segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

A mulher, a amante, a amiga e a concubina



Em tudo existe uma hierarquia. 
A ordem das coisas, das sociedades, dos exércitos e das agremiações diversas carecem de postos, de títulos, de dependências e de uma fileira de ordem (crescente ou decrescente), precisa de disciplina e de organização, porque só isso garante o pleno exercício do poder.
O homem tem dificuldade em aceitar a igualdade e a liberdade, a sua ao mesmo nível da dos outros. 
Quer se trate da igualdade perante as mulheres, quer mesmo perante outros homens seus semelhantes mas mais fracos.
A solidariedade “inter-pares” até funciona, mas com as suas regras e desde que se respeita a superioridade da “tertúlia”, do grupo ou do gênero, perante outro grupo mais fraco, mais passível de ser pisado.  
Um homem precisa muito de ver uma ordem estabelecida , que lhe garanta o poder e, também, que este esteja arrumadinho no pelouro certo e inquestionável, naquele que seja seguro e propício à manifestação da sua vontade, de modo a que não haja opiniões conflituosas ou entraves aos seus interesses. 
O homem gosta de se relacionar com quem não ofereça luta , sobretudo se for alguém do sexo oposto… gosta de um lugar certo e seguro, onde se consiga posicionar com paz e sossego.
A menos que seja um tipo “belicoso”.
Mas o normal é preferir um clima de paz, onde a sua opinião prevaleça, onde possa mandar sem esforço, onde possa fazer-se obedecer … e quem estiver mal que se mude!


Nas relações com as mulheres é igual. Gosta de variar (quem não gosta?) mas espera que a mudança se faça dentro de uma hierarquia própria, que lhe seja propícia e conhecida… 
Quer tudo, enfim!
Quer que as mulheres se posicionem a seu belo prazer e assumam o papel conveniente … conforme a época e o contexto.
Claro que a vida dos sultões era mais fácil. Agora com esta “mania” da igualdade de gênero , os homens veem as coisas um pouco mais complicadas.
Mas a hierarquia desejável mantém-se a mesma:

1 - a mulher (a chata por definição…);
2 -  a amante (maravilhosa, mas de que se cansa depressa..)
3 -  a amiga (confidente talvez, mas sem cama); assim uma espécie de fêmea assexuada …
4 - a concubina , aquela que se sujeita a tudo, porque não tem onde cair morta, e pode ser espezinhada e humilhada a seu belo prazer. 

Mesmo que o sultão já seja velho e “fora de prazo”, uma concubina é o prato ideal para o exercício do poder; meiga, submissa, pronta para tudo, provavelmente capaz de lhe afagar o “ego” da cintura para baixo, sem grandes exigências próprias, provavelmente capaz de lhe adoçar o estômago com petiscos e doces…

Pouco exigente… algumas nem sabem o que é o Viagra, coitadas… nem se preocupam com o prazer fisico, seu ou alheio. 

Contudo, nós não vivemos num sultanato, nem as sociedades modernas admitem esta hierarquia funcional. No entanto, lá no fundo, a cabeça de muitos homens ainda pensa assim… e classifica as suas “pseudo-companheiras-exploradas” de forma parecida. Com um embrulho mais moderno e menos chocante.
Contudo, é tão fácil (e humilhante) passar de amante para amiga, como é virar uma concubina em escrava.


Tristezas



Quando a tristeza se instala e nada nem ninguém me ajuda a varrê-la para fora do meu chão, o que fazer?

E quando não tenho sequer chão para pisar, quanto mais para varrer? 

O que fazer? O que fazer da solidão dos afectos, da incompreensão de quem poderia me querer bem, de quem me poderia ajudar e nem compreende o meu sofrimento? 

Perdida e só, na escuridão de uma noite acompanhada, que sentido faz viver assim.

Será uma depressão? Será simplesmente a tristeza, pura e dura, de um abandono anunciado? Será culpa minha, por ter uma sensibilidade à flor da pele… que não aguenta o desprezo e a frieza. Que não aceita o desamor…

Eu bem tento ser forte.

Eu tudo faço para me desdobrar em carinhos e alegrias, eu quero muito ser feliz, mas tenho uma enorme falta de jeito. 

Ou então não encontro a pessoa certa para me ajudar a nadar neste mar revolto e turbulento, em que me sinto naufragar.

Eu quero viver, quero mesmo… mas não sei como …

Eu tenho tanto para dar e ninguém para me receber .

Eu gosto de fazer os outros felizes, de amar, de dar beijos, abraços e sorrisos e depois… constato que de mim só pedem sopas… ou pior, só esperam silêncios bem comportados…

Silêncio e mais silêncio… renúncia de afecto, zero de amor… só presença decorativa e calada. Como se eu fosse uma coisa útil para mostrar, mas não gente. 

Eu sou uma pessoa, sinto que sou boa e que tenho muito para dar …

Mas nos dias em que não me lembram, nos dias em que se esquecem de mim e me desprezam, só porque não tenho nenhuma utilidade concreta e real, fico vazia, oca, amarga, lixo…

E então só sobra a raiva, a amargura … e quem está de fora, não vê a minha revolta. Não vê que a amargura é apenas um “sinal”, um sinal feio de falta de amor, uma reação inversa daquilo que eu gostaria de transmitir de bom .

Como se o amor e o ódio fossem a face da mesma moeda . E é a sorte ou o acaso que dita qual das faces fica ao de cima, quando se deita a moeda ao ar.

Não consigo transmitir afecto quando o coração dói tanto que se sobrepõe a tudo o mais, quando a magia acumulada vira amargura.

Tenho de aprender a fazer um reset. Apagar as mágoas e colocar no coração apenas sorrisos, apenas aquilo de que os outros gostam… para que gostem de mim.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

Silêncio

 

Que a minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.

Clarice Lispector 

Um dia, quando eu for grande, um dia quando eu for velha e sábia, talvez compreenda muita coisa que hoje não alcanço.
Um dia hei-de perceber que o silêncio é um lugar bom para se viver, que o silêncio pode trazer paz, pode dar tempo de reflexão , permitirá talvez dar lugar à criação poética, à felicidade interior… ao equilíbrio que mata a fome de viver. 
O barulho interior e exterior, o caos dos sentimentos desordenados, o atropelo das palavras inúteis e pouco pensadas só servem para encher a vida de vazios e de frivolidades. 
A falta de silêncio adequado, tolhe-nos e bloqueia a razão necessária para parar, para pensar e para recolocar as coisas importantes, as dores da alma, no seu devido lugar. 

O silêncio - quando se consegue interiorizar a sua necessidade e utilidade - é uma das maiores descobertas das mentes inteligentes e felizes. 
O silêncio como exercício forçado, prosseguido com algum esforço no meio de um grupo de amigos, numa família ou numa comunidade mais ampla, é bem difícil de ser mantido. Mesmo assim, podemos optar por falar pouco, valorizar o silêncio como forma de comunicação não verbal, acompanhar este tipo de silêncio - momentos sem palavras - de outras manifestações de afecto, de sorrisos ou de toques, da oferta generosa de disponibilidade psicológica, etc. 
Ouvir, por exemplo, é uma das melhores formas de valorizar o nosso silêncio em favor das palavras dos outros. Quantas pessoas precisam mais de ser ouvidas em silêncio, do que de dialogar com o interlocutor? Ouvir, respeitar com o coração, sem emitir opiniões, sem perguntar.
Se esta forma de estar na vida fosse mais comum - dignificar e entender o silêncio como um modo potencial de amor e de amizade - talvez não fosse necessário tanta discussão cruel e inútil.
Aprender a calar ! Engolir sapos vivos, quando a dor for muita, pode ser a cura, pode trazer um apaziguamento saudável dos nossos males.
O silêncio enquanto remédio ! A par da aceitação…

A solidão instala-se mais facilmente onde há silêncio, silêncio daquele mais cru, que resulta de não haver gente nenhuma, nem calada nem a falar. 
Clarice prefere essa solidão redentora. Prefere ficar com nada numa atitude de ascese, em que se pode não ter nada e se sentir com tendo tudo.
É demasiado difícil, para mim, é de uma transcendência espiritual a que não aspiro, nem lá chegaria.
A solidão pontual pode ser uma doce e calma tarde de Verão. Já a solidão definitiva é uma noite de trovão. Certamente, seria triste encontrar-me numa solidão destas - perfeita, mas onde teria dificuldade em encontrar-me.
Eu sou solar ! Gosto de gente.
As pessoas mesmo em silêncio são um lugar de paz, de desafio. de inspiração. Sou capaz do silêncio (com algum esforço) e até acho que devia praticar mais.
Decisão desta noite - de choro e de medo, de raiva e de desilusão : manter-me calmamente em silêncio…  

Deixar correr a espuma dos dias, sorrindo sempre como se a vida fossem rosas, deixar que os espaços em branco se encham de silêncio bom. Sem dramas, nem revolta. 

No entanto, ficarei sempre à espera que um ponto lindo de luz brilhe no meio do meu deserto de silêncio e me chame para falar, um dia.
Aí, só direi coisas lindas, palavras de amor regadas com esmero e com
muito cuidado, para não ferir ninguém, nem quebrar o encanto do meu silêncio, palavras guardadas para uma altura especial, embelezadas para serem transmitidas  quando fizerem falta.
Em silêncio … abrindo a boca ao mesmo tempo em que se abre a alma, só com palavras boas.
Porque se eu quebrar o silêncio com raiva e reclamações, tudo se vai perder.
E corre-se o risco da solidão mais dura se instalar no lugar do silêncio. 

domingo, 29 de janeiro de 2023

O Equilíbrio

Que eu encontre o equilíbrio !

Quando as perdas e as nuvens se confundirem no meu céu.

Quando o imprevisível e as ondas do mar se misturarem que nem tintas de aguarela. 

Quando a visão me ficar turva de enredos, dúvidas e confusões. 

Quando o que tenho para dar, surgir como dádiva inútil à felicidade alheia. 

Quando nada parece fazer sentido, mesmo com uma vida de aparente boa arrumação, em que o essencial está no lugar certo ou socialmente aceitável.

Quando as minhas caraminholas se recusarem a reagir ao aconchego do Lexotan. 

Quando a resignação saudável não conseguir suplantar a desilusão mesquinha.

Quando quiser ter mais do que tenho e esse mais for totalmente incorpóreo e invisível, vivente no domínio dos sonhos inatingíveis. 

Quanto tudo isto estiver assim: preliquitante e instável, espero conseguir, apesar de tudo, manter o meu equilíbrio . Com esforço … talvez, mas com a clarividência da sua absoluta necessidade.

Espero não desfalecer à beira da falésia e cair, em desequilíbrio, nem adormecer nas sombras da indiferença. 

Porque se tal acontecer, é sinal do fim, é sintoma de já não me saber levantar, nem luta pelo equilíbrio necessário.

O equilíbrio, aquele ponto neutro - nem bom, nem mau - mas suficiente para criar um caminho novo e sólido, saudável e feliz.

O equilíbrio como base, indispensável para se estar de pé. Para não passar para o lado dos aloucados, distraídos da normalidade. 

O equilíbrio - um sitio que não nos dá nem tira nada. mas permite manter a estabilidade. 

E a esperança de que - no vórtice de todos abalos e maus ventos - possa balançar para o lado certo .




quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

As Viagens


As  viagens são um caminho - entre muitos outros possíveis - para atingir um espaço de vida nova, para ir ao encontro de algum crescimento interior ou para vivenciar um novo sentido de liberdade. Quiçá, para ver e ouvir o som verdadeiro da liberdade, no caso de quem nunca a conheceu ou de quem dela tem uma visão destorcida.

A viagem essa miragem - meio para nos tornarmos melhores, mais conhecedores, mais tolerantes, mais aberto ao mundo, mais sábios, mais preparados para entender e aceitar as diferenças entre os povos e as culturas, a par da diferenças óbvias entre as paisagens e os climas.

Enfim, as viagens são uma coisa boa! Podem melhorar o mundo - o nosso pequeno mundo e o conhecimento que vamos adquirindo sobre o grande mundo dos outros, dos nossos semelhantes, por vezes tão distintos e, por isso mesmo, desconhecidos e potencialmente adversos.

Viajar faz-nos ser (ou devia fazer) melhores pessoas, clarividentes, mais ricos, mais capazes de entender a Humanidade.

Para cada um individualmente a viagem pode ser fonte de riqueza interior, pode ser válida e importante para o equilíbrio emocional e para a auto-estima. E para que isso aconteça, não é necessário ser uma viagem longínqua, exótica ou especialmente aventurosa ou perigosa.

Nem todas as pessoas são iguais, eu sei, há viajantes competentes, com especiais capacidades de planeamento e imaginação para encontrar destinos maravilhosos. Esses conseguem explicar o sonho da viagem de uma forma cabal, transcendente mesmo. Mas não é por isso que são melhoras pessoas do que os outros. Simplesmente têm esse talento, a par de terem tempo e dinheiro para serem um viajante “exótico e profissional”.

Para esses militantes-profissionais das viagens, o que é mesmo decisivo, é ter vontade, gosto pelo desconhecido e espírito de aventura. 

E também um certo tique, mania de colecionista. Somam destinos, fotos e relatos como quem coleciona cromos. (Nem todos são assim, felizmente, espero que apenas uma minoria retire das viagens o fogo-fátuo do exibicionismo e da sua prova documental).

Quanto aos verdadeiros viajantes - e por muito que os admire - infelizmente, a experiência diz-me que tendem a ser snobs, raiam a arrogância e até talvez algum desprezo pelos “pobres excursionistas”. Aqueles que gostam de passear, estudar e conhecer o mundo e os povos, mas que, por força das circunstâncias, se limitam a destinos mais triviais - ou por falta de dinheiro, de tempo ou de imaginação para planear voos mais altos. Serão apelidados de rascas, sensaborões ou preguiçosos. 

É injusto !

Uns e outros são viajantes. - procuram sair da sua morrinhice, para arejar a alma. Tanto faz ir à Nova Zelândia como a Badajoz. 

Tanto uns como os outros são pessoas dignas de respeito (tal como os que ficam no sofá…) e não faz sentido descriminar viajantes em função da grandeza do destino.

Cada um viaja como pode. O que importa mesmo é que algo mude dentro de si, que construa algo de novo, que ganhe novas vivências, novos olhares, que colecione não apenas mapas e folhetos,  mas amor - pela natureza e pelos seres humanos -, que consiga mais paz interior, um maior apreço por quem lhes é querido, mais tolerância e não traga apenas na bagagem fotos e souvenires. 

Que venham mais ricos pelas pessoas que encontraram, ou pelas belas paisagens que encheram o olhar e a alma de emoções e bons sentimentos.

Que encham a mala de regresso com um sorriso, por ter visto uma montanha nevada, um lago azul. Ou que tragam a tristeza profunda de ver uma criança sub nutrida, procuram sustento numa lixeira indiana.

Ou simplesmente que carreguem a alegria de um saco cheio de caramelos de Badajoz para distribuir pelos sobrinhos mais queridos.

Tanto vale encontrar a alegria nas pequenas como nas grandes descobertas, nas paisagens, no olhar sobre a humanidade mais próxima ou mais longínqua - é igual, é nobre, merece respeito se for genuína a emoção.

O que importa é manter a Alegria e a capacidade de amar e de entender o outro. Não fechar a porta do casulo - o tempo e o privilégio de uma viagem é um casulo egoista enquanto dura - e é preciso continuar a amar o mundo fora dele.

Agir como se fora do casulo não existisse vida e outros seres humanos fossem bonecos parados no tempo,  como se a Terra deixasse de rodar enquanto estamos fora, é uma atitude bastante comum do viajante auto centrado ou distraído.

Este tipo de viajante tende a colecionar memórias da viagem e fotos para apresentar como troféus, provas da sua superioridade.

Quando o que importaria era mostrar o resultado da viagem como um presente de ensinamentos.

Uma dádiva para os outros, não uma conquista para si.

Quem mais vê e mais sabe tem o dever ético de partilhar com o pobre, o ignorante, o perdido, o que ficou para trás, sem acesso ao mundo grande das grandes viagens e experiências.

 


É como deixar um pedinte morrer-nos à porta. 

Infelizmente, é o que mais acontece… por isso , há tantos sem-abrigo.

E as viagens podem ser até mais baratas do que a comida, bastam fotos, memórias, conversas e amor partilhado, diálogo e atenção, de quem muito viu e muito tem. Não custa dinheiro, apenas amor.

É feio menosprezar aqueles “parolos” que só fazem viagens mixurucas - ir a Paris ou a Itália, parecer uma viagem pindérica,  para que vai à Austrália ou à Patagônia.

É muito triste amachucar o próximo, tirar o orgulho a uma velhota provinciana que conta a sua ida a Fátima, com enlevo, e fazê-la sentir memorizado pela insignificância da viagem, é falta de caridade  desmoralizar quem viajou menos, porque a vida ou a falta de jeito não deu para mais. Que pode ter ido “só ali ao lado” mas voltou com a alma mais rica!

A vida é demasiado valiosa e curta. Não pode ser desperdiçada, há que encontrar a Alegria e não dar ouvidos a quem nos magoa com soberba e incompreensão. 

Quem trabalhou demais e viveu de menos, é digno de respeito, sobretudo se continua em busca da felicidade… sempre. 

Em viagem ou parado a sonhar.

É de apreciar quem consegue modestamente e sem viagens estrondosas, pôr a tristeza de lado, esquecer a amargura provocada pela falta de afecto, e mesmo assim seguir em frente: fugir do mal … fugir… porque andar, correr ou fugir sem sentido, também é viajar.

Procurar a felicidade (a qual não existe, mas que utopicamente perseguimos), sorrir às flores e ao sol, às pessoas boas, aos pequenos sinais que o Universo nos transmite é a melhor das viagens. 

Isso é ser otimista, é ter fé na alegria, na solidariedade e no amor. É reconhecer que o sopro da felicidade está não apenas na viagem em si, mas também nas pessoas com quem se partilham essas vivências, ao vivo ou à distância.

Um viajante que se fecha egoisticamente no seu casulo de viagem é um ladrão, porque não transforma em dádiva aquilo que lhe pertenceu mas não é seu - é um bem universal. 

Ir em viagem não é o mesmo que ir para um convento em retiro e desligar-se do mundo e dos seus. Há deveres de viajante. Tal como todos temos o dever de ajudar quem mais precisa: família, amigos, desfavorecidos em geral, na medida 

Por isso há tantos mal-amados, tanta gente amarga, tanta gente virada ruim pelo muito sofrimento acumulado. 

E as viagens podem ser até mais baratas do que a comida, bastam fotos, memórias, conversas e amor partilhado, diálogo e atenção, de quem muito viu e muito tem. Não custa dinheiro, apenas amor.



Além do mais, uma viagem tem o seu regresso. E aí a realidade volta a surgir com toda a força, quando se desfazem as malas e se espera encontrar as outras pessoas ficaram exatamente no mesmo sítio. O que é impossível! A terra rodou para todos. 

É que a vida não pára (não suspende quando alguém está em viagem), o tempo passa para todos por igual, com distâncias e esquecimentos, desamores e vivências distintas, como é óbvio. Mas tanto quem vai como quem fica, mudou… viajou quieto ou a andar.
Não reconhecer isto é não saber viajar.
Por isso, há que guardar a sensatez e trazer compreensão, porque na volta  todos nos encaminhamos igualmente para a morte…

sábado, 14 de janeiro de 2023

Travessia do Deserto

 

Era um deserto timidamente plantado à beira mar que, no entanto, seria o ponto de partida para um caminho de aprofundamento maior, da procura de um interior mais seco e mais vazio, pontuado de camelos e de palmeiras, marcado pelo sol vermelho-laranja ardente e espampanante, como só os espaços amplos concedem. 
Era o desejo de uma travessia do deserto, no sentido literal, enquanto espelho da virtualidade sonhada. Seria como metáfora? Talvez. Como terapia também era certamente:  uma viagem ao interior de si mesma, mascarada de apontamentos vários: ocupacional, lúdica, esquecimento estonteante da realidade sofrida e, sobretudo, limpeza da alma.
Sim. Mais uma vez a atração pela solidão e pelo silêncio, o vício de sonhar grandes espaços… de perdição… de descanso suave e deslumbrado. O mundo é grande, quase sempre cheio, congestionado de gentes e de coisas. O deserto é limpo. Quase vazio, ululante no seu trajecto. Este não era bem seco, até quase verde, num inverno chuvoso. 

Não obstante, cheirava a deserto, muito liso, calmante.




A magnitude das coisas que nos deslumbram e transcendem dá-nos a certeza de que somos pequenos, de que as angústias “domésticas” não passam de um grão de areia, de que é possível ser feliz se nos acomodarmos à grandeza daquilo que nos transcende, desde que consigamos o desprendimento do que é mesquinho, insignificante face à relatividade do mundo.

É preciso humildade e calma para aceitar… aceitar que não é possível fazer nascer água no deserto árido, nem criar emoções num coração egoísta. 
É preciso aceitar… ter calma para não lutar contra a montanha dos problemas que nos ultrapassam, para não afrontar uma duna perigosa, que decerto nos vai submergir porque é maior e mais forte. 
É preciso aprender a contornar as tormentas, a aceitar até ao limite da humilhação decente (uma fronteira algo ambígua!), desistir se for insuportável, fugir, substituir ou suplantar num degrau acima a podridão da lama elevando uma alma lavada e arejada ao sol.

Descobri que o meu deserto separa o que julgava ser eu e daquilo que julgava ser a realidade terrena. Ao longe parece uma miragem, a beleza e a promessa vêem ao olhar da mente mas logo se afastam. 
É o que acontece às miragens, vão e veem, são verdadeiras ou falsas?
Está longe não importa . E quanto mais penso, quanto mais a reflexão se instala, num palco de probalidade nevoenta, mais a miragem se torna um vento, turbilhão de areia que confunde e faz pensar se vale a pena…
Se vale a pena entrar numa tempestade de areia. Se vale a pena continuar a ver o deserto a crescer… cada vez com mais areia, mais dunas mais percalços, que quando mesmo bem montado num camelo, não são fáceis de ultrapassar.
A minha travessia foi boa, trouxe a claridade das coisas simples e a visão real de que o deserto vai crescendo (será o aquecimento global? Pois… mas parece-se mais com arrefecimento!).
Vai crescendo e separa quem habita as suas fronteiras opostas.
Talvez no meio desse espaço que cresce e afasta os seres que o habitam, se forme um oásis.
Sim, seria bom que mesmo na secura dos dias possa subsistir a esperança de um encontro num oásis de frescura e encanto.
Aí, numa tenda à luz resguardada do sol ou num espaço mágico de uma noite debaixo das estrelas será possível limpar, por momentos, a angústia do deserto interior com as águas que milagrosamente regam as plantas frescas do jardim do deserto.
Pequenos pontos de felicidade: a água essencial é pura, a vida suspensa dos dias, sabendo que depois será forçoso um retorno indesejado ao deserto.
Mas para que o oásis seja vivido em harmonia, para que a paz da noite fria de um dia quente seja nossa, em liberdade e sossego é preciso que a tenda seja resistente, material sólido, de boa qualidade, erguida por mãos experientes em sobrevivência, almas resilientes armadas de fé e amor firme.
É preciso cautelas, remendos e manutenção permanente da guarida, atenção aos rasgões da tenda, aos tiques e às fúrias dos camelos… 
Porque - como dizem os povos tuaregues do deserto - se a tenda tem um rasgão, o camelo mete a cabeça. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Velas

 

Há pessoas que são como velas na nossa vida. Tomara ter uma ou ter tido uma, uma vez que fosse, tomara poder recordar que uma vela ilumina e vive em redor. Por ser vida, melhor seria tê-la sempre acesa, próxima, ao meu lado, minha... Se assim não for, ao menos que ilumine o passado, que aqueça recordações.

Nasceram para nos iluminar as noites escuras e trazer um pouco de calor nos dias frios...

Velas que se acendem e nos acendem, que aquecem… que queimam…  que se gastam e acabam, também.

Um dia descobrimos que há um côto sujo e gordurento que teima em ficar no castiçal do costume, meio aceso meio apagado, com vontade de sair dali … de deixar de o ser, de abandonar o seu ar bolorento de vela velha, de vela que já não pega e já não quer ser de novo fresca e inteira… 

É uma vela velha, cansada e com vontade de partir e de abandonar os seus “iluminados”, que despreza os seres humanos com coração, que quase prefere transmutar-se em pedra de gelo... coisa que também derrete e desaparece. Ou que pensa virar faca afiada que fere e que magoa, vela má ... farta de tudo, egoísta que prefere cortar a amar.

Mas há quem teime e se agarre ao velho coto amachucado, há quem lamba os pingos de cera que deslizam lascivos borda abaixo, há quem lamba os beiços da miséria endémica de que sofre e saboreie a merda podre de uma velha gasta, como se aquela fosse fonte de potencial calor e vida, pensando que assim sobreviverá... e se transformará, não de sapo em príncipe encantado, mas num doce gelado derramante do Santini.

A miséria vê diamantes nos pirilampos e amor no doce afago do egoísmo.  A miséria endémica só vê disparates, alimenta-se de ilusões, contenta-se contentinha, come pouco... e imagina muito. Espera e luta.

Coitada da velha que contempla a vela embevecida, definhará acreditando que um dia a tal vela velha será sua e luminosa. 

Coitada da vela velha que não admite que tem um bom castiçal, que poderá ser uma vela novinha e colorida e que poderá voltar a iluminar a alma de quem lhe  quer bem.

Nada se perde na natureza e a cera é tao maleável quanto o amor, tão transformável em novas velas quanto a imaginacao e o desejo o ditem.

Derretam a vela velha, a cera carcomida pela chama, suja pelos beijos que rolaram no chão, torta de tanto amasso, linda de tanto calor que emitiu. Derretam-na e misturem purpurina de várias cores, juntem brilhos, façam riscas, pintem arco-iris e dêem beijos  - uma nova vela se incendiará, massa transformada do antigo amorfo moribundo.

Há vida para além da vela apagada e da porcaria feita por quem derreteu e estragou tão bela luz, por tudo querer...