o mar. Quando posso e paro em contemplação, ele lembra-me a minha solidão voluntário. Eu, o mar e a solidão - um triângulo de liberdade!
Porque se a solidão não for de abandono, se não for uma contingência, nem for um resultado traumático de falta de uma comunidade de afetos, então a solidão escolhida é uma caminho de alegria e um espaço ilimitado de opções, de futuros, de alegrias, de novos amigos... de novos mares.
Se a solidão for uma escolha, uma via de luta pela dignidade pessoal, helás!... que se vá por aí - mais vale só que mal acompanhada, lá diz o povo.
Quer se fique de pé olhando o mar, de cabeça erguida e digno orgulho no rosto, quer se desista de tudo e se mergulhe nele para sempre, o que importa é que a decisão seja nossa. Que a escolha não tenha limites, nem preconceitos, que seja lúcida... e corajosa, porque a primeira onda apanha-nos de chapão, enrola o corpo, trucida a alma e dá cabo da gente... se se tentar ir ao mar sem cautelas.
E dói, ele há chapões que doem muito.
Quer se fique de pé olhando o mar, de cabeça erguida e digno orgulho no rosto, quer se desista de tudo e se mergulhe nele para sempre, o que importa é que a decisão seja nossa. Que a escolha não tenha limites, nem preconceitos, que seja lúcida... e corajosa, porque a primeira onda apanha-nos de chapão, enrola o corpo, trucida a alma e dá cabo da gente... se se tentar ir ao mar sem cautelas.
E dói, ele há chapões que doem muito.
Á segunda, ou se tenta nadar para terra à procura de bom porto ou se naufraga de vez.
Qualquer que seja a escolha, que seja livre, alegre e forte como o mar azul que eu amo.
sábado, 9 de maio de 2020
A Nova Normalidade
Há uma nova normalidade - soube hoje.
Já desconfiava!
Perante a pergunta de como vão as coisas, obtive por resposta: Normais!
Normais, só se forem para ti porque por mim não estão nada normais. Não me parece que estejamos em "normalidade".
Rapidamente veio a resposta. Sorriu, satisfeito por conseguir contornar airosamente a questão, orgulhoso pela sua prontidão de raciocínio e pelo desembaraço manifestado, por sentir que o poder estava do seu lado e que dominava com segurança a situação - resumindo, naquela fracção de segundo, era ele o dono de tudo!
Da liberdade! Quiçá do Mundo...
Há momentos assim, em que uma pessoa se sai bem e se sente orgulhoso com as palavras certas que saíram no momento certo, para calar o adversário. Neste caso, para calar e magoar uma amiga que, ainda por cima, lhe quer bem e que não faria muito sentido ser arrumada para o lado do inimigo...
Mas claro que isto de guerras e de In são sempre coisas tolas, contingentes e subjetivas.
A resposta certa e rápida foi: É a nova normalidade!
E assim, sendo nova, marca a fronteira de uma rotura com algo de velho.
Não pode existe o conceito de nova sem ser por contraposição com algo que mudou e passou a obsoleto, sem significar que houve um passo em frente no sentido de uma mudança qualquer.
A normalidade conhecida acabou e não nos podemos mais espantar, porque chegou uma nova e é essa que passa a prevalecer.
Não há que reclamar, nem lembrar a antiga, nem esbugalhar os olhos de espanto, a normalidade normal é nova, pronto!
Logo, apesar de desconhecida (para mim que não a criei, não a concebi, nem entendo), só sei que é nova, logicamente diferente...
Mas nova como ?
Será que me é legítimo perguntar? Ou sendo nova, não me diz respeito... fiquei para trás encalhada na normalidade antiga e esquecida?
Isso já percebi. Se é nova e eu não a conheço, é porque não é minha, nunca me foi apresentada, nem explicada. E o sorriso que não vi, mas que teria um toque de cinismo à mistura, insinuava isso: era uma nova normalidade, misteriosa a que não teria acesso nem informação. Decretada por ele, ponto final. Passaria a vigorar e não admitia réplicas.
Tenho algumas dúvidas em saber se posso perguntar o que é a nova normalidade ou se me devo calar, porque não é nada que me diga respeito.
Assim, passou a haver duas normalidade: a que conheço e vejo como normal e a outra: a nova, que não sei o que é.
Em relação a esta, não me é dado perguntar? Ou será que, pelo menos, terei direito a uma pequena explicação sobre o que gerou a novidade?
Será que o silêncio, a aceitação da rotura, o meu afastamento perante a visão de que se avizinha de uma partida para uma nova realidade - normal para uns e traumática para outros - são a atitude mais certa?
Vou esperar para ver...
O mais certo é não me ser dada qualquer explicação e deixada na ignorância do que é a nova normalidade.
A mim, pareciam-me rosas... afinal são peónias, de outrém!

Posto isto, no turbilhão das dúvidas, curiosidades e angústias, de tanta coisa a acontecer e a submegir-me, ao mesmo tempo, deparo-me com o título da crónica de José Tolentino de Mendonça - chamada "Normalidade".
Andamos todos à volta do mesmo, por razões diferentes...
Talvez seja a inata aversão à mudança que nos toca a quase todos, talvez seja preguiça, velhice, desalento em aceitar que o mundo mudou para mim, que muda todos os dias para toda a gente e que o espanto não é coisa que se deva praticar.
Não nos devemos espantar nem questionar muito. Apenas aceitar que o nosso futuro próximo vai mudar e não como gostaríamos.Aceitar tudo, pacificamente, aceitar a dor e suportar com um sorriso falso (que mascare a angústia) vendo surgir um amanhã que não será como queremos, será pior... provavelmente.
Porque ver um futuro radioso e promissor, melhor, de uma nova normalidade e com paz, é algo que me custa racionalizar.
Tolentino diz que a "pandemia nos leva à consciência do limite".
É isso!
Preciso de ter consciência dos meus limites, dos limites a que uma relação está condenada... perceber quando nos ultrapassam ou quando nós estamos a forçar os limites impostos. Não vale de nada, querer ir para além dos limites! Por muito que nos esforcemos por resistir, por muita vontade que tenhamos de que tudo corra bem, por muito empenho posto em fazer tudo direito, por agradar, por amar, por distribuir afectos e solidariedade - por muito que se faça, os acidentes acontecem.
Chega um vírus, aparentemente inofensivo, espirra, tosse e eu morro de asfixia.
É isso!
Asfixio na mentira e na toleima que aquele bicho encerra, pensando destruir o máximo de seres à sua volta. Não vai desistir.
Precisa de se alimentar de sangue e pele humanos, precisa de se alojar numa célula quente e confortável, precisa de se reproduzir, de ser criativo e inovar, em mutações sucessivas... só assim se conseguirá espalhar e garantir a sua sobrevivência. Entrará no primeiro poro de um pedaço de pele mal desinfectada, virá por carta no correio, virá de bicicleta, sob a forma de carinho que contamina a pele ou de doce que aconchega a barriga.
Lutará até ao fim. Ás vezes, parece que está latente e incomoda pouco, outras ataca em força. Irá conseguir infectar quem está por perto, mesmo quem se protegeu em quarentena durante dois meses radiosos e limpos. Veio e trouxe a nova normalidade.
Não sabe e não lhe interessa essa quarentena, aparentemente asséptica em que vivi, sem ter consciência dos meus limites. Ao primeiro vislumbre de espaço não preenchido, não desinfectado, o bicho ataca e mata.
Mata, mesmo!
Neste momento, o inimigo que tão bem se comportou numa quarentena desinfectada de dois meses de sol, está nos cuidados intensivos... pode mesmo partir para o além... deixando o bicho à solta, que o seu destino é a aventura entre continentes.
Porque ele não tem consciência dos seus limites, é uma célula animal sem alma, vai por aí, o seu único limite é saber que se parar de investir em homens, morre.
Eu, tenho outra responsabilidade e outra ética - sou humana, tenho inteligência e outras missões na vida, não estou aqui para infectar e sobreviver, por isso devo ter consciência dos meus limites. Devo ponderar bem quais são eles, até onde posso ir sem ferir a minha dignidade de mulher livre...
Posso até sair derrotada, mas que o seja com nobreza, em liberdade.
Sair do confinamento que, no princípio, era necessário, mas agora já não é. Vou levantar a cabeça e sair da clandestinidade, mesmo que isso implique mergulhar na tristeza e na solidão.
terça-feira, 28 de abril de 2020
Futuro
Nada voltará a ser como dantes! Podem pensar o que quiserem, podem fixar-se
na ilusão de que a quarentena é uma paragem no tempo, que a vida se
encarregará de retomar o seu rumo (exceto para quem partiu de vez, claro).
Não! Isto não é um interregno... é uma mudança.
E para alguns (talvez os mais velhos ou menos crédulos) é uma mudança
definitiva, sem retorno.
Não se trata de algo transitório, irreal, artificial, irrepetível,
diferente...
Nada disso! Olho o futuro como quem olha para a linha do horizonte no
mar, num dia límpido... igual, linear, parado, uma quarentena
permanente.
Para mim, foi um período de confronto de mim com a minha realidade, de
mim com as minhas circunstâncias, de um aprofundar da consciência de qual
o meu lugar... o que faço aqui, quem me quer aqui... porque me mantenho em
quarentena.
Sim, porque não faço exatamente o contrário do recomendável e vou eu por
aí... até ficar mesmo infectada e morrer? Porque não é fácil, segundo
dizem. Os supostamente saudáveis escapam ou tem doença ligeira.
Creio que depois disto nada será igual, nada será semelhante à fantasia
anterior.
Mergulhei no período de contenção e recolhimento como quem mergulha numa
piscina de realidade. E percebi que, até então, vivia uma espécie de
fantasia, aquela onde eu e todos os outros dançam e interpretam o seu
papel, aquele que alguém lhes deu ou que eles escolheram, com mais ou
menos consciência de que estavam a fazer uma escolha. Porque fomos
ensinados a que a vida é um palco e temos mesmo de escolher que personagem
queremos representar e como devemos interagir com os outros personagens,
para dizer a "fala" certa no momento certo, tudo direitinho para o público
gostar de nós.
O distanciamento social tirou-me do palco, fui dispensada de atuar,
fiquei à margem do espetáculo, sózinha comigo mesma e com a dureza da
minha realidade, despida de sonhos e de floreados fantásticos. Vazia de
projetos e de expetativas.
Depois da quarentena, nada será como dantes!
Pelo menos para mim, que perdi a força de encetar um reinício. Reset,
restart... não encontro os botões!
Perde-se a esperança, os objetivos, o vigor de continuar a persegui-los,
deixa-se de correr à procura de amigos, deixa-se de acreditar neles, em
milagres ou na sorte. Deixa de ser importante estar bonita, de sorrir para
o espelho, de inventar, de fazer da vida uma festa, sempre criativa e
emocionante.
Perde-se a inocência... a quarentena levou-a num vendaval de
realismo.
Aqui e agora na realidade do momento presente, tudo é mais
verdadeiro.
Porque o momento presente é exatamente igual ao minuto anterior e porque
a hora seguinte será muda e quêda, como as que a antecederam...
Parados, calados, introspectivos, vagamente distraídos, vemos mais um
episódio de uma série bestial, apanham-se mais umas ervas no jardim... que
é uma espécie imaginada dos jardins suspensos da Babilónia...
inacessíveis, quiçá inexistentes...
Se eu bebesse, seria uma cerveja quente da dispensa (as frescas já tinham
marchado) e concluiria que são tão boas como nada... e, quiçá, nem será
preciso voltar ao bar da esquina para um copo, no futuro próximo em que
talvez o balcão esteja desinfetado e o barman sem máscara. Essa cerveja fresca num ambiente amistoso era afinal fantasia,
real é mesmo esta que bebo comigo mesma, a única que interessa, tudo o
mais se esfuma na irrealidade daquilo que nos ensinaram que ver como
real.
Há muito que sei que a verdade não existe! Mas é tão bom, deixar-me
embalar e esquecer-me por momentos. É tão bom pensar que sim, que existe e
é real, palpável, verdade verdadeira e segura.
Seria tão incrivelmente maravilhoso pensar que há futuro e que nesse
longínquo lugar... talvez haja viveiros que vendem plantas em vasos, que
podem plantar-se e "pegam" logo. Instantâneo!
Mas não. Hoje e na realidade, a natureza é lenta... e cada pèzinho de
flor que se corta para tentar que crie raízes para voltar a crescer, cada
semente pequenina que se lança à terra tem fortes probabilidade de morrer,
nesse percurso lento, demorado de construção de uma vida. Numa lentidão de
quarentena.
E depois dela acabar (para alguns, como dizia), tudo será muito lento...
porque regressaremos a nós próprios, como se fosse um principio... Ora,
quem é velho não tem mais principio... só tem fim.
Pode levar algum tempo a atingir esse fim, mas o lento caminho para o
vazio prevalece, com a sua cara de realismo novo.
Ir comprar plantas prontas a enfeitar um jardim era um prazer, um passeio
excitante. Um prazer cortado! Agora nada mais parece ser excitante e o futuro afigura-se igualmente
enfadonho, tão chato como a semana anterior... ou a próxima, tanto
faz.
Descobri que vivo em quarentena dentro de mim, desde sempre. E que as
poucas vezes em que saí de dentro de mim, foi por motivos essenciais: por
exemplo, para saberem que existo (lembrar aos mais esquecidos), para
procriar os seres autónomos de que a Humanidade se compõe, para tentar dar
esmolas solidárias a quem não as pediu e as despreza, foi para renegar o
Bem... que me foi mal oferecido.
Saí pouco e caminhei tropega pela vida, não soube ir a direito, levar
mascara e luvas...
Por isso, fulminada por mais um virus, novo e parecido com o do ano
anterior e também com aquela gripe que me ataca sasonalmente há 5 anos,
tive uma recaída.
Por isso, sei que continuo a não estar imune e que tenho de regressar à
quarentena.
Quando a dita normalidade do teatro da vida voltar para o comum dos
sobreviventes, eu regressarei àquele pântano, mais parecido com
quarentena, onde não consigo ver a luz ao fundo do túnel.
E depois de mim virá quem consiga, por mérito próprio, não só ver a luz,
mas o mar lindo, azul, esplendoroso ao fundo do túnel.
sexta-feira, 24 de abril de 2020
Belgais
Vai-se a Belgais com algumas expectativas, mas encontra-se outra coisa...
Li isto em qualquer sítio e é tão verdade que não resisti a citar.
Porque é deveras difícil descrever o que se encontrou... ou o que se viu, menos ainda aquilo que se sentiu... para além do que se ouviu (Shubert).
Havia todo um ambiente sensorial envolvente e único, mágico, total... Diferente de um concerto, foi mais uma visita a casa de alguém de família, íntimo e requintado.
Total é uma palavra que não diz nada, mas com ela arrumo todo o turbilhão de sensações, de emoções que senti e para as quais nem saberia encontrar um nome. O nome certo! Todos os nomes seriam poucos, só serviriam para empobrecer o acontecimento.
Um evento que me marcou tanto que quando voltei só disse: ninguém devia ir deste mundo, sem ir pelo menos uma vez na vida a Belgais.
Na semana seguinte, ficámos fechados em casa, todos.
Nos dois meses seguintes, o ambiente ficou pobre, viciado e doentio. O confinamento social amoleceu-me a mente e a capacidade de gritar ao Mundo que existe Belgais!
Porque nós todos, nós e essa gente que não foi a Belgais, passou a só ver medo e morte, a sofrer, a desenrascar-se para não sofrer, a ajudar os outros quem podia fazê-lo... a tentar ser normal em letargia, a tentar trabalhar mais do que seria normal, a comprar o que não havia, a inventar alegria e música virtual, a encontrar amigos à distância de um clique informático, a fazer pela vida e a fugir à morte.
Música é vida, música há muita (tal como os chapéus...), mas Belgais só há um.
"Sobre o poder encantatório da música
disse Homero na Odisseia.
Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.
Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.
O belo abre a porta do que
normalmente, no meio da banalidade rasante, se não vê nem ouve. Mas, quando se
viu o invisível e se ouviu o inaudível e a sua beleza, tudo se transfigura e
reconcilia. Este mundo torna-se outro, sem deixar de ser este. Daí, a
exclamação de felicidade, que também os discípulos experimentaram, aquando da
transfiguração de Jesus: "Como é bom estar aqui!"
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