sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Minha Insónia e Eu





Desatinas-me! 
A insônia instalou-se no seu tempo e no seu espaço habituais. A insônia chegou depois de ti, veio ocupar o vazio, veio para o seu lugar costumeiro. Talvez sempre cá tivesse estado, desde o princípio da história, muito antes de ti, muito antes de alguém, simplesmente porque eu deixei que ela viesse um dia, simplesmente porque eu desatinei ... sem causa ou com outra qualquer causa, que não aquela que invoquei. Injustamente, é provável. 
Mas é preciso corporizar uma causa para que as coisas façam sentido, para que o mundo pareça mais real. Mesmo que o “tu” não exista, é bom encontrar um sujeito para cada verbo, para que as ações dos sujeitos não pareçam estranhas, virtuais, inexistentes. Frases de sujeito indeterminado existem, pois claro. Mas é uma angústia não saber a origem das coisas. Seria uma espécie de processo judicial “contra incertos”...

A  insónia, que provavelmente já cá estava, teve a discrição e o bom senso de esperar por mim, de aguardar que eu ficasse só para reocupar o seu posto. Apenas teve de esperar que abalasses do meu ouvido... Pois o lugar da "minha" insônia é dentro de mim. Somos íntimas. Reencontramos-nos regularmente na noite solitária.

Por vezes afasta-se ...

Quando tu vens – sob a forma de som ou de matéria - ela afasta-se, espera na sombra a sua vez de aparecer. Acho que a minha insônia não gosta de ti, prefere a minha pessoa sem ti ...talvez seja ciumenta. ...

Quando me abandonas na noite, quando a distância real entre nós iguala a pressentida...  ela vem! Sim, porque enquanto o som da tua voz está comigo, a distância  entre nós é zero apesar dos muitos km que nos separam e, então, todo o espaço parece habitado.

Depois vem o silêncio, a seguir a solidão ou vice versa, tanto faz. E a insônia instala-se comodamente a gozar comigo.

Ri-se de mim, eu sei. Fecho os olhos e enterro os ouvidos na almofada para não a aturar, é uma parva. Só diz coisas inconvenientes que não me agradam. Faço de conta que não ouço, porque se ouvisse teria de concordar com ela e não me apetece. Ela tem razão quando me sussurra que a parva sou eu, que te dou ouvidos e não durmo. Que dou ouvidos a muita gente e não durmo. Que me preocupo com os outros e não durmo. Que os outros são demais e não me ligam, logo não me merecem – nem a mim e muito menos à estúpida da minha insónia.

Não obstante, acabo por ficar com ela. Fico com a insônia ... ficamos as duas a jogar as cartas até tarde. Por vezes, até fazemos lanchinhos quando a fome aperta, pela noite dentro.
Para ali ficamos, nós duas mais uma música de fundo que toca baixinho... a tua voz atravessada pelas palavras não ditas. A música que ouço é a não tocada... o cante não acontecido, mas desejado.

Atravessada, atarantada...uma música sem melodia. Queria melodia que não veio, queria muito ... mas não havia? Nunca houve melodia na tua voz? Fui eu que sonhei? 
Merda! Não me apetece nada perceber que me enganei. Reconhecer que não existe um trinado dos passarinhos, um acorde angelical .. nessa música que anseio. Nem quero pensar que a música é afinal e tão só: vazio! Que é produto de um sintetizador eletrónico sem alma, de robot que deu a alma e já não canta... Ou que canta num outro poleiro, mas não para mim.

Resta-me o som das palavras sem melodia, resta o sofá ... que está pronto, preparado para a querida insônia se deitar e se enrolar comigo, sem jeito nem graca. Sem amor, pois! Porque nisso vocês são parecidos , a insônia e tu ... quando um sai, o outro entra e vice versa. E ambos não respondem ao meu desejo de um pouco mais ... de qualquer coisa. Esse mais que alguém já terá? Talvez sim, talvez não... pouco me importa os outros. Eu e a minha insónia é que queremos ser felizes! Longe uma da outra ... bem entendido! Pouco me importa saber para onde foi o teu cante, pouco me importa que tenhas dado a tua melodia - feita som, feita matéria - porque suspeito que ela é fraca, fraquíssima, uma coisa meio pobretanas que dá pelo nome de "cárinho".

Carinho é um bom antídoto contra a insônia, mas é pouquinho.

Quero mais!

domingo, 23 de abril de 2017

Surpreendente Vitória




Surpreendente pela sua simplicidade e pelo desconcerto da sua trivialidade…
Surpreendente foi a história vivida por aquela família angolana branca, a de mais habituada a viver num lugar de surpresas e de magias, a quem já quase nada podia surpreender.

Os Almeida eram angolanos há várias gerações, filhos e netos de colonos portugueses, mas sentiam-se verdadeiramente angolanos pois era ali o seu lugar, onde nasceram e sempre viveram. Uma parte da família havia mudado as suas vidas para Portugal depois da independência, uns logo a seguir, outros mais tarde, conforme as profissões, os estudos ou as relações familiares o ditaram. Os que ficaram em Angola passaram a guerra, criaram negócios, filhos … enfim, seguiram os seus destinos numa terra que era a sua.
Naquele mês de setembro, ao fim da tarde, uma pequena excursão à Nossa Senhora de Muxima, trazia de regresso a Luanda, quatro Almeidas – dois irmãos, o Zé e o Manel, a mulher do mais velho e o Bruno, sobrinho, filho de um outro irmão que regressara a Portugal. Os dois irmãos eram brancos, a mulher mestiça clara e Bruno, de alma e de coração pretos, mas tão louro, de olhos azuis e altíssimo, mais parecia um europeu nórdico do que ter sangue português .

O Santuário de Muxima é um lugar muito especial e antigo de culto mariano católico, assimilado de forma surpreendente pelos povos locais, provavelmente sem nada de semelhante em África. Uma igreja pequena, branca, igual a tantas outras que se podem encontrar nas aldeias portuguesas, encima um morro sobranceiro ao rio Kwanza, com uma vista aberta sobre as curvas do rio e sobre um espaço verde, imenso e livre. 
A multidão de fiéis que atrai nas festas anuais e nas peregrinações coletivas ou individuais, durante todo o ano, transcende em muito a âmbito da difusão cristã naquelas paragens. Os africanos vivem essa devoção de forma intensa, como algo de sagrado, com um sentido místico que reúne numa só crença elementos próximos da bruxaria e do oculto, das crenças tribais e da fé católica. Essa ligação ao divino, o desejo de transcendência tão própria do ser humano, em todas as culturas, é aqui vivida na devoção à Senhora do Muxima. O povo acredita nos seus poderes milagrosos, capaz de lhes trazer felicidade, proteção e cura para todos os males…


A vila existe desde o início da colonização portuguesa de Angola. No século XVI, foi aí construído um forte que servia também como presídio, no topo da colina e mais abaixo uma igreja dedicada a Nossa Senhora da Conceição, a que se juntou uma pequena povoação. 
É impressionante a multidão de devotos que atrai, em especial nas festas anuais, a procissão que segue os tradicionais costumes: andor com imagem, flores, acompanhantes e sua parafernália, em tudo igual a qualquer romaria portuguesa, com exceção da cor da pele dos fiéis.

Muxima, em quimbundo, quer dizer coração e era sempre com o coração cheio que a família voltava de mais um passeio ao Santuário.

O Land Rover dos Almeida seguia pela estrada de terra vermelha quase a direito em direção ao mar, numa paisagem plana ponteada de embondeiros. A hora era de calor, apesar de a tarde já ir a meio, mas o carro tinha a refrigeração necessária para fazer da viagem uma agradável experiência, um passeio de cento e tal quilómetros até à capital.
Não havia mais viajantes naquela estrada, a época não era a das grandes peregrinações, seguiam sozinhos na imensidão daquela paisagem maravilhosa, adivinhando que lá para o fim da viagem, com o cair do dia, seriam brindados com um pôr-de-sol magnífico sobre o horizonte.

Entretanto, nesta paz em movimento, surge algo de inesperado – uma operação stop! 
À beira da estrada uma equipa policial, um homem e uma mulher devidamente fardados, ao lado uma mesa debaixo de um mini-toldo de lona gasta, para protecção do sol, fazia de secretária ao posto de controlo improvisado.

A mulher-polícia levanta o braço, manda parar a viatura e avança. Imponente na sua forma roliça e no modo com empinava o rosto, toda ela era redonda e grande, a única coisa pequena era o “quico” da farda, um boné demasiado pequeno para a sua cara e que destoava do conjunto largo de todo seu corpo, bem africano, bem maternal. As ancas largas, as calças que franziam na cintura com o cinto apertado, o corpo que parecia explodir na sua rotundidade primitiva. Lembrava uma Vénus paleolítica, mas com braços e pernas, surpreendente pela leveza com que balançava as suas nádegas a caminho dos viajantes parados.

O condutor abre a janela à primeira ordem da senhora agente, que grita com voz forte:
- Documentos!
Certamente, pensando tratar-se de estrangeiros repetiu e reformulou a ordem:
- Passaportes!
Os quatro angolanos apresentaram rapidamente os seus passaportes de capa preta (por acaso viajam com eles, em vez dos bilhetes de identidade…).
Tamanha prontidão tirou o impacto à investida da autoridade, que exigiu mais:
- E tem visto?
- A senhora agente tem passaporte? – responde o Zé com uma pergunta.
- Claro que sim … (via-se mesmo que não, no olhar um pouco vacilante da senhora).
- Então o seu passaporte é angolano. E tem visto para circular em Angola?
- Bem, está tudo bem … disse a agente, com um ar de quem não estava muito a par das formalidades de controlo de estrangeiros.
Logo em seguida, baixando o tom de voz, já com a cara dentro da janela do jeep, disse para o condutor, de modo a que o colega polícia parado na berma não a pudesse ouvir:
- Dão-me boleia para Luanda? Sussurrou ela, boca quase fechada.
- Com certeza que sim, pode vir connosco, há lugar para mais um no banco de trás, será um prazer – sorri o Bruno de guedelha loura, debruçado da sua janela.
Vai daí, surpreendentemente, a senhora agente sobe a voz, cresce em autoridade e diz alto, de forma a ser ouvida pelo colega:
- Então vamos para Luanda! E já, e eu vou à frente.
Ninguém ripostou, o Manel saiu do banco da frente para dar lugar à autoridade. A cena podia fazer crer que era ela quem os conduzia, quiçá os levava detidos ou para serem ouvidos… talvez numa esquadra, num qualquer posto de controlo de estrangeiros com passaportes pretos dados a gente com cara de brancos, a gente que anda por aí irregular, sem visto para circular na sua própria pátria. Talvez pudesse parecer surpreendente, mas a verdade é que ela não parecia saber que os passaportes portugueses eram de capa grená e os angolanos são pretos. Nem isso era importante para o caso, como veremos.
O camarada polícia ficou em terra, convencido da determinação da colega que tinha seguido no cumprimento do dever.
Já preparados para o pior, para mais complicações burocráticas, pagamentos por fora, exigências estranhas, paragens algures no meio do caminho ou à chegada a Luanda, o Zé Almeida arranca e põe-se em marcha. Mentalmente, ia antecipando como se iria desenrascar do imaginado contratempo policial, da possível tentativa de suborno ou sabia-se lá de quê mais...

Mas mal assentou o seu triunfal traseiro no banco da frente, a senhora agente exclamou:
 - Porra! Táva a ver que nha vinha boléia. Faz dus horas no alcatrão e nada. Os    mininos em casa sem comê e a comida nhã tá feita…

Foi a gargalhada geral e o alívio dos passageiros. Perguntaram-lhe o nome.
- Vitória - respondeu pronta, de peito inchado, abanando o corpo maternal e redondo, aconchegando melhor as duas gloriosas bolas do seu glorioso rabo no banco da frente, alargando o sorriso à dimensão das ancas e completando orgulhosa a informação. O nome tinha sido ideia do pai por causa das quedas de água, que ficavam para lá do deserto da Namíbia, um lugar bem longe para o interior, onde havia coisas tão surpreendentes como um rio que terminava no meio da terra sem chegar ao mar, nem servir de alimento a outro rio. O Okavango que por magia desaparece no deserto, um grande delta sem mar, que desfaz a sua grandiosidade no nada… Também por causa de Angola, por sua vitória e sua independência, para filha não esquecer o que pai viu e viveu.

E em chegando ao destino, pediu que a deixassem no supermercado, saltou do carro, partiu apressada, havia compras a fazer e a janta para dar… abanando as ancas pesadas com a ligeireza e a pressa de qualquer mãe do mundo que tem crias para alimentar, seja no musseque, na tribo do Bengo ou em Queluz de Baixo. Uma Vitória, uma vitória surpreendente entre tantas mães vitoriosas cuja vida diária é uma surpresa e uma reinvenção permanentes.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Lençol

O Lençol


Houve um tempo de transição, como são todos os tempos em que se mudam padrões de comportamento e de valores. Um tempo de transição entre o antes e o depois, fiquemos pelo durante ... Um tempo que não faz muito – talvez 30 ou 40 anos – mas que parece longe, quase cómico pela forma como hoje olhamos a mudança.

A turma dos ginjas, sessentas para cima, reunia habitualmente à 4ª feira no café da esplanada do Jardim da Estrela, se fosse Verão, ou na primeira tasca da Calçada, a maior parte do ano. Portugal só é país de esplanadas o ano inteiro, para os turistas. Mas estes maduros já acusavam o frio, a humidade, a bronquite e demais argumentos para preferirem estar dentro de portas. Tinham sido militares, preparados para aguentar perigos e intempéries, supostamente sem sentir frio nem calor, sem ter queixas nem dores. Mas estavam cada vez mais esquecidos das regras do aguentar-firme, amolecidos pela idade ou talvez até mais pela ideia de conforto, porque realmente não eram velhos.
Todas as quartas havia histórias antigas para contar e para rir, depois de esgotada a primeira meia hora de “análise-da-conjuntura-política”. Ficava bem mostrarem-se a par da atualidade, comentarem o último telejornal, mesa redonda ou artigo de opinião. Depressa se fartavam… e vinham as histórias. Havia uma recorrente, que sempre acarretava uma banhada de riso. Não se percebia porquê. Afinal era coisa simples que se contava depressa e todos já a tinham ouvido muitas vezes. O que mantinha a “juventude” da história, o que continuava a espicaçar a imaginação, disfarçada de gozo e de galhofa, era que este regresso ao passado contado na terceira pessoa trazia para cada um deles, individualmente, recordações mais íntimas e pessoais.

O Apolinário era o personagem principal. Claro que o Apolinário não fazia parte do grupo, vivia no Norte e raramente o viam, mas era estimado como mais um de entre eles. O Apolinário tinha sido um camarada de armas dos primeiros tempos de preparação militar, todos muitos novos como eram no tempo em que os mancebos iam à guerra, dezoito, vinte anos, ainda em fase de instrução – curta e intensa porque urgia partir.
Nesses tempos de camaradagem genuína, em que tudo se partilhava, as vivências de cada um eram postas na mesma mesa em que se dividiam os tremoços e se pousavam as cervejas. Á volta, contava-se o fim-de-semana na terra, os êxitos masculinos nas betesgas da cidade, sabe-se lá se verdadeiros ou inventados, aventuras várias, pouco vividas e originais porque as suas vidas eram curtas e na maior parte dos casos pouco interessantes. Se é que existe o conceito de vida pouco interessante. Mesmo as vidas em que o traço mais saliente é a falta de aventura, a ingenuidade, a monotonia ou a parolice podem ser motivo de interesse, depende da perspetiva de quem vê.
Como em todos os grupos, havia de tudo: uns mais vividos, atrevidos e armados em progressistas; outros mais calmos e sem alardear aventuras; outros sinceramente bem-comportados, conscientes de que o seu papel salvador passava por cumprir as tradições.
Os mais conservadores eram, em regra, mais propensos a ser objeto de gozo. Os outros, mesmo que não fossem muito espevitados, mantinham uma certa reserva e inteligentemente mostravam algum modernismo, abertura de espírito e liberalismo, sobretudo em matérias sexuais, tão fortes e apetecidas naquela idade e naquela época de transição e mudança.

Ora o nosso Apolinário era verdadeira e convictamente um rapaz sério, nunca pensou que os seus relatos pudessem ser vistos como bacocos pelos seus camaradas. Um dia em que, descontraidamente, contava o seu fim-de-semana na terra, o Apolinário descaiu-se com esta:
  - Estive com a Conceição, vocês sabem a minha namorada, em casa dela, estava   de cama, deitei-me ao seu lado e estivemos ver televisão. Porreiro, o Zip-Zip! Viram o programa? Viram àquela rábula do Solnado? O que nos rimos.
De imediato, num burburinho coletivo, a malta exclamou:
  - Na cama? Com a Conceição? Ah, ganda Apolinário, isso promete! Conta, conta…
Muito calmo, ligeiramente ruborizado, mas sem perder a compostura, o Apolinário esclareceu:
  - Nada disso que possam estar a pensar, não há mais nada a contar, foi tudo com muito respeito …
  - Então mas não estavam os dois na cama? E estavam sós? – atacaram os compinchas do grupo, secretamente lambendo os beiços, pelo antecipado picante do acontecimento.
   - Sim, claro, estávamos só nós os dois – começa o Apolinário a gaguejar, agora já menos sério, até um pouco atrapalhado. Apercebia-se que se tinha metido por um caminho por onde os outros não o deixariam voltar incólume.
  - Hum…isso cheira-me a muito avanço, ó Apolinário! A coisa aqueceu e tu não queres é contar. Como foi estar com ela? Os dois na cama…hem? – martelava outro mais atrevido.

Sem mais demora, o Apolinário recuperando da ligeira perturbação, apressa-se a defender o seu discurso. Havia que desfazer mal-entendidos, não era nada disso que ele queria dizer, havia que proteger a virgindade sagrada daquela malvadez masculina. Estes camaradas pareciam ter mentes conspurcadas pela bazófia macha. Ele estava feliz e orgulhoso por ter visto a Conceição, ao fim de 15 dias sem ir à terra, feliz por partilhar com eles uma noite inocente e bem passada e a coisa fugiu-lhe de controlo…estava a ser mal interpretado. Estavam a tentar reorientar-lhe a conversa, dando-lhe um rumo que não era verdadeiro, uma vivência que não era a sua. E vai daí, esclarece:
  - Pois…estávamos na cama, mas havia um lençol a separar-nos!

A risota foi ainda maior: Um lençol! – gritam em uníssono os camaradas.

Afinal havia um lençol, nada mais prosaico, marcadamente pouco erótico, complicativo e desnecessário naquele enredo …
Quando a coisa estava a aquecer, vem o Apolinário e mete um lençol … no discurso e no meio dos dois. Um lençol!

Até hoje não se sabe bem qual a disposição do lençol naquela cama, nem como os atores se posicionavam face ao mesmo. O certo é que o lençol veio suspender a corrente daquela história que se avizinhava prometedora, veio coartar a imaginação dos presentes e afirmar a pureza dos intervenientes camais.
A realidade é que um lençol faz toda a diferença, sobretudo se funcionar como fronteira intransponível. No entanto, nada mais frágil que um lençol como fronteira pelo decoro. Um lençol pode ser amachucado, enrolado, despedido dali, pode até voar … ou os dois voarem para debaixo dele. Tanto que pode acontecer a um lençol! Tão pouco aconteceu com o lençol da Conceição, firmemente aconchegado pelo Apolinário, sem se aconchegar a ela.
Supõe-se que ela estaria dentro e ele fora … do lençol. Pouco importa! O que os camaradas retiveram e guardaram toda a vida nas suas memórias, a ponto de o contarem e recontarem inúmeras vezes, foi que havia um lençol. Um lençol que protegia o acesso do Apolinário a prazeres maiores, um lençol que não protegia nada na sua fragilidade real mas que projetara na cabeça do Apolinário um muro de defesa dos seus valores, que era quanto bastava para que nada acontecesse de inapropriado.

Ora, foi esta noção de inapropriado que mais ficou a martelar no pensamento dos outros. Muitos já tinham ultrapassado a barreira do inapropriado, outros ainda não, alguns nunca o fariam. Poucos, contudo, teriam tido a coragem de assumir publicamente quão importante é um lençol na pureza dos princípios e nas relações com as suas namoradas, da maneira inocente e direta como fez o Apolinário.

Houve um tempo de transição, como em todos os tempos. Houve um tempo, há muito tempo, em que uns passavam a barreira do lençol e outros não: aqueles que se mantiveram valorosamente firmes nos seus princípios e acreditaram num lençol como eficaz protetor da castidade.

Há um tempo presente, em que o lençol é motivo de chacota para os mais velhos e de incompreensão para os mais novos, estes que hoje só conhecem a vida sem lençol … com outros comportamentos e valores, mas sem lençol.

terça-feira, 29 de março de 2016

Felicidade


Uma vida feliz é apenas uma corrente … uma sucessão de momentos felizes ou de episódios maioritariamente felizes, em que os menos agradáveis se diluem no que os outros têm de bom.

Uma vida construída com sabedoria é preenchida pelos bons momentos, aqueles que nos enchem a alma e nos ocupam os dias.
O problema das pessoas infelizes é que procuram a felicidade como se esta fosse um bem absoluto, um produto à venda no mercado, um objeto que se traz para casa e ali fica para sempre à nossa disposição.

Quem se preocupa em procurar uma vida feliz, esquece-se de viver os momentos felizes.
E se desperdiçamos as alegrias e os afetos que cada dia nos pode dar, se não vivemos os momentos felizes … a vida feliz passa-nos ao lado.

A felicidade não existe … o que existe são momentos felizes, para aqueles que os conseguem reconhecer na altura certa e os vivem com a intensidade que merecem.
Sabedoria é aprender a gozar o momento presente e, também, saber viver o prazer da espera. Ou seja, antecipar com alegria os encontros ou episódios que agendámos como potencialmente gratificantes, viver o antes o durante e o depois … para que os momentos felizes estiquem e se transformem, o mais possível, na tal corrente de felicidade.

Pessoalmente, ainda me falta muito para aprender tudo isto. Tenho de me esforçar mais por olhar para o dia de hoje e para usufruir da felicidade do momento, tirando partido das coisas simples e boas: uma mensagem a quem se quer bem, um telefonema mais longo com alguém com quem se partilham intimidades, um chazinho com um amigo(a), um bom livro, um momento de meditação a sós junto ao mar, sonhar com tudo aquilo que julgamos impossível etc… fazendo por esquecer que a felicidade maior pode não nos estar destinada.

E o que fazer com os momentos infelizes que sempre surgem? E o que fazer quando a nossa possível “felicidade” colide com a dos outros? A resposta é uma ginástica difícil para quem sempre se habituou a resistir e a pouco exigir da vida para si mesma.

Ainda estou a aprender a ter calma, a viver sem pressa, a ficar em meditação e em expetativa, a pensar também em mim…e não apenas no impacto das minhas atitudes nos outros.

terça-feira, 22 de março de 2016

Sonhos

Sonhei que me ofereciam flores, sonhei que um príncipe lindo e de sorriso maroto gostava de mim e me trazia rosas à 2ª feira ...
Que me fazia levitar e adormecer suave e cor-de-rosa numa nuvem embalada pela brisa. Só num sonho se flutua assim na irrealidade doce da vida imaginada.




Mas como em todos os sonhos, acorda-se ... e percebe-se que o idilio acabou. Fica a memória das rosas e dos abraços, dos sorrisos e das palavras, dos sentimentos surreais que enchem o coração de tudo ... de tudo mesmo, porque mais não podia lá caber. Porque estava lá tudo. Cheio de tanto, tanto, que só podia rebentar. 
Sonhar é bom, mas acordar com boas memórias também. Porque é disso que é feita a vida, de momentos felizes, daqueles que já vivemos, mas sobretudo daqueles que ainda podemos viver se soubermos chamar por eles, se formos capazes de sair de dentro de nós para os procurar no meio das flores e junto os corações bons, dos amigos que ficam para a vida.

segunda-feira, 21 de março de 2016

A gente só leva da vida...a vida que leva

"A gente só leva da vida...a vida que leva", tão verdade que até parece de La Palice, mas não é - é uma frase de uma canção do Tom Jobim.



Mas é mesmo assim, a vida que temos, a que recordamos e a que um dia (um dia muito mais tarde, claro) levaremos não sei para onde... é apenas e tão só a vida que vivemos.
A única que é ou foi a nossa, de mais ninguém e que por isso é exclusiva e irrepetível. 
Será a vida que construímos laboriosamente ou que não construímos ... se somos do género de deixar acontecer e nos limitámos a ir vivendo ...

Seja como for, só temos o que vivemos e por isso toda a responsabilidade do que amealhámos, em termos de capital vida, é só nossa. 
Temos a obrigação de viver bem: intensamente se formos apaixonados pela vida e pelo mundo que nos rodeia, calmamente se for esse o nosso ritmo, alegremente se almejarmos a felicidade...à nossa maneira, mas de um só modo - o nosso.
Viver em parceria, caminhar acompanhado é bom, se a companhia for vida em nós! 

O mais importante é caminhar com alegria, usufruir dos momentos mágicos que nos surpreendem pelo caminho, saborear as migalhas de amor que nos caibam em sorte ou as paixões aterradoras que nos ofuscam e por vezes torturam, viver com os fracassos e com as tristezas, esperando que amanhã passem, fazer das desilusões, forças para continuar ...
Importante é seguir em frente. Importante é não desperdiçar nada daquilo que recebemos em cada dia para viver, aproveitar as pequenas e as grandes alegrias, amar quem temos e quem não temos mas gostaríamos de ter, não regatear nem desejar o que nos parece inalcançável, ser feliz com pouco ...mas bom

Porque é essa a vida que levamos, porque para isso é preciso continuar a deslumbrarmos-nos com os mistérios, a olhar para o céu, num dia de sol ou numa noite estrelada, com estrelas verdadeiras ou de artifício.

Vem tudo isto a propósito da Primavera que começa, da sua luz mágica que nos enche de alegria. Que o dia de hoje seja de sol e bem vivido ... para que o leve em memória da vida que levo...

sexta-feira, 18 de março de 2016

Em defesa dos homens




Ninguém pensa que o grupo dos poderosos precisa de ser defendido, muito menos defendido do seu semelhante do sexo oposto. Mas eu acho que sim. Os homens são o sexo oprimido, em especial os homens casados…há muito tempo. Podem não ser todos, mas será uma grande maioria de casados tradicionais e antigos. Em primeiro lugar, são oprimidos e dominados pelas mulheres, mas são-no também por si próprios, porque se submetem a mais do que seria razoável, em nome da paz e do conforto.

A liberdade tem um preço – normalmente muito elevado – e eles preferem fingir que não sabem. Confundem liberdade com umas horas de copos e de bola, umas tertúlias com os amigos. Vivem esses momentos de liberdadezinha transitória para esconder as verdadeiras falhas, que nem a si próprios confessam. Até que um dia, se apercebem que estão presos (às suas mulheres) por um conjunto de responsabilidades e compromissos e não por um verdadeiro elo afetivo. Há quem tenha a coragem de partir, quando realiza que o afeto acabou e que importa encontrar outro lugar mais feliz. São os que estão dispostos a trocar conforto por liberdade, os que preferem ficar sós do que mal acompanhados, os que têm um coração aberto a novos afetos e não se sentem cativos das rotinas doméstico/conjugais, cheias de vazio amoroso ou afetivo. Uns heróis, portanto!

Mas a grande maioria permanece no lar …

E é essa maioria (aparentemente silenciosa) que me intriga. Porque aguentam uma relação que não os satisfaz? Porque admitem sustentar “princesas” que não cumprem as suas obrigações conjugais mínimas e os exploram financeiramente? São homens de meia-idade, mas ainda em muito bom estado, saudáveis, com recursos financeiros que lhes permitem independência, homens bons e que merecem ser felizes … Vivem uma angústia, não assumida, de estar ao lado de uma mulher que não os satisfaz, nem na cama nem no mimo a que todo o ser humano tem direito. Sentem-se responsáveis por lhe prestar vassalagem, ou seja, dar conta de todos os seus atos (exceto aquela parcela mais obscura que não podem contar, claro!), pagar todas as suas contas, aceitar todos os caprichos e …passar muita fominha.

Porquê? Porque razão o sexo poderoso aguenta esta sujeição? Prefere fingir que é normal ter uma mulher egoísta e exploradora, uma mulher que se acha no direito de fechar as pernas mas abrir-lhe a carteira. Em nome de um passado (em princípio) amoroso, em nome de eventuais filhos que ela “lhe deu” (como se estes não fossem uma produção conjunta)? Por causa da simpática trilogia “cama-mesa-roupa lavada”? Com medo da velhice, da doença e da solidão?

Certamente tudo isto pesa quando algum homem “mal tratado” em casa, ousa refletir sobre o assunto, quando se questiona sobre a sua vida sexual tão desprezada e sobre a falta de um mínimo de afeto.

Mas eles – o sexo oprimido – não pensam. Ou seja, pensam pouco com a cabeça de cima… porque com a debaixo ainda vá lá, tentam “pensar”…quando elas deixam!

Todavia, estou em crer que as demais das vezes eles nem se questionam, nem ousam refletir sobre se a sua vidinha chata de mal-amada é normal. Acham que é normal e que não é por egoísmo, que elas fecham a loja demasiado cedo, com desculpas várias: menopausa, cansaço, depressão, dores disto e daquilo…
Eles pensam que é verdade, nunca ninguém lhes disse que o que as suas princesas têm é preguiça e egoísmo… Uma mulher madura normal, generosa e apaixonada (ou afetuosamente dedicada ao seu parceiro) não tem esses sintomas de “esgotamento sexual”. A idade madura é ótima para uma mulher feliz e com um parceiro que lhe dê animo. O que as princesas geladas têm é falta de pachorra para os seus homens. Até estão no seu direito em querer sair de cena por fastio. O que não têm direito é a mantê-los presos sem dar nada em troca, esperando que eles sejam uns servidores fiéis e dedicados, enquanto vivos, e lhes deixem a pensão de reforma, um dia mais tarde.

As mulheres são mais materialistas do que os homens – talvez por instinto de sobrevivência e de assegurar a subsistência dos seus – e como tal dão prioridade à preservação do património familiar, ao estatuto social de mulher casada que lhes assegura um lugar de poder na Sociedade, ao direito ao dinheiro do marido e à correspondente herança. Hoje mais do que nunca a pensão de viuvez é um bem material não desprezível, vale mais do que ter quintas…que não se transformam facilmente em dinheiro ou ter joias que, na prática, acabam por não ser vendidas quando falta o dinheiro. A expetativa de deixar a mulher apoiada com a sua pensão (contam morrer antes, claro) é uma das razões porque certos homens não têm coragem para dizer NÂO às suas mulheres tiranas. Sabem que sair de casa, bater com a porta de uma forma legal (separação ou divórcio) tem como consequência uma perda material para elas. E têm pena delas, sentem-se responsáveis por assegurar o seu bem-estar material, em nome de um passado mais ou menos feliz. Muitos têm também medo, medo delas, medo daquilo que os outros vão dizer do seu desprendimento familiar, da sua falta de sentido de responsabilidade.

Por isso, aguentam muito, por generosidade e compreensão para com as suas princesas e por respeito para com o que a sociedade impõe como norma. E vão dando o desconto, que elas coitadas estão velhas, que nunca gostaram muito de sexo mesmo em novas, que se calhar a culpa foi deles que não as ensinaram (LOL). Engraçado como até nisto eles se julgam bons. Acham que são eles os únicos fatores do prazer feminino, os únicos instrutores credenciados. Se algo falhou no domínio camal, a culpa é deles porque elas coitadas, apenas nasceram com falta de jeito…

E depois pensam que elas são todas assim e que os homens também são todos assim, acomodados como eles …Ou seja, todas as mulheres maduras como um estereótipo: esposas tradicionais, instaladas no seu conforto e privilégios, iguais às mulheres dos amigos, incompetentes e/ou desinteressadas do sexo. Há que aguentar, portanto. Não imaginam que possam existir mulheres generosas, com gosto em dar e receber afeto físico e psicológico, mulheres compinchas, mulheres empenhadas em dar prazer, alegres, não cansadas, sem dores e achaques vários.

Quando procuram fora – porque a fominha é muita e a falta de generosidade `da esposa dói – fazem-no, normalmente, em busca de umas horas de prazer físico. Quando podem, não usam “ir às meninas”, procuram alguém mais igual, mais normal - a colega ou a vizinha. Procuram uma mulher que resolva a falta de cama e de carinho, mas também que os faça sentir sedutores e, consequentemente, lhes melhore a auto-estima.

Em geral, estas voltinhas por fora serão suficientes para alegrar os dias cinzentos do lar. Compensam o ter de aturar as princesas geladas. Só que algumas princesas são verdadeiras madrastas da Branca de Neve, não lhes chega serem pouco generosas e vagamente desinteressadas, muitas são também dominadoras, mesquinhas e umas verdadeiras bruxas. Algumas são capazes de controlar e fazer coação psicológicas ao melhor estilo de uma polícia de Estado autoritário. Os métodos variam, mas são bem tenebrosos, sobretudo se, à maldade, as bruxas juntarem inteligência. E elas existem…as bruxas, como bem sabemos!


Os homens precisam mesmo de ser defendidos, em especial essa grande maioria de homens mal tratados e oprimidos pelas esposas incompetentes.