terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Deus Sabe Quanto Amei

Vincente Minnelli, Filme de 1958



O que vale hoje uma história de amor-paixão?
Numa sociedade cada vez mais afastada de grandes lutas e de grandes emoções, que tudo simplifica e racionaliza, incluindo os relacionamentos ditos amorosos, ainda há lugar para o drama passional? Ligações passageiras e descartáveis, interesses materiais e conforto emocional fazem parecer pirosos os enredos românticos de há 50-100 anos. 
Será que as pessoas ainda se apaixonam? Claro que sim, como sempre, aliás, através dos tempos. No entanto, esta sorte é um bem que toca a poucos. Considero sorte amar e ser amado com a intensidade exacerbada e louca dos grandes enredos da literatura ou do cinema. A fição copia a vida, exagerando-a talvez, potenciado a força de sentimentos-limite. Mas se depurarmos as histórias do seu exagero ficcional, que é útil para remarcar a ideia que quer transmitir, fica uma realidade mais real, nem por isso menos intensa e verdadeira. O que não quer dizer que seja normal, vulgar ou vivida igualmente por todos. Estou em crer que vivenciar um amor-paixão não é para todos, mas será para muitos felizes contemplados. Os restantes contentam-se com sucedâneos; provavelmente, serão mais felizes, por amar em paz e em lume-brando, sem sofrimentos nem emoções fortes... para o melhor e para o pior...
Sempre foi assim, mas agora o assunto parece estar mais longe dos interesses da maioria, talvez por pudor ou por rancor, apelidamos isso de parvoíce... coisa de telenovela, na melhor das hipóteses.
A literatura e o cinema perderam o interesse pelo tema do amor-paixão, pelas grandes histórias amorosas, de tensão dramática e intensa, pelo aprofundar do sentir de homens e de mulheres perante a revelação da "paixão" enquanto doença grave, forte... e, certamente, passageira...
A sociedade "amansou", prefere a acalmia do viver das relações, sem sofrimento,  num redor de conforto que alie paz com prazer.
Estamos todos mais mimados, muito preocupados em evitar tensões, problemas e sofrimentos... em evitar a dor de uma paixão impossível, de um amar em silêncio ou em clandestinidade. Uma sociedade de conforto que descarta tudo o que der chatices, desde o trabalho penoso aos bens obsoletos... até relações amorosas complexas.
Neste lugar clean e simplificado, que espaço há para as paixões? Pouco e vivido na privacidade pelos eleitos. E qual o papel da fição? Se copia a vida, dá aos humanos o que eles sabem entender e o que eles gostam de viver - daí o amor-paixão ter passado de moda. Desapareceu do cinema e da literatura? Talvez subsista na poesia...
Seria possível hoje um filme como "Deus Sabe Quanto Amei"?
No entanto, estou em crer que ainda se ama assim... talvez pouco e raramente...

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sol e Lua



Há uma energia cósmica que espera por mim. Todos temos, nesta terra tão terrena, direito a um pouco do pó das estrelas, à nossa quota parte de transcendência universal... talvez ao pirilampo de luz que sobrou do rabo daquele cometa, que rasgava o infinito no exato momento do nosso nascimento.

Trespassou a nossa existência sem o sabermos, E assim, umas migalhas de brilho ficaram guardadas, no banco dos bens (cósmicos) doados, pronto para acudir aos mais carenciados, aos que precisam de sol e têm fome de alegria, aos que sonham com o sossego e a paz de uma noite de luar, aos que exigem às estrelas ideias que brilhem e se convertam em trabalho, em progresso para si e para os outros. Para quem precisar e tiver fome de bens cósmicos, eles estão lá à nossa espera.
Não sei onde... mas devem estar.
Gente normal vai ao tal banco e recolhe as suas migalhas transformando a energia cósmica em virgens e santos, em religiões e seitas, credos ou bruxarias. A transcendência e a espiritualidade sempre presentes na vida dos homens, que procuram infinitamente de uma explicação para o Infinito...
Gente especial transforma essa energia em amor!

Tentei saber como lá chegar - ao tal banco do pó estrelar - como obter as nano-partículas do "meu" Universo, como fazer para ir ter com o sol, com a lua e com as estrelas que eram minhas por direito próprio. Sonhava descansar na imensidão celeste, adormecida e acordada numa lua qualquer, docemente embalada pela brisa da noite. 

Imaginei-me sentada numa lâmina de quarto crescente, pernas penduradas a baloiçar, cabeça encostada no ramo mais luminoso, lunática e feliz. 
Certa de encontrar a paz na noite escura, no meu encosto lunar, algum brilho passaria para mim... lunática e feliz... lunática e dormente... lunática e esvoaçante. 

Difícil de alcançar esse lugar etéreo onde me sentiria bem. Continuava sonhando... lunaticamente, mas os pés não me saíam do chão. 

Ora bolas, eu não voo, tenho de ir à lua, mas como?
Procurei destino e meio de transporte adequado, no comércio tradicional. As transportadoras rodoviárias - mais conhecidas por camionetas da carreira - interrogaram-se incrédulas sobre o meu pedido. Conheciam vários locais onde havia bancos de bens doados, bancos alimentares, de roupa ou de tarecos. Mas de pós cósmico e de estrelas a granel, não sabiam. Estrelas havia muitas mas de papel, de plástico num armazém chinês, sobras do Natal, ali para os lados da Abrunheira. Quanto à Lua tinham duas alternativas à minha escolha - o Monte da Lua no Alentejo e os Parques da Lua em Sintra, seria coisa simples arranjar bilhetes. Mas não era isso que eu procurava apetecia-me algo de diferente...



Quanto às agências de viagens, mais finas e habituadas a clientes excêntricos, com pedidos sofisticados - não se atrapalharam com o meu pedido, disseram logo que sim, evidentemente. Asseguravam viagens para qualquer destino, bastava aceder aos grossistas ou às plataformas turísticas à escala mundial onde se pode encontrar ou mandar "produzir" qualquer pacote de viagem, por mais complexo que seja. O ramo das naves espaciais tinham lista de espera, mas não era de todo impossível.

Os pedidos que os incomodava um pouco mais - se bem que não fossem raros - eram para a Suiça, para os tais "hotéis" de decoração minimalista, clean,  de serviço rápido e eficiente. Sim, esses mesmos... de onde se entra e não se sai, ou se se sai aconchegado num pequeno pote.

Sem ninguém que me leve à lua, resta-me esperar.

Sou uma lua nova, apesar de caminhar para velha, nova porque escura e apagada, parda do outro lado do universo... sem sol.


domingo, 28 de janeiro de 2018

Paz



De onde vem a Paz? De dentro de nós, do mundo em redor, de uma paisagem sem gente nem barulho...?
Quando a ansiedade bate forte, quando o sono está refém de uma guerra sem soldados, quando um turbilhão de sentimentos e angústias ofusca a capacidade de raciocinar, onde se vai buscar/recuperar a paz?
Até a mais pacífica das paisagens, um mar parado, um espaço vazio e em sossego já foi um dia um cenário de guerra - as praias do desembarque. A Normandia de milhares de mortes, de sofrimento, de tristeza, de caos que foi preciso reconstruir, de alegrias que foi preciso recuperar é hoje um lugar de paz... pelo menos de aparente sossego global. Com o tempo e a vontade humana, conseguiu-se e a paz voltou. Hoje respira-se o ar puro do lugar, com vagar e descontração, sente-se a densidade da memória com fervor e emoção... mas em paz.
Queria para mim uma limpeza do espaço de batalha, uma acalmia interior igual. Queria dormir e sonhar com reconstruções e coisas boas para fazer, com um novo amanhã promissor, cheio de esperança mesmo sabendo que trará algumas desilusões. Um futuro-presente com objetivos, porque são os objetivos que nos dão força para continuar o caminho. E os afectos também...
Porque são os afectos que nos acampanham na procura e na construção dessas finalidades que prosseguimos. E dão aconchego à caminhada, uma busca do sol e da paz em companhia.
Gente, quero gente boa, amigos de coração aberto... tão importantes para o equilíbrio interior, o centro da paz, da minha...


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Encontros



Há lugares onde a gente se encontra e outros em que se desencontra. Connosco ou com outro alguém.
Desencontrarmos-nos de nós mesmo é bem pior do que perder um encontro com alguém.
Ao invés, encontrar o nosso eu todo inteiro, sentir que estamos bem dentro de nós, em boas condições de sanidade é algo bem agradável.
Mas esse encontro interior bem conseguido nem sempre é fácil porque quando olhamos, as mais das vezes, só vemos o que não está lá, tendemos a remarcar o negativo, as falhas, os insucessos. Reparamos, sobretudo, na falta que nos faz atingir aquilo que achamos que nos faz falta. Talvez porque a noção do que “nos faz falta” esteja mal formulada... Daí o desencontro: entre o possível e o real. Talvez porque colocamos muito alta a fasquia dos desejos e dos objetivos. 
Todavia, é bom e saudável olhar para o alto, ambicionar um pouco mais de sol, arrumar coragem para dar o passo seguinte, percorrer a estrada do desconhecido, caminhar sempre... Senão onde haveria lugar para os sonhos? Onde ficaria o irreal inatingível,  o desejável que nos dá alento para continuar a busca? Será que é bom que exista esse sol exterior longínquo e brilhante que incentiva o nosso caminho para lá do lugar dos nossos pés? Ou, pelo contrário, percorrer esse caminho ofuscado pelo seu brilho poderá ser uma fonte de desilusão e de insatisfação permanentes?
Tudo isto a propósito do embate causado pelo filme “O Meu Belo Sol Interior” -  com Juliette Binoche na busca de uma vida afetiva gratificante e equilibrada. Na sua corrida por encontrar um amor “como deve ser”, esbarra-se em sucedâneos mal amanhados... que só lhe causam perturbação.

Conclusão: não é possível ambicionar um amor cor de rosa, numa idade madura em que as motivações alheias andam tão desfasadas das nossas... Terrível! Demolidor da esperança...
Estamos condenados(as) à mediania, à monotonia, aos casos avulso, sem grande retribuição/empenho afectivo? É melhor isso do que não ter nada? Ou mais vale assumir que o príncipe encantado provavelmente não volta a aparecer? Sei lá... Há por aí uns pajens simpáticos e sérios que nos podem acompanhar no passeio, pedalando alegremente pela estrada fora...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

No Éter

Quando a inspiração falta e a mente procura um lugar de refúgio... os grandes poetas estão lá, à nossa espera. 

A Paz, enquanto lugar desejado, pode ser um fim demasiado angustiante e radical.

Melhor é viver de pés bem assentes na Terra, sítio de pouca paz, de algum sofrimento, mas o nosso lugar natural. No éter, só os poetas que buscam o Nirvana, seja lá isso o que for... (mas não me parece muito bom, tendo em conta o destino de Antero).



Nirvana

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero de Quental, in "Sonetos" 

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Macumba




Eu não acredito em bruxas mas, como todos sabemos, elas andam por aí!
E, sobretudo, acredito em bruxas com caras de anjo, boazinhas, bom coração, de quem todos gostam.
Interrogo-me muitas vezes como é que determinadas pessoas muito determinadas conseguem obter os seus intentos. Com determinação, certamente! Com perseverança, fé, paciência e força, são capazes de transformar energia positiva em algo de negativo para outrém, em proveito próprio.
Bruxas são aquelas que, para salvaguardar os seus interesses, ousam praticar o que for preciso... o que pode, eventualmente, traduzir-se no mal de alguém. Para isso, podem recorrer à mais variada gama de “instrumentos”... desde a persuasão ativa (as chatas), até às surpreendentes mudanças de ânimo (as manipuladoras)... desde o espiritualismo exacerbado e transcendental até à macumba ordinária (as espirituais).
Qualquer que seja a via, têm em comum saberem bem o que querem e saberem que só podem contar com a sua “arte” para atingir os seus objectivos. 
A bruxaria tem muitas casas e muitos rostos. Por isso é tão difícil de reconhecer. Normalmente só as vítimas percebem... por isso mesmo, porque são vítimas. As bruxas têm em comum a fé e a esperança de que conseguem tudo,  têm a força que lhes vem de imaginar que é para seu bem e quiçá dos seus mais queridos.
E bruxas somos todas nós, como se sabe! 
Bruxaria, manipulação ou determinação são folhas da mesma árvore, ditadas pelo instinto de sobrevivência e de luta pelo poder... pelo poder de dominar, quando o domínio implica arrasar a concorrência e quando se quer subir ao pódio sòzinho.
Puro engano. Os lugares de pódio são transitórios... como tudo na vida, aliás. Estamos todos de passagem e não somos donos de nada nem de ninguém. Dos bens materiais talvez se seja dono, a lei trata de salvaguardar alguns direitos. Quanto aos afetos ninguém é proprietário, talvez usufrutuário durante algum tempo. A única coisa que podemos ambicionar é esticar esse tempo – conseguir um domínio do afecto, mais pela via temporal do que real.
E quando não se consegue um lugar de poder, há que pedir aos deuses, aos astros ou aos espíritos que realizem os nossos sonhos. E aos homens que, confrontados com a força do sobrenatural, os concretizem, porque macumba tem muita força.
Macumba é um antigo instrumento musical de percussão africano, de toque repetitivo, irritante e martelador. Virou sinónimo de bruxaria, talvez por ser capaz de derreter os neurónios de quem o ouve, a ponto de este ceder e se deixar encantar... para se libertar do barulho, para acalmar nas mãos do macumbeiro, docemente... entregue, dominado e feliz.
Antes de mais é preciso um sonho e muita força para acreditar nele, para lutar por ele. Não ter medo do ridículo e ser cego para o mundo em redor. Ser chato, insistente, atiradiço, autista em relação ao impacto. É preciso prosseguir indiferente a quem possa estar a assistir ao cozinhado dessas mistelas de bruxaria... e continuar mexendo o caldeirão até estar no ponto. Cuidado, no entanto, para que o joão ratão não morra cozido e frito no caldeirão, para que fique apenas em lume brando, quentinho e bom.
Uma bruxa boa e competente sabe isso tudo. Uma bruxa inteligente é capaz de esperar com paciência por resultados a longo prazo, prefere fazer tudo com calma e com pensamento, concentrando em si todas as forças do universo – as que lhe dão paz para perseverar e clarividência para agir com eficácia. A meditação convoca os espíritos nesse sentido, se não for os espíritos do Além (o qual não deve existir) pelo menos o nosso espírito, atraindo as forças e as pessoas convenientes, repelindo as que não interessam, qual força centrífuga para além da mandala e agregando os afectos centripetamente para o núcleo fundador da mesma.

Não se pode fugir à energia cósmica de uma mandala, que representa a relação entre o homem e o universo, delimitação de um espaço sagrado, imagem simbólica do mundo interior de cada um, lugar de meditação e de congregação dos espíritos que reconciliem o indivíduo com os seus afectos num círculo apertado, absorvente e iluminado. Um círculo colorido, construído com luz e cor, mas cerrado sobre si mesmo como compete a quem é redondo. Fechado na matéria de que é feito, fechado no espírito que o enforma, sendo que este é a maior prisão.
Com mandalas ou macumbas, velas ou procissões, fria inteligência ou denguice amorosa, a estratégia de uma boa bruxa conseguirá os seus intentos. Porque elas andam por aí, são perigosas, velhas e sábias... mesmo as novas e sexy!



quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A Prima




Ele há primas e primas! 
Há primas de quem gostamos e outras que são umas grandes chatas. Umas são úteis e presentes, outras conhecemos vagamente e nada nos dizem. 
Curiosamente, todas  elas mantêm o nome de prima, mesmo não sendo primeiras no nosso coração.
Algumas são bem secundárias. Injustiça que a genética nunca poderá resolver!
Mas hoje venho aqui para contar a história de uma prima verdadeira, uma prima primeira e premiada - a prima Antónia, mulher de leis, sangue na guelra e mão na anca. Não, não tinha prática de varina nem de peixeira, a mão na anca é em sentido figurado. Se bem que, por vezes quando discursava na barra dos tribunais, lhe apetecesse tal gesto. Advogada de causas duras, de gente dura a cheirar a peixe, a vício, a mundo pesado, de barra. Mulher habituada a vencer - a bem ou a mal - não por si mas pelo outros, a quem ajudava com gosto e que com gosto lhe pagavam para os defender,
Se fosse americana estaria rica. Em Portugal, não se enrica assim no submundo dos pequenos criminosos. Era uma mulher vistosa, não tão chique como aquelas das séries televisivas, mas que dava nas vistas e merecia comentários... nos meandros das cadeias, nos corredores dos tribunais...
- "Quem te prendia bem era eu", era o mínimo onde o piropo javardo podia chegar. 
- “Um juiz assim até se distrai e gagueja a sentença”.
De entre os vários sucessos profissionais da prima Antónia, houve um especialmente útil para o seu primo António.
Ao contrário da sua efusiva prima-irmã, António era um tipo pacato, apagado mesmo… sem ambição, pairava sobre a vida com uma ligeireza desinteressada, sem o gene da guerrilha que coube à prima por inteira.
Um dia, António concorreu a um concurso para admissão na função pública, em que exigiam licenciatura em Direito, para a carreira de técnico superior. Na altura dava aulas numa escola secundária, horários curtos, salário ainda mais curto. Andava descontente. No entanto, deixava-se estar, era pouco ativo na busca de uma vida melhor, lunático, escrevia poemas nos cafés nas muitas horas livres que o trabalho lhe deixava. E sonhava casar, lia romances e sonhava… Também aqui era pouco determinado, sonhava talvez que um dia uma menina reparasse nele, no seu ar compenetrado a escrever poemas e de repente lhe oferecesse flores, ou beijos, ou poesia escrita mesmo ali num guardanapo. Nada acontecia, porque ele nada fazia.
Um dia, porém, empurrado por uma colega, teve um assomo de ambição e concorreu a um anúncio público. Era para um departamento importante, ligado ao governo, para assessoria jurídica especializada na área educativa. Ele achou que talvez fizesse sentido: Direito era a sua formação e de educação sabia o muito que os galfarros de 15 anos lhe ensinavam todos os dias, na escola. Se alguém podia testemunhar a complexidade da tarefa educativa era ele… muitos anos de aplicação de várias metodologias educativas próprias. Pensou mesmo em escrever um manual: “Como sobreviver a 30 malfeitores de hormonas em riste, sem lhes pregar um par de estalos a cada 5 minutos”. Tinha técnicas fantásticas e podia gabar-se de nunca ter perdido o tino. Quando as coisas começavam a ficar feias, fechava os olhos, respirava fundo e pensava: “Pior do que estes miúdos são os colegas que me puxam para tomar café na sala de professores”. Tentava escapar sempre que podia ao convívio e a multidões, evitava sobretudo uma certa colega despenteada - de cabelo e de mente - fanática militante de tudo o que havia para militar, de quem até o delegado sindical fugia por não aguentar tanta militância e capacidade reivindicativa.
Não obstante, naquele dia, a senhora desmiolada pespegou-lhe com o Diário da República à frente e disse: 
  - António, tens de concorrer a isto! 
Ele só para não a ouvir, encheu-se de brios, puxou por uma réstia de ambição e de esperança e lá enviou o requerimento. Seis meses depois, a solícita colega apresentou-lhe o Diário da República com os resultados do concurso. Tinha ficado em 2º lugar, a escassos pontos do primeiro classificado. Encolheu os ombros, levou a fotocópia para casa, só para não desfazer na boa vontade da colega e falou por acaso no assunto à prima, que passou lá em casa ao final da tarde. 
Antónia olhou distraidamente para a fotocópia do jornal oficial, caíram-lhe os olhos na lista nominativa dos candidatos e deu um salto da cadeira. António pensou que era mais uma histeria qualquer da prima.
Ela disse:
- Esse Manuel Osório de Sousa é falso!
Ele perguntou:
- O candidato que ganhou é falso? Que disparate Antónia, se está aqui é porque existe!
- Claro que existe e até sei quem é. O que é falsa é a candidatura, ele não tem os requisitos necessários para ir a concurso. Tens de impugnar esta farsa!
Antónia – furibunda e esvoaçante de gestos e de roupa – circulava pela sala de António, contando o que sabia sobre o dito candidato ganhador. Disse que o tinha conhecido como solicitador num bairro problemático dos arrabaldes. Começara por ganhar dinheiro tratando de assuntos administrativos e fiscais junto de máfias sub-urbanas. Tinha mudado o seu escritório para Lisboa e sabia que agora estava mais bem relacionado, fruto sabe-se lá de que negociatas e trocas de favores. O rapaz era esperto mas não tinha habilitações, talvez tivesse frequentado Direito, por pouco tempo e com passagens administrativas, nos anos a seguir ao 25 de Abril. Mas estava certa de que não tinha feito nenhuma licenciatura.
No dia seguinte, arrastando um António meio contrariado e receoso, dirigiu-se ao departamento público responsável pelo tal concurso. Os dois primos entraram na receção, edifício antigo da baixa lisboeta, onde reinava uma paz chamada de monotonia e havia um cheiro a pó de repartição pública à moda antiga. No átrio amplo e cinzento, apenas duas pessoas – a recepcionista e o segurança. Ela era uma espécie de carro de combate com bigode, quadrada, morena, cara de susto, talvez tivesse uma verruga pilosa, mas se não tinha é como se tivesse... Parecia intemporal, estaria ali há quarenta anos, com o mesmo cabelo preto, sem corte definido e provavelmente sem tinta, porque o espirito do lugar - qual formol - o mantinha sempre igual. Contrastava como o jovem segurança, novinho e magro, na sua farda bem desenhada e ornada com o logotipo da empresa.
A advogada avançou decidida e pediu para ser recebida pela doutora presidente do júri, que assinara os resultados do concurso. Depois de contacto telefónico, a rececionista informa:
- A Senhora Doutora está em reunião, não os pode receber.
Ao que Antónia responde:
- Nós esperamos por ela, mas não saimos daqui!
E acrescentou, no seu tom de voz sonoro e duro, como se o balcão fosse a barra de um tribunal:
- Pode dizer à Senhora Doutora que vou dar ordens ao segurança para encerrar a porta, de imediato, e chamar a polícia. Represento legalmente este senhor – e apontou para António – venho consultar os documentos de um processo de concurso e, eventualmente, impugnar os resultados. A polícia evitará a saída de pessoas e de bens. A lei assiste-me, perante o risco de fuga de documentos relevantes para o processo.
A atarantada funcionária acordou ao fim de um longo sono de quarenta anos e, muito nervosa, desandou dali. Deixou o estupefacto segurança – que, pelo sim pelo não, fechou a porta – largou o telefone fora do lugar e desandou a correr pela escada acima, a caminho de uma qualquer autoridade do piso superior.
Desce ao fim de pouco tempo, saltitante e trôpega pela mesma escada antiga, agora mais sorridente, talvez aliviada e anuncia:
- O Senhor Diretor-Geral vem aí.
Fim de cena. Parecia uma peça em dois actos. O artista principal – leia-se o dirigente máximo daquela organização – aparece, calmamente saído da porta do elevador. Vem seguro, na aparência, mas delicado na abordagem, visando pacificar eminente problema. Dirige-se cerimoniosamente à advogada, pedindo credenciais. Enquanto a identificação se faz e o António é apresentado pela sua representante Antónia, o Diretor olha em redor e fixa-se no segurança.
- E a porta? – perguntou, timidamente, o jovem segurança.
- Fechada! – respondeu o chefe.
E abalaram os três para o gabinete do Diretor.
Dois dossiers volumosos colocados sobre a mesa de reuniões, uma consulta rápida e incisiva da senhora advogada e foi encontrado o documento do crime – o cartão de inscrição na Ordem dos Advogados, apresentado pelo candidato colocado em primeiro lugar era uma montagem – foto colada por cima de outra e nome rasurado.
Também a certidão de habilitações – licenciatura em Direito pela Universidade de Lisboa - em papel azul de vinte e cinco linhas, escriturada à mão em bonita letra da suposta chefe de secretaria, tinha uma particularidade: não dispunha de selo branco, nem qualquer tipo de carimbo. Alguém copiara a minuta no papel adequado, com os dizeres adequados, mas era falsa.
- Crime muito pouco perfeito...– diria Antónia, rapidamente, como era de seu timbre.
Perante a evidência do embuste e do arrazoado jurídico da prima Antónia, o Diretor-Geral gaguejava uma conciliação qualquer...
Antónia sugeria veladamente existirem indícios de conivência entre o candidato ganhador e a organização que abrira o concurso. A vaga para a qual tinha sido aberto o concurso não resultava de uma real necessidade de serviço, parecia tratar-se de um lugar criado especificamente para dar emprego ao tal senhor... quiçá a troco de favores. Por isso o Diretor-Geral titubeava, dando a entender que tinha sido por imposição superior – leia-se política – que o lugar tinha sido criado e o perfil funcional desenhado... por medida.
Por acaso mesmo à medida e à sorte do António, jurista e professor desinteressado. Quanto ao interessado naquele lugar, por sinal um posto mais bem pago do que é comum na função pública, esse ficaria a ver navios, que é como quem diz a ver o António navegar nas ondas da sua ambição. O António à boleia de dito Manuel de Sousa – mafioso, jeitoso e bem relacionado nos meandros dos jogos de interesses e da política – encontrou o seu rumo e uma vida um pouco mais equilibrada.
O concorrente falsário retirou a candidatura e António avançou na tabela classificativa. A prima Antónia negociou, de forma solene e discretamente ameaçadora, como era seu timbre, o futuro de António. Contrapôs com o silêncio de uma possível denúncia quanto aos contornos menos claros que estiveram na base da criação do lugar e não avançou com a queixa por desleixo/conivência na apreciação dos documentos concursais.
Ele há primas que fazem muito jeito!