quinta-feira, 2 de agosto de 2018
Irritação
Não sei se Irritação é um sentimento ou uma emoção. O que sei é que sou acometida muitas vezes, por demasiadas vezes por esta doença aguda.
Espero que não se transforme em doença crônica, porque seria insuportável viver permanentemente debaixo da tensão que a irrritação comporta. É de um enorme desgaste físico e para alguém se libertar dela pode recorrer a excessos. Atirar com objetos com força, com raiva, com violência, partir, fazer barulho, estilhaçar o que estiver a jeito. Bater com as portas sempre é melhor do que bater em alguém, mas subsituir a raiva por álcool, por medicamentos calmanentes ou qualquer outra atividade que cria “adição” já não é. Pode parecer inofensivo ter pequenas irritações, mas de facto não é vida manter este estado de coisas para sempre.
Irritação é quase sempre uma guerra de nós, connosco mesmo.
Pode haver um factor externo que a provoca, no entanto ela é sobretudo uma construção mental...
Os fantasmas... sempre os fantasmas, o medo do futuro, a insegurança, a falta de afectos para alimentar, de amores para regar...
Irritar por uma causa desconhecida, eventualmente vindoura é sofrer por antecipação. É estupido !
No entanto, o que fazer quando a irritação disfarçada de angústia chega de mansinho?
Como fugir?
Só vivendo o momento presente... com paz e alegria.
Porque no presente, eu tenho o mar, o sol, uma boa companhia, liberdade, saúde... enfim tudo aquilo que deveria ser suficiente para curar a irritação.
terça-feira, 31 de julho de 2018
Mar
Canção
Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
Cecília MeirelesPus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.
Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.
O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...
Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.
Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.
segunda-feira, 23 de julho de 2018
No Teu Deserto
Caminho por terreno minado, no teu deserto.
Sei que, se for por aí, terei de saltitar, correr rápido ou até talvez mesmo voar.
Não é chão seguro, nem estrada linear.
É um lugar para se estar e passar. Por isso, há que ser leve. Pisar o solo levemente, tão levemente que a poeira não surja… que os pássaros não acordem, nem desatinem os cães. Como se fosse noite e todos dormissem.
Serei tão discreta e leve que ninguém me verá, mesmo que me falem, me olhem e continuem as suas vidas.
Também pouco me importaria que me vissem ou se rissem.
Passarei sem deixar rasto… sem mostrar que estou, porque não estou!
Para que as entranhas da terra não sintam a minha existência na tua vida, para que os alarmes não disparem e as minas rebentem.
Porque sei que o chão está minado e eu a vítima-objeto, pronta a saltar, qual estilhaço a quebrar.
Definitivamente para quebrar… desistir e não voltar.
Sei que só eu me posso salvar, mas para isso terei de flutuar, deixar que o vento me transporte no ar… Sem amarras, nem sentimentos, no ar…apenas no ar…
sábado, 21 de julho de 2018
Cais do Sodré
Palavras
soltas no Cais do Sodré
William, um jovem turista
inglês, descia apressado e ligeiro a rua do Alecrim, feliz dos pés, feliz da vida.
Ficara alojado num hostel
chamado “O Cantinho do Prazer”, nome que nada lhe disse quando chegou,
mas que muito o divertiu quando pediu a tradução.
Pensou que tinha chegado a um
lugar especial, a uma cidade especial, onde o prazer e a alegria se misturavam
com o sol e com o rio, que estavam ali para o fazer feliz.
Tudo era expressão desse
sentir. Até a barbearia onde barbas modernaças eram a paradas com elegância,
lhe sussurrou baixinho ao passar: “Life is too short for a bad haircut”.
Não fora a fome que já picava,
talvez se atrevesse a entrar. Preferiu continuar na busca de alimento e ficou
na dúvida sobre o que escolher, os menús estavam escritos em inglês (simpáticos,
estes portugueses!) mas, por vezes, incompreensíveis ao paladar britânico. Broken
Eggs seria algo de recomendável? E acompanhado de uma Bigfana, como
seria?...um desafio, pela certa.
Iria experimentar – pensou: O
quanto se adia se perde.
Vamos lá embora – disse para
si – hoje, nada lhe partiria a alegria, nem mesmo um broken egg!
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Mercado da Ribeira
Uma
luz difusa, sobre móveis escuros e pessoas de tons diversos, surpreende quem
ainda vem da rua com uma réstia de sol no olhar.
Rapidamente
se fica submerso naquele mundo diferente, amálgama de diferentes cheiros, que
cada banca oferece, babilónia de vozes sobrepostas ao tilintar da loiça e à
música ambiente… indistinta!
Miúdas,
todas lindas, todas jovens, pernas ao léu, muitos ténis, muitas sandálias…
Um
grupo de “ginjas” faz circular a garrafa de tinto, que desaparece rapidamente
nas gargantas, à mesma velocidade com que sobe o tom das gargalhadas.
Cheira
a alho, a cebola frita, a refogado bem português, apesar de sob o meu olhar só
existirem pratos com restos de pizza, certamente sem sabor nem cheiro.
O
velho e querido hambúrguer parece atrair o turista menos afoito a provar
petiscos desconhecidos.
Quanto
ao vinho, não parecem ser esquisitos, provam de tudo, partem do princípio seguro
de que é bom: branco, tinto, sangrias coloridas de frutos. Bebidas que os fazem
rir e tocar, distorcendo os corpos nos bancos altos, quase caindo sobre o
parceiro mais próximo.
Cevicherie,
local vazio, peixe crú não atrai cliente, mas cheirava tão bem… que
incongruência! Deve ser dos acompanhamentos, hum… provei pipocas de porco,
picantes e boas. Tudo apetece, mas não posso ficar.
Lá
fora dança-se e a música puxou por mim. Não é bem um jardim, mas um quadrado de
loucura saudável, ponteado de relva, tem um parque infantil e é um local de
devaneios e copos. O DJ abana-se ao som da música “disco”, enquanto uma criança
desliza no escorrega, indiferente ao som.
Cachorros,
pertença de um grupo de “alternativos”, cabelos com rastas e trapos a condizer,
são afagados por dois brasileiros de São Paulo, felizes por abraçar a pseudo-jornalista
que sou eu, que apenas queria saber porque não dançavam. Dizem que o mundo aqui
é igual ao Brasil, todos se querem divertir, ninguém liga aos problemas do
mundo, ao que é importante e grave para a humanidade. Somos iguais! – dizem.
Replico que a segurança e o à-vontade vivido naquele pequeno quadrado de
loucura talvez não seja possível em São Paulo. Procuram fazer amigos, já
conheceram muita gente nova – é o que querem, estão eufóricos cm o ambiente:
viver o prazer, amar os animais, viver a música e os copos.
Aquilo
que me parecia um lugar de feliz descontração – um pouco caótica e plurifacetada
– um divertimento a que todos temos direito, de repente parece-me uma
futilidade.
Há
guerras e desventuras, mas acredito que naquele grupo de jovens sentados no
chão, sem conforto mas com a alegria das cervejas em copos de plástico e
comezainas de aspeto duvidoso, poderá haver um cientista, um génio ou apenas um
bom coração capaz de salvar o mundo.
Sorrio
à felicidade dos outros, porque só gente feliz pode fazer algo de bom, por si e
pelos outros.
A Casa
A casa tem alma se tivermos amor para pôr lá dentro
Há a casa-abrigo e a casa-ninho.
E as diferenças entre uma e outra são tudo, fazem ou desfazem a vida de uma
pessoa e o seu lugar no mundo.
Uma casa pode ter tudo e estar
vazia. Ou estar vazia, pobremente vestida de mobílias e de coisas, mas cheia de
alma.
Há quem não tenha casa o que não
significa que seja sem-abrigo ou viva na rua – são os que se abrigam junto de
amigos, conhecidos, tentando aconchego gratuito ou alugado… porque pouco têm se
seu. Mas têm amor para dar e essa troca de um teto por afeto parece-lhes justa.
Há quem seduza um dono de casa para
ser dona da sua (dele) casa. Porque uma casa é tão útil, dá tanta segurança, dá
tanta riqueza a quem tem pouca sorte e pouco de seu.
Há quem roube, há quem manipule,
há quem se venda, há quem compre ou explore o outro, sorrindo – tudo por uma
casa! Por uma casa-abrigo, por uma casa-conforto, por uma casa-velhice…
Há quem perceba – talvez, tarde
demais – que uma casa não se rouba, nem se conquista. Uma casa constrói-se com
amor, com afeto genuíno, consentido, gratuito e bilateral. Uma casa com alma tem
amor lá dentro, tem bondade, partilha de interesses… é feita de boa-fé, sem
apropriação indevida, sem artifícios.
Uma casa só é ninho, se for legítimo
local de habitação de amor desinteressado…. Se for um lugar a que possamos
chamar de nosso - em exclusividade ou em parceria - mas nosso por direito
próprio, esse que só a alma legitima.
Pensão Amor
Natasha, bailarina russa do
Teatro de São Peterburgo, estava no auge da sua carreira, culminar de anos de
esforço e de disciplina, que a sua arte e a escola soviética impunham. Dançava
maravilhosamente.
Uma noite, no final de um
espetáculo deslumbrante, um deslumbrado comandante de um navio francês,
ancorado no porto, convidou-a para jantar a bordo, com todo o requinte
gastronómico, com toda a simpatia cavalheiresca, quiçá com outros interesses
que a ocasião poderia proporcionar.
O champanhe francês fez o seu
efeito, deixando Natasha prostrada e semi-inconsciente no sofá do camarote,
enquanto o comandante se afogava em vodka, bebida que não estava muito nos seus
hábitos.
A noite abateu-se sobre os dois e
nem a aurora acordou o idílio não acontecido. O navio partira mal amanhecera e
o comandante – preocupado ao perceber
que levava a bordo a uma prima-bailarina russa e temendo ser acusado de apoio à imigração ilegal – deu ordens rápidas e atabalhoadas a um
grumete, para que a transportasse a terra num barco a remos. A costa estava
cada vez mais longe. O pobre marujo, atrapalhado mas cumpridor, tentou dar
conta da sua missão, mas ao perceber o risco que corria, resolveu esconder a
rapariga no porão. Ao descer, às pressas, às escuras, ela tropeçou e caiu. Algo
dentro dela se partiu: o pé ou a perna …talvez uma vértebra. Sentiu que a sua vida
artística terminara ali, naquele porão sujo e escuro no meio do oceano, a
caminho do desconhecido.
Quinze dias depois, o destino era
Lisboa, onde foi literalmente empilhada com caixas vazias de víveres e
despejada no armazém do porto.
Natasha mal andava mas queria
dançar, a música chamava por ela. Deambulou pelas ruas, coxeando e com dores,
num caminho que pela certa a levaria à morte … pensava.
Era um fim de tarde e alguém lhe
disse que aquela zona se chamava Cais do Sodré, ruas de bares ainda vazias dos
marujos bêbados, que a assaltariam à noite.
Entrou numa porta – a Pensão Amor – porque a
música que tocava no andar de cima chamou por ela. Uma área de ópera era coisa pouco
usual naquele lugar.
Mas ela queria dançar, apesar do
sofrimento, das fraturas suspeitadas.
Agarrou-se ao varão que estava no
meio da sala de cortinas douradas e sofás de veludo. E dançou apesar das dores,
dançou graças ao apoio daquele varão providencial, dançou até a noite cair, até
desfalecer… porque aquele lugar era certamente o seu fim. Dançaria sempre e até
sempre… Dançaria até à morte, por si, pela sua arte, porque dançar era a sua essência e a dor o seu caminho. Dançaria sem parar... até parar!
Quando acordou, inerte ao lado do
varão, sentiu que uns braços fortes a içavam e que um mar de homens grosseiros
e duros, pegajosos e escuros, batia palmas e chorava sobre as suas canecas de
cerveja esquecidas e por beber.
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