Flores e histórias ao vento...

sábado, 9 de maio de 2020

A Nova Normalidade






Há uma nova normalidade - soube hoje.
Já desconfiava!
Perante a pergunta de como vão as coisas, obtive por resposta: Normais!
Normais, só se forem para ti porque por mim não estão nada normais. Não me parece que estejamos em "normalidade".

Rapidamente veio a resposta. Sorriu, satisfeito por conseguir contornar airosamente a questão, orgulhoso pela sua prontidão de raciocínio e pelo desembaraço manifestado, por sentir que o poder estava do seu lado e que dominava com segurança a situação - resumindo, naquela fracção de segundo, era ele o dono de tudo!
Da liberdade! Quiçá do Mundo...


Há momentos assim, em que uma pessoa se sai bem e se sente orgulhoso com as palavras certas que saíram no momento certo, para calar o adversário. Neste caso, para calar e magoar uma amiga que, ainda por cima, lhe quer bem e que não faria muito sentido ser arrumada para o lado do inimigo...
Mas claro que isto de guerras e de In são sempre coisas tolas, contingentes e subjetivas.

A resposta certa e rápida foi: É a nova normalidade!

E assim, sendo nova, marca a fronteira de uma rotura com algo de velho.
Não pode existe o conceito de nova sem ser por contraposição com algo que mudou e passou a obsoleto, sem significar que houve um passo em frente no sentido de uma mudança qualquer.
A normalidade conhecida acabou e não nos podemos mais espantar, porque chegou uma nova e é essa que passa a prevalecer.
Não há que reclamar, nem lembrar a antiga, nem esbugalhar os olhos de espanto, a normalidade normal é nova, pronto!
Logo, apesar de desconhecida (para mim que não a criei, não a concebi, nem entendo), só sei que é nova, logicamente diferente...
Mas nova como ?
Será que me é legítimo perguntar? Ou sendo nova, não me diz respeito... fiquei para trás encalhada na normalidade antiga e esquecida?
Isso já percebi. Se é nova e eu não a conheço, é porque não é minha, nunca me foi apresentada, nem explicada. E o sorriso que não vi, mas que teria um toque de cinismo à mistura, insinuava isso: era uma nova normalidade, misteriosa a que não teria acesso nem informação. Decretada por ele, ponto final. Passaria a vigorar e não admitia réplicas.
Tenho algumas dúvidas em saber se posso perguntar o que é a nova normalidade ou se me devo calar, porque não é nada que me diga respeito.
Assim, passou a haver duas normalidade: a que conheço e vejo como normal e a outra: a nova, que não sei o que é. 
Em relação a esta, não me é dado perguntar? Ou será que, pelo menos, terei direito a uma pequena explicação sobre o que gerou a novidade?
Será que o silêncio, a aceitação da rotura, o meu afastamento perante a visão de que se avizinha de uma partida para uma nova realidade - normal para uns e traumática para outros - são a atitude mais certa?
Vou esperar para ver...
O mais certo é não me ser dada qualquer explicação e deixada na ignorância do que é a nova normalidade.
A mim, pareciam-me rosas... afinal são peónias, de outrém!


Posto isto, no turbilhão das dúvidas, curiosidades e angústias, de tanta coisa a acontecer e a submegir-me, ao mesmo tempo, deparo-me com o título da crónica de José Tolentino de Mendonça - chamada "Normalidade".



Andamos todos à volta do mesmo, por razões diferentes...
Talvez seja a inata aversão à mudança que nos toca a quase todos, talvez seja preguiça, velhice, desalento em aceitar que o mundo mudou para mim, que muda todos os dias para toda a gente e que o espanto não é coisa que se deva praticar.
Não nos devemos espantar nem questionar muito. Apenas aceitar que o nosso futuro próximo vai mudar e não como gostaríamos.
Aceitar tudo, pacificamente, aceitar a dor e suportar com um sorriso falso (que mascare a angústia) vendo surgir um amanhã que não será como queremos, será pior... provavelmente.
Porque ver um futuro radioso e promissor, melhor, de uma nova normalidade e com paz, é algo que me custa racionalizar.

Tolentino diz que a "pandemia nos leva à consciência do limite".
É isso!
Preciso de ter consciência dos meus limites, dos limites a que uma relação está condenada... perceber quando nos ultrapassam ou quando nós estamos a forçar os limites impostos. Não vale de nada, querer ir para além dos limites! Por muito que nos esforcemos por resistir, por muita vontade que tenhamos de que tudo corra bem, por muito empenho posto em fazer tudo direito, por agradar, por amar, por distribuir afectos e solidariedade - por muito que se faça, os acidentes acontecem. 
Chega um vírus, aparentemente inofensivo, espirra, tosse e eu morro de asfixia.
É isso!
Asfixio na mentira e na toleima que aquele bicho encerra, pensando destruir o máximo de seres à sua volta. Não vai desistir.
Precisa de se alimentar de sangue e pele humanos, precisa de se alojar numa célula quente e confortável, precisa de se reproduzir, de ser criativo e inovar, em mutações sucessivas... só assim se conseguirá espalhar e garantir a sua sobrevivência. Entrará no primeiro poro de um pedaço de pele mal desinfectada, virá por carta no correio, virá de bicicleta, sob a forma de carinho que contamina a pele ou de doce que aconchega a barriga.
Lutará até ao fim. Ás vezes, parece que está latente e incomoda pouco, outras ataca em força. Irá conseguir infectar quem está por perto, mesmo quem se protegeu em quarentena durante dois meses radiosos e limpos. Veio e trouxe a nova normalidade.
Não sabe e não lhe interessa essa quarentena, aparentemente asséptica em que vivi, sem ter consciência dos meus limites. Ao primeiro vislumbre de espaço não preenchido, não desinfectado, o bicho ataca e mata.
Mata, mesmo!
Neste momento, o inimigo que tão bem se comportou numa quarentena desinfectada de dois meses de sol, está nos cuidados intensivos... pode mesmo partir para o além... deixando o bicho à solta, que o seu destino é a aventura entre continentes.
Porque ele não tem consciência dos seus limites, é uma célula animal sem alma, vai por aí, o seu único limite é saber que se parar de investir em homens, morre.
Eu, tenho outra responsabilidade e outra ética - sou humana, tenho inteligência e outras missões na vida, não estou aqui para infectar e sobreviver, por isso devo ter consciência dos meus limites. Devo ponderar bem quais são eles, até onde posso ir sem ferir a minha dignidade de mulher livre...
Posso até sair derrotada, mas que o seja com nobreza, em liberdade.
Sair do confinamento que, no princípio, era necessário, mas agora já não é. Vou levantar a cabeça e sair da clandestinidade, mesmo que isso implique mergulhar na tristeza e na solidão.

Publicada por Maria Gualdim à(s) 17:23 Sem comentários:
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terça-feira, 28 de abril de 2020

Futuro



Nada voltará a ser como dantes! Podem pensar o que quiserem, podem fixar-se na ilusão de que a quarentena é uma paragem no tempo, que a vida se encarregará de retomar o seu rumo (exceto para quem partiu de vez, claro).

Não! Isto não é um interregno... é uma mudança.
E para alguns (talvez os mais velhos ou menos crédulos) é uma mudança definitiva, sem retorno.
Não se trata de algo transitório, irreal, artificial, irrepetível, diferente...
Nada disso! Olho o futuro como quem olha para a linha do horizonte no mar, num dia límpido... igual, linear, parado, uma quarentena permanente. 
Para mim, foi um período de confronto de mim com a minha realidade, de mim com as minhas circunstâncias, de um aprofundar da consciência de qual o meu lugar... o que faço aqui, quem me quer aqui... porque me mantenho em quarentena. 
Sim, porque não faço exatamente o contrário do recomendável e vou eu por aí... até ficar mesmo infectada e morrer? Porque não é fácil, segundo dizem. Os supostamente saudáveis escapam ou tem doença ligeira.
Creio que depois disto nada será igual, nada será semelhante à fantasia anterior.
Mergulhei no período de contenção e recolhimento como quem mergulha numa piscina de realidade. E percebi que, até então, vivia uma espécie de fantasia, aquela onde eu e todos os outros dançam e interpretam o seu papel, aquele que alguém lhes deu ou que eles escolheram, com mais ou menos consciência de que estavam a fazer uma escolha. Porque fomos ensinados a que a vida é um palco e temos mesmo de escolher que personagem queremos representar e como devemos interagir com os outros personagens, para dizer a "fala" certa no momento certo, tudo direitinho para o público gostar de nós.
O distanciamento social tirou-me do palco, fui dispensada de atuar, fiquei à margem do espetáculo, sózinha comigo mesma e com a dureza da minha realidade, despida de sonhos e de floreados fantásticos. Vazia de projetos e de expetativas.
Depois da quarentena, nada será como dantes!
Pelo menos para mim, que perdi a força de encetar um reinício. Reset, restart... não encontro os botões!
Perde-se a esperança, os objetivos, o vigor de continuar a persegui-los, deixa-se de correr à procura de amigos, deixa-se de acreditar neles, em milagres ou na sorte. Deixa de ser importante estar bonita, de sorrir para o espelho, de inventar, de fazer da vida uma festa, sempre criativa e emocionante.
Perde-se a inocência... a quarentena levou-a num vendaval de realismo.
Aqui e agora na realidade do momento presente, tudo é mais verdadeiro.
Porque o momento presente é exatamente igual ao minuto anterior e porque a hora seguinte será muda e quêda, como as que a antecederam...
Parados, calados, introspectivos, vagamente distraídos, vemos mais um episódio de uma série bestial, apanham-se mais umas ervas no jardim... que é uma espécie imaginada dos jardins suspensos da Babilónia... inacessíveis, quiçá inexistentes...
Se eu bebesse, seria uma cerveja quente da dispensa (as frescas já tinham marchado) e concluiria que são tão boas como nada... e, quiçá, nem será preciso voltar ao bar da esquina para um copo, no futuro próximo em que talvez o balcão esteja desinfetado e o barman sem máscara. Essa cerveja fresca num ambiente amistoso era afinal fantasia, real é mesmo esta que bebo comigo mesma, a única que interessa, tudo o mais se esfuma na irrealidade daquilo que nos ensinaram que ver como real.
Há muito que sei que a verdade não existe! Mas é tão bom, deixar-me embalar e esquecer-me por momentos. É tão bom pensar que sim, que existe e é real, palpável, verdade verdadeira e segura.
Seria tão incrivelmente maravilhoso pensar que há futuro e que nesse longínquo lugar... talvez haja viveiros que vendem plantas em vasos, que podem plantar-se e "pegam" logo. Instantâneo! 
Mas não. Hoje e na realidade, a natureza é lenta... e cada pèzinho de flor que se corta para tentar que crie raízes para voltar a crescer, cada semente pequenina que se lança à terra tem fortes probabilidade de morrer, nesse percurso lento, demorado de construção de uma vida. Numa lentidão de quarentena.
E depois dela acabar (para alguns, como dizia), tudo será muito lento... porque regressaremos a nós próprios, como se fosse um principio... Ora, quem é velho não tem mais principio... só tem fim.
Pode levar algum tempo a atingir esse fim, mas o lento caminho para o vazio prevalece, com a sua cara de realismo novo.
Ir comprar plantas prontas a enfeitar um jardim era um prazer, um passeio excitante. Um prazer cortado! Agora nada mais parece ser excitante e o futuro afigura-se igualmente enfadonho, tão chato como a semana anterior... ou a próxima, tanto faz.

Descobri que vivo em quarentena dentro de mim, desde sempre. E que as poucas vezes em que saí de dentro de mim, foi por motivos essenciais: por exemplo, para saberem que existo (lembrar aos mais esquecidos), para procriar os seres autónomos de que a Humanidade se compõe, para tentar dar esmolas solidárias a quem não as pediu e as despreza, foi para renegar o Bem... que me foi mal oferecido.
Saí pouco e caminhei tropega pela vida, não soube ir a direito, levar mascara e luvas...
Por isso, fulminada por mais um virus, novo e parecido com o do ano anterior e também com aquela gripe que me ataca sasonalmente há 5 anos, tive uma recaída.
Por isso, sei que continuo a não estar imune e que tenho de regressar à quarentena. 

É nesse lugar de contenção e moribundez que me querem. E se calhar será um regresso ao nada. 

Quando a dita normalidade do teatro da vida voltar para o comum dos sobreviventes, eu regressarei àquele pântano, mais parecido com quarentena, onde não consigo ver a luz ao fundo do túnel.
E depois de mim virá quem consiga, por mérito próprio, não só ver a luz, mas o mar lindo, azul, esplendoroso ao fundo do túnel.

Publicada por Maria Gualdim à(s) 15:09 Sem comentários:
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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Belgais




Vai-se a Belgais com algumas expectativas, mas encontra-se outra coisa...


Li isto em qualquer sítio e é tão verdade que não resisti a citar.


Porque é deveras difícil descrever o que se encontrou... ou o que se viu, menos ainda aquilo que se sentiu... para além do que se ouviu (Shubert).

Havia todo um ambiente sensorial envolvente e único, mágico, total... Diferente de um concerto, foi mais uma visita a casa de alguém de família, íntimo e requintado. 
Total é uma palavra que não diz nada, mas com ela arrumo todo o turbilhão de sensações, de emoções que senti e para as quais nem saberia encontrar um nome. O nome certo! Todos os nomes seriam poucos, só serviriam para empobrecer o acontecimento.
Um evento que me marcou tanto que quando voltei só disse: ninguém devia ir deste mundo, sem ir pelo menos uma vez na vida a Belgais.

Na semana seguinte, ficámos fechados em casa, todos.
Nos dois meses seguintes, o ambiente ficou pobre, viciado e doentio. O confinamento social amoleceu-me a mente e a capacidade de gritar ao Mundo que existe Belgais! 

Porque nós todos, nós e essa gente que não foi a Belgais, passou a só ver medo e morte, a sofrer, a desenrascar-se para não sofrer, a ajudar os outros quem podia fazê-lo... a tentar ser normal em letargia, a tentar trabalhar mais do que seria normal, a comprar o que não havia, a inventar alegria e música virtual, a encontrar amigos à distância de um clique informático, a fazer pela vida e a fugir à morte. 


Música é vida, música há muita (tal como os chapéus...), mas Belgais só há um.




"Sobre o poder encantatório da música disse Homero na Odisseia. 
Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.

O belo abre a porta do que normalmente, no meio da banalidade rasante, se não vê nem ouve. Mas, quando se viu o invisível e se ouviu o inaudível e a sua beleza, tudo se transfigura e reconcilia. Este mundo torna-se outro, sem deixar de ser este. Daí, a exclamação de felicidade, que também os discípulos experimentaram, aquando da transfiguração de Jesus: "Como é bom estar aqui!"

A citação é de Anselmo Borges, não fui eu que escrevi este belo texto, nem o faria por razão religiosa, mas curiosamente seria capaz de dizer o mesmo, no fim daquele acontecimento mágico de Belgais : Como é bom estar aqui!

Como foi bom e inesquecível: pela beleza do lugar, pela companhia amiga que coloriu dois dias de calor e amizade, de coisas boas, que potenciou Shubert, tornou o sol mais quente e a vida mais bela.
Corria entre os campos, o som do amor e dos bons sentimentos, as claves eram de sol, as notas eram de beleza e amizade...
Venham mais vezes, sonhos acordados povoados de amigos e magia musical, mesmo sem Belgais, lugar de encanto e de amor!


Publicada por Maria Gualdim à(s) 10:41 Sem comentários:
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segunda-feira, 2 de março de 2020

Insubstituível



O cemitério está cheio de insubstituíveis.
E não obstante, o mundo continua a rodar, as coisas funcionam mais ou menos, como sempre....
Vista de longe, a humanidade prossegue o seu caminho, as pessoas choram e riem, nascem e morrer com toda a leveza habitual. Os incompententes são tão parecidos com os competentes, quanto os super-trabalhadores são semelhantes aos preguiçosos.
Grosso modo, tanto faz como fez.
Em suma, somos todos relativamente iguais, desnecessários e substituíveis. Ninguém, a título individual, faz falta nenhuma.
Claro que há um ou outro talento disperso que faz a diferença e pode dar um empurrão para que o progresso progrida, para que a mudança mude e para que os homens indiferenciados, abrindo os olhos perante a diferença, gozem o milagre produzido - na tecnologia, na medicina, na literatura e nas artes, no conforto dado pela modernidade.
Só que raramente este “milagre” é fruto de um só mago, daqueles insubstituíveis e únicos. Há uma corrente de esforços, um somatório de ciências e de dotes que se acumularam ao longo dos tempos e nos deram o que temos.
Pelo caminho muitos caíram, outros levantaram a bandeira e prosseguiram na senda, tão humana quanto natural, de substituir os insubstituíveis.
Quantas vezes com vantagem, para melhor.
As lágrimas da perda secam rapidamente porque atrás de um insubstituível perdido (e amado) vem uma novidade incrivelmente capaz... e quiçá melhor!
É a roda da vida.
Não vale a pena pensar que somos únicos, especiais, desejados, amados ou insubstituíveis. Porque é uma falácia. Somos todos dispensáveis.
Eu, pelo menos, sou! Dispensável, macro-inútil, rapidamente permutável e ainda mais facilmente esquecida.
A minha utilidade é pontual, posso ser interessante para certas tarefas, para certas pessoas e durante um espaço de tempo razoável, comportadamente limitado. Porque o que é demais, chateia.

Em termos micro,  posso dar jeito; em termos macro, sou perfeitamente dispensável. Somos todos, acho eu.
No curtíssimo prazo, tenho pequenos talentos e os seus utentes agradecem (mas passariam bem sem eles ou encontrariam outro produtor).
Tenho jeito para fazer sopas e para dar cambalhotas valentes, tenho jeito para escrever relatórios e para fazer limpezas, tenho gosto em plantar flores tal como para semear beijos e abraços em canteiros especiais, tenho jeito para ouvir os outros e pouco para me ouvir a mim e me cuidar.
Tenho talento maior para amar, para me dar, para construir pedaços de felicidade, a partir do nada e do ar....

Talento que vai com o vento... este o de amar!

Escoa-se como a água da onda na areia, quando chega à praia cheia de força e num minuto se esvai.

Chega com a força de uma ventania e, quem está de fora da tempestade, olha e apenas vê uma pequena folha que voa e não consegue agarrar. E suspira: não faz mal, é apenas mais uma pequena folha já engelhada pelo vento, perdeu-se... outra se há-de achar.
No chão, o jardim está coberto de folhas caídas e ainda viçosas, fáceis de apanhar... fáceis e boas... fáceis e úteis, fáceis substitutas substituíveis,
Deixá-la ir, a folha que voa, deixá-la partir no próximo tufão. Deixá-la jazer no lugar dos mortos que outrora foram vivos, úteis, amados e substituídos.
O mundo continua a rodar indiferente às substituições, aliás contando com elas para gerar mudança, energia e movimento.
Porque é disso que se faz a vida - matéria, energia e movimento.

Os afetos não existem nos elementos, são construção mental, algo de tão fluido quanto a leve brisa que agora rasteiramente levanta algumas folhas do chão.

Tão leve, tão invisível, tão inútil, tão fugidio e irreal é o amor.

Porque continua então a ser tão idolatrado? Porque tentam, eles os humanos estupidos, inúteis e substituíveis, agarrá-lo, preservá-lo e persistem em lamentar a sua perda? Como se isso fizesse algum sentido, Era como se quisessem que o vento coubesse numa mão fechada... ou mesmo em duas... de mãos dadas.

A realidade da perda, a aceitação da mudança e a consciência da substituibilidade são, no seu todo, a única verdade.

Ninguém nos quer realmente por aquilo que somos. Apenas nos apreciam pelo que valemos e pelo fazemos em proveito alheio.  Ninguém nos vê, de facto, para além da face superficial das nossas pequenas utilidades. Bondosamente, podem até amar os pequenos talentos e virtudes. Não choram muito a nossa perda (que se colmata por moeda de igual valor). Não gostam de nós por aquilo que somos, só o que fazemos é util e meritório. O nosso Eu verdadeiro interessa pouco, não se vê e quando alguém descarado o mostra, recebe uma cara de enfado - vira para lá essa alma que só atrapalha... e vai fazer a sopa!

Talvez reparem melhor no mal que fazemos. Esse não esquece. O ódio tem sempre mais força do que o amor. Bora lá fazer uma guerra... talvez assim se anule a indiferença e os outros nos passem a amar pelo medo. Talvez assim desejem ativamente o nosso desaparecimento. Seria uma morte honrosa, desejada pelas vítimas do nosso mal, do terror espalhado, do medo, da insônia, do horror.
Seria um morte insubstituível, a de um criminoso. Ninguém iria procurar outro para lhe ocupar o lugar ... pelo menos de forma consciente.

Se um homem bom morrer (ou uma mulher), ou até se apenas se afastar um pouco, o seu destino seguirá na maré do esquecimento e fatalmente da substituição. Se um homem mau partir, não será esquecido, quanto mais não seja para evitar que um substituto ocupe o seu lugar. E permanecerá na memória e no susto por muito tempo.

Afinal os cemitérios não têm apenas os queridos insubstituíveis, têm também malfeitores, indesejados que ninguém quer substituir . Esses querem-se mortos e bem mortos e não serão esquecidos!
Os outros passam... o bem não deixa rasto na areia da baixa-mar...









Publicada por Maria Gualdim à(s) 18:44 Sem comentários:
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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Um beijo cura?



Pediram-me um beijo. O que fazer?
Como se um beijo fosse remédio para uma carência da alma! Se assim fosse... O perigo é que pode vir a ser o início de uma infeção viral, de consequência imprevisíveis? E não falo desse vírus da moda, mas daquele que gosta de almas... desprotegidas, desprevenidas, expetantes e frágeis.
Porque há beijos e beijos e nunca sabemos o que fazem com eles aqueles a quem os damos e também não podemos prever como ficamos depois de os dar...
Não valem para aqui os beijinhos sociais nem a ternura familiar, os repenicados beijos dados a bébes e os mais fugidios dos filhos a crescer e a descartarem-se das lamechices maternas.
Falo dos outros, dos beijos adultos. Existem de todos os tipos: desde coraçõeszinhos inofensivos do Valentine até aos igualmente icócuos beijos à Hollywood. Há os nossos e há os deles...
Pois são os nossos que interessa entender:  saber porque os damos ou recebemos faz toda a diferença e ajuda a perceber o lugar que ocupamos no nosso percurso de vida ou na vida dos outros.
Por que há quem receba beijos sem o querer (ou merecer) e quem não receba e queira mais.

Pediram-me um beijo. O que fazer?
Fugir a correr? Ter medo e não querer? Ir em frente, porque afinal não é o abismo, nem nada de mal pode acontecer.
O beijo pertence a quem o dá ou a quem o recebe?
Sinto que não é de ninguém, apenas uma bolinha que gira num circulo, quando posto a rodar, tal como o afecto que nasce do sol e do nada. Tal como o desejo, que vem da noite escura, dos seus terrores, da solidão pressentida, dos sonhos vividos e que se quer repartir.


Tal como tudo o que é leve e nos enche como chumbo, é inútil e desejado, terreno e étereo, tudo e nada...
Publicada por Maria Gualdim à(s) 06:35 Sem comentários:
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Eu...(ela)


Pintura de Espiga Pinto

EU
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…
Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Florbela Espanca
Publicada por Maria Gualdim à(s) 08:37 Sem comentários:
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terça-feira, 28 de janeiro de 2020

A inexistência de uma carta



O que não se diz, não existe!

Tal como as palavras não ditas, também as cartas não enviadas, não existem.


Era nisso que pensava Lídia na sua janela, de uma casinha de pescadores meio desmoronada que tombava sobre a falésia, logo ali à borda do mar bravio da Ericeira.
A casa do lado já desabara há alguns anos, graças ao abandono e à fragilidade da construção. Do outro lado, um hostel remodelara uma mansão de família, mais antiga e de melhor porte. Ficava logo ali, mas até parecia que o mar, por respeito, pedia às águas que amansassem na sua borda. A sua casa, porém, de tão tosca que era, teria certamente o mesmo destino da do vizinho pobre... a terra que sustenta o mar levaria o resto do quintal, a seguir talvez um quarto, depois outro, a seguir a alma ... aquela que tinha um corpo lá dentro: o seu... por acaso.

Pouco lhe importava o destino longínquo desse seu corpo, tal mal tratado. O que a trazia em transe era a alma, já de si amachucada. O corpo, esse como ia dentro, levaria melhor destino - sempre tinha um invólucro de proteção. Para quem estava de fora, a alma era invisivel e, por isso, todos pensavam que ela era apenas um corpo risonho, feliz, bonito até, saudável e sorridente... sempre sorridente... até sedutor. Não percebiam que aquilo que viam era apenas uma pequena parte do que ela tinha, um bocadinho semi-encoberto por algo superior, muito mais largo, mas invisível - o espírito de todas as coisas e de si mesma.

Se pudesse pesar o valor desses bens, saberia quão infinitamente pouco peso tinha esse corpo, se comparado com tudo o resto de que dispunha.
Pressentia que o pior estava para vir e que aquele mar, que se estendia à frente da sua janela desconjuntada, em dias de tempestade, poderia fazer estragos  ao seu bem mais precioso - o seu Eu. 
No entanto, sorria porque acreditava que as intempéries marítimas só destroem  as almas, salvando os corpos que vão dentro delas. O mar preserva os corpos que engole, pode é dar-lhes outras formas . Estava em crer que, mais cedo ou mais tarde, iria lá parar - àquele belo mar de jagozes, imenso, bem à medida das suas ambições.
A alma iria para o fundo do mar ou tavez até se volatilizasse num dia de nevoeiro e subisse ao céu. Perder-se-ia na imensidão do nada.
O corpo-matéria, esse, permaneceria para sempre no Universo, nas suas mais maravilhosas formas de vida: um peixe ou uma pedra, uma alga, um grão de areia, transmutado em vulcão ou em rosa.

Lídia mergulharia no mar, isso era certo, e perder-se-ia à força de um empurrão brutal, estava em crer - como é que isso aconteceria é que era difícil de prever em detalhe. Tudo dependeria da forma e do truque de marinharia que viesse a ser usado - seria obra do acaso? ou de algum marinheiro que lhe coubesse em sorte e a levasse para o mar? Talvez de alguém que - obedecendo ao gosto dos homens e das mulheres ou à determinação divina - a mandasse borda fora. 
Estava certa de que assim seria - o assassínio é tão certo quanto a morte, porque ambos são a mesma coisa. 
Se alguém morre é porque alguém a matou, quer seja outro ser humano desalmado, quer seja uma batéria, um vírus ou um anjo.
O seu assassino (ou assassina) andaria por perto, talvez à espera que a janela desconjuntada desmaiasse de carruncho ou que a parede da casa velha cedesse perante a força do vento, daquele vento forte que tudo arrasta, incluindo bicicletas e panelas. Ela iria ser engolida por uma onda em forma de um olho turco, cor de mar... tudo azul, lindo e candidamente inofensivo... numa paz e de uma beleza de bilhete postal. 
O mar não a enganava, é uma ilusão, apesar da paz que nos dá. O mar, em especial aquele ali, era de um perigo pressentido Se baixasse os braços, saberia que seria por ele levada para longe...


Antes porém, gostaria de escrever uma carta, para que ficasse claro que o mergulho no mar era uma morte forçada pela erosão, pelo desgaste de uma casa podre em desequilibrio à beira da falésia. E que bastaria um empurrão leve de uma bruxa vestida de anjo para que o abismo se abrisse à sua alma, a tal que tinha um corpo lá dentro. O corpo seria salvo... a alma ficaria perdida para sempre, flutuando qual fantasma por sobre as noites dos assassinos jagozes e de todos aqueles que a viram voar sem norte e sem paz e não lhe deram a mão.
De todos aqueles aprendizes de assassino que a ajudaram a dar um passo mais a caminho do abismo. Porque uma coisa é certa, neste mundo não há lugar para todos... é um salve-se quem puder, tempestades e naufrágios não têm regras... é preciso matar alguns para dar de comer a outros. 

Iria escrever uma carta dirigida a todos, porque o assassino não sabe ler e não gosta de cartas. Não gosta de cartas, nem de assassínios disfarçados de suicídio na falésia, nem de sentimentos mórbidos, nem de mortes radicais, nem de heroísmos gratuitos, nem de nada que fuja da norma da normalidade ou da paz pacifica. Só gosta de paz e de concórdia (discurso tipo miss universo) e de amor descartável (tipo lenço de papel, chora e deita fora!).
Por isso, ela continuava à janela da casa em ruínas de risco eminente, tal como era eminente o processo de queda.
Há dois dias que não vê barco na costa, viu ao longe uma sombra de traineira que se desviava ligeira do seu horizonte e levava a bordo uma tágide de branco vestida, carregava flores e douradas, pescadas noutras praias, destinadas a panela alheia. 
Da sua janela, nesta falésia cada vez mais sofrida de erosões e de ilusões, Lídia sabe que cairá no mar e pensa: o meu corpo será útil (aquele que levo comigo quando a alma naufragar) será para os peixinhos... e depois será  petisco de amantes felizes, ou regalo de uma família com crianças que não gostam de peixe, ou sustento de pescadores em extinção...
Que seja, podem levar e comer tudo, excepto a carta que ninguém lê e a alma inquieta que voará para mais infinito...

A carta ficará escrita, escrita para ninguém ler... porque depois de mim, não sobrará quem a leia.
As pessoas que na terra ainda sabem ler cartas de amor, estarão tão atarefadas nas suas vidas e nos seus amores, que não vão ligar a amores fanados e muito menos àqueles que destruíram.


Esta é a carta que não devia escrever! - disse Lídia, bem alto, para o mar em frente, onde ninguém a ouve.
Porque sei que um homem não aprecia grandes manifestações amorosas, nem de sinais de dependência afetiva, nem de qualquer coisa que cheire a compromisso, carências, lamechices ou sentimentalismos ...

Sei quão politicamente incorreto é falar de sentimentos, de emoções ou de outras complicações.

Se os homens mandassem em tudo, todos os seres humanos seriam feitos apenas corpo e razão . 
E quanto a mulheres, o ideal deles é que elas sejam apenas corpo, boa cama e companhia, algum mimo e q. b. de raciocínio lógico, nem muito burras nem demasiado inteligentes. Pretende-se que sejam de uma esperteza prática, simples e capazes de traçar um caminho fácil e livre de perturbações sentimentais ou de prisões afetivas. 

Apesar de saber tudo isto, hoje apetece-me transgredir! - disse Lídia, para si mesma.
Vou pisar o risco e dizer que amar é bom.
E vou tentar que acreditem que isso não faz mal nenhum!

A mim faz-me bem saber que existe quem goste de mim. Nem que seja o meu assassino! Muitas vezes, está longe ou mesmo em black out total ... mas gosto à mesma ou até com mais força. Sinto que estou ligada por um laço cor de rosa de emoções queridas... É tão bom para mim, que espero que esta declaração de amor não seja vista como um nó feio e apertado. É um lacinho doce... que se poderá deslaçar quando algum de nós quiser.
Escrevo porque gosto de manifestar o que sinto e o que sinto é nobre, é sério, é rico... e não faz mal a ninguém.

Escrevo apesar de não ter nada de novo a dizer, apenas para me libertar desta tensão que me afoga... da vontade de dar mimo, de ouvir um sorriso ao telefone, de imaginar um afago num instante futuro.
Escrevo porque preciso de atirar para fora de mim, os muitos macaquinhos do meu sótão . A verdade é que não controlo os macaquinhos.
São muito irrequietos e, por vezes, precisam de ir à janela do sótão para respirar... sobretudo, nos dias em que não podem sair e ir passear.
E é nessa janela, a absorver o sol ou o nevoeiro de cada dia de solidão, que eu escrevo. Como se falasse baixinho para só eu ouvir: penso como é bom gozar o momento, o presente, a esperança de um futuro beijo, a certeza de um futuro desgosto, porque quem tem uma alma sensível (além de corpo e razão) sofre destas coisas.
Sofrer é sentir - coisas boas ou más - é viver ! Pela bola ou pelos amores, sofre-se porque se está vivo, não acomodado... porque se tem gosto em celebrar sentimentos e emoções.
Hoje estou à janela do sotão, só para dizer que gosto de gostar de alguém!
Amanhã talvez diga outras coisas... não importa, o que vale é o instante.
E neste instante, enches-se-me meu coração de alegria e de saudade boa.

O instante, o momento presente e o amor é tudo o que importa para os mortais como nós!

Pois o mar continuará ali - azul ou cinzento, belo ou bravio, enorme... engolindo todos corpos que a morte assassina lhe irá oferecendo. As almas, essas, as boas e as más hão-de sumir-se no nada - não acredito no juízo final.
O juízo será terreno - um tribunal ou a consciência de cada um ditará quem foi bom ou quem fez do seu semelhante um trapo ou um morto. 
Quer as boas almas quer a gente malvada terá toda o mesmo destino - os seus corpos virarão matéria, só a alma e o amor vivido se perdem. A matéria transforma-se, fica na natureza. 
É matéria. É tudo tralha! Tralha e mais tralha...arremessada ao chão para que alguém (ou seja, o inimigo a abater), se estatele e desapareça.


Por isso, de nada vale ligar demasiado a bens materiais inutéis, nem aos sinais de riqueza ou de ódio - de nada valem casas ou sapatos, lingerie ou escovas de cabelo, automóveis ou bicicletas, caixas ou panelas, livros ou quadros, amuletos ou benzeduras ocas. Pequenas e irritantes tropelias de quem não sabe ser grande e tenta matar "l'air du temps"... que sendo passageiro é imortal enquanto dura.




Publicada por Maria Gualdim à(s) 04:40 Sem comentários:
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