terça-feira, 25 de junho de 2019
O chão e a umbrela
Um chão e uma umbrela, o segredo do equilíbrio! Do que precisamos para ir seguindo o caminho da vida, com a sensação mesmo que utópica de segurança ...
A nossa passagem pelo mundo, tão fugaz e insegura, assemelha-se a um bailado de corpo nú, a um esvoaçar saltitante, um pé aqui e outro ali, meio pairante, sem raízes ou solidez terrena, quase um andar sem poisar...
E no entanto, queremos poisar, sim!
Procuramos ter sempre um chão. Ás vezes ele muda de sítio, mas a busca prossegue, há que ir andando pisando seriamente o solo, tentando não voar demais, porque a queda é certa. Somos humanos, terrenos e mortais... há que estar e parar, de pés bem assentes na vida, evitando corridas ao pé coxinho...
Por isso fazemos casas e famílias, criamos lares e relações , juntamos tribos de várias cores e finalidades - da bola à religião, da política à diversão ...
Sempre na ânsia de ter algo que agarrar. Para afastar a solidão procuramos um chão, um afago, uma mão ...
Precisamos de um chão que nos suporte o caminho e de um tecto que nos proteja. Asterix temia que o céu lhe caísse em cima...
Megalomano exemplo daquilo que todos tememos... que o desconhecido nos caia em cima e nos deixe vulneráveis, à chuva e ao vento do destino.
Há que cobrir as cabeças das intempéries, encontrar abrigo, procurar proteção, encosto e afeto.
É quando uma umbrela que protega da chuva nos faz falta, trazendo o doce invólucro da amizade. Que melhor coisa para nos proteger das tempestades da vida... senão uma umbrela de carinho e afeto, real e puro? Que melhor coisa saber que esta umbrela nada pede e tudo dá, desinteressadamente, só porque vale a pena encher de sol os dias de chuva e dar ainda um sorriso, apetecido prêmio. Só porque sim, só porque o tempo é curto e é bom viver.
Sei que pode chover, mas não estarei perdida, solitária ou desamada, enquanto houver um sorriso e um chapéu à minha espera.
Uma umbrela que é um tecto e é um chão, o equilíbrio instável de uma trapezista de alma inquieta.
terça-feira, 2 de abril de 2019
Um artista...
Um artista não é uma pessoa como as outras!
“O
sentimento, o cálido e cordial sentimento é sempre banal e sem utilidade;
artísticos são somente nossas irritações e os frios êxtases de nosso corrompido
e artificioso sistema nervoso.
É
preciso que se seja algo fora da humanidade ou desumano, que se esteja para a
humanidade numa relação estranhamente distante e indiferente, para ser-se capaz
de interpretar ou mesmo sentir-se tentado a isso, interpretar para apresentar
de modo efetivo e com gosto. O dom para o estilo, forma e expressão já
pressupõe esta fria e descontente relação para com a humanidade.”
Tonio
Koger, Thomas Mann
sexta-feira, 29 de março de 2019
Radical

“O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício”
Stendhal
E assim, de repente, é preciso escrever.
Porque sim. Porque as palavras não cabem cá dentro e armazenadas em demasia, explodem!
Existem muitas palavras, bem sei. Conheço-as, de andarem por aí, desarrumadas e à procura quem lhes dê alguma ordem. Palavras que - apesar de serem construídas com poucas letras (só há 23.. mas rendem imenso... ), nem sempre se conseguem juntar, a modos que façam sentido.
É mais fácil juntar letras que façam palavras de jeito, do que juntar palavras que resultem em frases com nexo.
E mais dificil ainda, é pegar numa frase de correta construção e conseguir que o significado que transporta seja a do sentimento que lhes queremos dar.
Resumindo, o que importa (mas é coisa de deuses ou de poetas) é construir emoções fora de nós, usando as letras, as palavras e as frases para lhes dar corpo.
O pior é quando elas - as frases carregadoras de sentimentos - saltam de dentro de nós mesmos, sem querermos. Têm vida própria e vão por aí à solta... para o papel ou para a net.
E depois não há nada a fazer. É deixá-las ir...
A irrequietude das palavras é uma coisa esquisita, incontrolável, maluca...
Grave é quando, nesse desatino de se construírem a si mesmas e sairem por aí numa senda de liberdade disparatada, as palavras dão a entender coisas que não é suposto.
A interpretação fica a cargo de quem as colheu, algures perdidas e transtornadas, sem saberem do que falam...
Sibilinas as frases das profetisas, insondáveis os poetas dificeis e as almas atribuladas...
Tanto para dizer que fica entupido no canal que liga a alma à rua.
Se é preciso ir ao precipicio colher a flor do amor... então o mais certo é não ir!
Mas às vezes, a vontade de ser heroína da minha propria história, de arriscar o mergulho no abismo, é forte.
Ás vezes, não sempre... às vezes e em tempos que já lá vão . A idade afasta-nos dos desportos radicais, dos abismos e das coisas complexas... Felizmente!
E também nos tiram a capacidade de traduzir sentimentos em frases com nexo. Tem dias, claro!
Por isso na falta de inspiração literária, nos dias em que as emoções estão à borda de saltar, recorremos à verve alheia, usamos as palavras dos outros, roubamos algo parecido com aquilo que queremos dizer e não sabemos como: as citações!
Útil muleta para quem anda perdido, mergulhado nas suas palavras caóticas, nos seus pensamentos à deriva e que, por isso, precisa de ajuda.
Ajuda da literatura e da poesia. Ajuda da clarividência de quem, a seu tempo, já soube orientar o caudal dessa corrente desordenada de sentimentos que teima em não dar em discurso, mas que precisa urgentemente de sair... para apanhar sol.
terça-feira, 26 de março de 2019
Viajar é fugir?!
"Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais.
Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipoca, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinha, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais"
(Autor desconhecido)
Quero também partir de novo, para algo novo, que me espera ali talvez num qualquer fim de semana de viagem para um sítio que não sei onde fica, mas para onde vou ... pela simples razão de que tenho de partir!
Viajar é isto: uma compulsão interior para partir ... ir em busca de si, num local diferente, nem que seja pela música de embalar que soa no compasso ritmado de um comboio, rolando nos carris sobre os campo, apagando flores silvestres e decepando árvores na rapidez do nosso olhar e do seu passar. Rápido, correndo em frente ... fugindo e levando connosco a fuga em busca da alegria.
Porque é Primavera !
quinta-feira, 14 de março de 2019
Pandora
Fecha depressa essa caixa, Pandora.
Fecha bem, não deixes fugir o que de melhor nos foi dado.
Dela podem ter voado tristezas e tormentas, que nos atormentarão na velhice e na doença. Pode até o mundo acabar, mas fiquemos nós, Pandora.
Fiquemos, regressemos ao fundo da caixa, onde reside a esperança e, talvez ao seu lado, o amor. Porque um é o par da outra, esse é fição a que só a esperança dá corpo.
Funda e secreta embalagem da esperança, talvez a caixa pareça escura e vazia...
Só nós sabemos que, lá dentro, bem secreto, algo não acabou. Que no seu fundo sombrio, se acolhe um pirilampo de luz. Preserva-o Pandora.
É a luz que nos irá guiar até ao fim, mesmo que esse fim seja algo que um humano não entende, nunca entenderá...
Venham filósofos e poetas, venham escritores ou analfetos pensadores, venham todos aqueles que pertencem ao humano pensar, ou seja, todos nós. Venham com a sua ignorância e percebam que no fundo, no fundo mesmo está o que realmente importa - a luz da alegria percecionada, - a esperança.
Dia cinzento é quando está escuro por dentro! Dentro de nós haverá sol, enquanto a esperança for claridade e farol.
O prazer da espera é afinal a garantia de uma caixa bem selada, a reserva de luz que jaz ali, guardada à nossa espera.
E podemos esperar e esperar... indefinidamente esperar... por um comboio ou por um afago, por uma palavra ou por uma presença, pela amizade e por um copo de vinho... E ser felizes, assim...
Não nos cortem a esperança, não abras a caixa, Pandora. Guarda bem o que lá houver. É para mim, eu sei.
quarta-feira, 6 de março de 2019
Espelho
Espelho
O Outro que sou eu mesma!
Era assim que Lília pensava, nos dias de maior lucidez, quando se olhava no espelho real de sua casa. Sim, porque havia o também o outro - o espelho virtual da sua vida.
Sentada na borda da banheira,
vendo o rosto refletido na superfície à sua frente, brilhante de luz e numa
confusão de imagens sobrepostas, ela via-se e entendia-se.
Miscelânea de tons e de brilhos, o espelho era o reflexo de um espaço claro e vibrante de azulejos e metais, com a sua pessoa toda inteira lá dentro. Era ela, ali exposta a nú, mesmo que estivesse vestida. Ou seria outra que ali estava, alguém por quem a curiosidade estimulava a descoberta?
Miscelânea de tons e de brilhos, o espelho era o reflexo de um espaço claro e vibrante de azulejos e metais, com a sua pessoa toda inteira lá dentro. Era ela, ali exposta a nú, mesmo que estivesse vestida. Ou seria outra que ali estava, alguém por quem a curiosidade estimulava a descoberta?
Lília, frágil lírio à deriva
dentro de si mesma, buscava no outro o reflexo do seu amor-próprio.
Precisava de se ver ao espelho da comunidade em que vivia, da família, dos amigos, do “outro”… Só o outro era espelho suficiente para lhe realçar a beleza, para a fazer ser gente.
Ela sózinha não era ninguém.
Precisava de aceitação, de reconhecimento, de ser amada, apreciada - fermento de valor para si mesma.
Toda a sua vida tinha sido uma peça de teatro, encenada com labor, com um guião roubado algures, criação de outrém, cópia fantasista da realidade. Ou antes, várias peças, porque a vida dera muitas voltas, muitos cenários, diferentes atores, países e regiões... Em todas, ela fizera por ser a atriz principal. Recolhia os aplausos, sonhava-se adorada, sempre linda (apesar de não o ser), sempre nobre, alta, magra, elegante, altaneira, amada, voluntariosa, aventureira, corajosa...
Sobretudo, era isso que ela via no espelho - uma mulher corajosa que gostava de experimentar o amor, as emoções, o prazer de ser ela e de se ver nesse espelho que lhe confirmava isso mesmo, não fosse haver dúvidas...
As inseguranças tapava-as com maquilhagem, as rugas eram certamente fruto do embaciamento do vidro, do vapor de água no espelho, porque ela se via glamourosa, plumas e farfalho de diva... deslisando sorridente no palco, ouvindo um clamor de ohs e de ahs... por ser uma mulher amada, sonhada e estrelada! Estrelada vinha de estrela, de cinema ou do céu, pouco importa... importa mesmo é que lhe vejam o brilho e lhe afaguem o ego. E lhe afaguem o corpo, também - longo e seco, envolto na nuvem da fantasia... um pobre corpo carente de mimo... logo ela que tanto mimo tinha para dar. Sem crianças, sobravam os animais...
Retirava prazer de tudo o que construía e que servia para lhe dizer, baixinho, que estava viva e era boa. O prazer vinha do mundo, do exterior... tanto podia ser uma música, como um prato gourmet... como um beijo... como um acontecimento social, onde ela era bela e admirada...
O prazer vinha da partilha, da sua vida exposta à "cobiça" alheia, ao deslumbre das amigas, das gentes várias que circulavam por aí.
Ah (redondo!)... amigas de boca aberta de inveja... Oh (mais redondo, ainda!) que espanto esta Lília! Que máximo, sortuda, inteligente... capaz de desencatar um princípe perfeito, só pode...
Magríssima, para inveja das balzaquianas celulíticas. Prendadissima, com esmerado dote culinário, para espanto das estafadas mães de famílias; essas que já não têm jeito nem carinho no preparo de mais uma refeição pr'á prole ou pr'ós amados...
Era mesmo preciso deslumbrar...
Aquilo que mais lhe aquecia a alma não era um beijo, bem gostado, era o facto de esse beijo ser seu mas também ser dos outros... daqueles que assistiam, mais de longe, ao seu recato amoroso... muito pouco recatado...
Aquilo que mais lhe aquecia as entranhas era... nada!
Só a alma ardia, quando o corpo se abria generosamente ao conforto do macho, à sonhada segurança viril que o príncipe semeava bem fundo dentro de si.
Sem espelho! Essa sim, era real, semente sentida, tremente e quente!
Não interessa se a terra tremeu ou se o seu corpo em transe se elevou do chão, porque o seu chão, mesmo frio, está ali aconchegado entre as pernas quentes e seguras de quem se quer bem, na ausência do desejo. De quem se quer, sem o ardor da carne, apenas com a volúpia da espitualidade que enche o coração, na fantasia do espelho que carrega um futuro.
Havia uma dislexia constante entre o íntimo e o partilhado, entre o público e o privado. Como se aquele fosse condição necessária para que o outro existisse.
Sinal de fragilidade? De insegurança? De uma estima própria que alardeava muitas vezes, para que nela pudessem acreditar ... com muita força!
Porque força era o que mais precisava... parecia que era exímia a criar força onde ela não existia.
A força cria-se do nada... dizia.
A força vem de dentro... a força vem dos amigos, coisa que ela alimentava, plantava com o desvelo de quem cria rosas.
Admiração era o que mais precisava e amor para mostrar, amor para se sentir segura...
O amor não era bem uma coisa que servisse para consumir, era mais para guardar, para pendurar num sítio visível, para mostrar.
Ai, se os lençóis lavados tivessem cheiro! Se cheirassem a amor, se limpos, suaves e transparentes, fizessem transparecer a intimidade vivida, fossem prova de afeto, fossem sinal de segurança e de admiração...
Se fossem, se fossem, se provassem... se todos vissem... aí seria verdade, escrita sem espelho!
Se os lençóis se pendurassem numa corda do facebook e todos vissem que a clareza alva do algodão era a intimidade acontecida e sonhada. Tão brancos que não se escreve nada que se leia... tão neutramente brancos que nem marca, nem cheiro, nem futuro guardam.
E se nos gestos se perscutam intimidades, é também pelo significado do gesto que se desmonta o seu contrário.
Tudo o que se desmancha, também mancha.... tudo o que se destroi, se constroi. Resta a esperança, resta que o espelho nos diga a verdade e a mentira que se esconde nos gestos que podem ser ou não ser...
Lília sabia que o mais importante não era aquilo que teimosamente insistia em pendurar na corda da roupa, sabia que acima de tudo está a intimidade. Que intimidade é segredo só a dois desvendada... E Lília sabia que essa lhe fugia... talvez...

Precisava de se ver ao espelho da comunidade em que vivia, da família, dos amigos, do “outro”… Só o outro era espelho suficiente para lhe realçar a beleza, para a fazer ser gente.
Ela sózinha não era ninguém.
Precisava de aceitação, de reconhecimento, de ser amada, apreciada - fermento de valor para si mesma.
Toda a sua vida tinha sido uma peça de teatro, encenada com labor, com um guião roubado algures, criação de outrém, cópia fantasista da realidade. Ou antes, várias peças, porque a vida dera muitas voltas, muitos cenários, diferentes atores, países e regiões... Em todas, ela fizera por ser a atriz principal. Recolhia os aplausos, sonhava-se adorada, sempre linda (apesar de não o ser), sempre nobre, alta, magra, elegante, altaneira, amada, voluntariosa, aventureira, corajosa...
Sobretudo, era isso que ela via no espelho - uma mulher corajosa que gostava de experimentar o amor, as emoções, o prazer de ser ela e de se ver nesse espelho que lhe confirmava isso mesmo, não fosse haver dúvidas...
As inseguranças tapava-as com maquilhagem, as rugas eram certamente fruto do embaciamento do vidro, do vapor de água no espelho, porque ela se via glamourosa, plumas e farfalho de diva... deslisando sorridente no palco, ouvindo um clamor de ohs e de ahs... por ser uma mulher amada, sonhada e estrelada! Estrelada vinha de estrela, de cinema ou do céu, pouco importa... importa mesmo é que lhe vejam o brilho e lhe afaguem o ego. E lhe afaguem o corpo, também - longo e seco, envolto na nuvem da fantasia... um pobre corpo carente de mimo... logo ela que tanto mimo tinha para dar. Sem crianças, sobravam os animais...
Retirava prazer de tudo o que construía e que servia para lhe dizer, baixinho, que estava viva e era boa. O prazer vinha do mundo, do exterior... tanto podia ser uma música, como um prato gourmet... como um beijo... como um acontecimento social, onde ela era bela e admirada...
O prazer vinha da partilha, da sua vida exposta à "cobiça" alheia, ao deslumbre das amigas, das gentes várias que circulavam por aí.
Ah (redondo!)... amigas de boca aberta de inveja... Oh (mais redondo, ainda!) que espanto esta Lília! Que máximo, sortuda, inteligente... capaz de desencatar um princípe perfeito, só pode...
Magríssima, para inveja das balzaquianas celulíticas. Prendadissima, com esmerado dote culinário, para espanto das estafadas mães de famílias; essas que já não têm jeito nem carinho no preparo de mais uma refeição pr'á prole ou pr'ós amados...
Era mesmo preciso deslumbrar...
Aquilo que mais lhe aquecia a alma não era um beijo, bem gostado, era o facto de esse beijo ser seu mas também ser dos outros... daqueles que assistiam, mais de longe, ao seu recato amoroso... muito pouco recatado...
Aquilo que mais lhe aquecia as entranhas era... nada!
Só a alma ardia, quando o corpo se abria generosamente ao conforto do macho, à sonhada segurança viril que o príncipe semeava bem fundo dentro de si.
Sem espelho! Essa sim, era real, semente sentida, tremente e quente!
Não interessa se a terra tremeu ou se o seu corpo em transe se elevou do chão, porque o seu chão, mesmo frio, está ali aconchegado entre as pernas quentes e seguras de quem se quer bem, na ausência do desejo. De quem se quer, sem o ardor da carne, apenas com a volúpia da espitualidade que enche o coração, na fantasia do espelho que carrega um futuro.
Havia uma dislexia constante entre o íntimo e o partilhado, entre o público e o privado. Como se aquele fosse condição necessária para que o outro existisse.
Sinal de fragilidade? De insegurança? De uma estima própria que alardeava muitas vezes, para que nela pudessem acreditar ... com muita força!
Porque força era o que mais precisava... parecia que era exímia a criar força onde ela não existia.
A força cria-se do nada... dizia.
A força vem de dentro... a força vem dos amigos, coisa que ela alimentava, plantava com o desvelo de quem cria rosas.
Admiração era o que mais precisava e amor para mostrar, amor para se sentir segura...
O amor não era bem uma coisa que servisse para consumir, era mais para guardar, para pendurar num sítio visível, para mostrar.
Ai, se os lençóis lavados tivessem cheiro! Se cheirassem a amor, se limpos, suaves e transparentes, fizessem transparecer a intimidade vivida, fossem prova de afeto, fossem sinal de segurança e de admiração...
Se fossem, se fossem, se provassem... se todos vissem... aí seria verdade, escrita sem espelho!
Se os lençóis se pendurassem numa corda do facebook e todos vissem que a clareza alva do algodão era a intimidade acontecida e sonhada. Tão brancos que não se escreve nada que se leia... tão neutramente brancos que nem marca, nem cheiro, nem futuro guardam.
E se nos gestos se perscutam intimidades, é também pelo significado do gesto que se desmonta o seu contrário.
Tudo o que se desmancha, também mancha.... tudo o que se destroi, se constroi. Resta a esperança, resta que o espelho nos diga a verdade e a mentira que se esconde nos gestos que podem ser ou não ser...
Lília sabia que o mais importante não era aquilo que teimosamente insistia em pendurar na corda da roupa, sabia que acima de tudo está a intimidade. Que intimidade é segredo só a dois desvendada... E Lília sabia que essa lhe fugia... talvez...

“Dormir
com alguém é a intimidade maior. Não é fazer amor. Dormir, isso é que é íntimo.
Um homem dorme nos braços de uma mulher e a sua alma se transfere de vez. Nunca
mais ele encontra as suas interioridades”
Mia
Couto
“Nunca, mas nunca mesmo, me senti tão amado (…) Sentir arrumar-me a roupa de dormir, para ficar aconchegado, sentir toda a
noite os teus braços à minha volta …”
(desconhecido)
segunda-feira, 21 de janeiro de 2019
Tudo Tem um Fim ... Até a Esperança
Rosa tem 80 anos, feitos hoje! Um rosto claro e um olhar luminoso, intenso, transmite-me alento para continuar a viver, para um dia poder ser como ela - uma velhinha alegre e inquieta, pronta a ajudar - a mim, por exemplo, a vizinha tonta com metade da sua idade que, neste momento, resvala para um princípio de depressão, a que chamo a "quarentena" da quarentona.
O entrar nos "entas", solteira e perdida na selva desta cidade de afectos avulsos, coloridos, cinzentos, de todas as cores boas e más do arco-iris, fizeram de mim uma nervosa irritante, em suspense do mundo dos amores difíceis, onde frequentemente me perco.
Tenho em Rosa, vizinha, amiga e confidente, o meu pilar de sossego, o apoio, a paz de que preciso, porque Rosa é a sabedoria feita amor, feita ternura pelos outros, da qual eu sou uma destinatária privilegiada.
Rosa conhece os homens como ninguém e, desentendendo as mulheres, ajuda-as a orientar-se nesse mundo de machos desalentados e desorientados. Ainda mais tontos e perdidos do que elas...
Rosa fez oitenta, entrou oficialmente na idade da sabedoria absoluta. Ofereci-lhe uma caixa bonitinha para guardar recordações. Disse-me:
- Por enquanto, a memória ainda vai guardando o que realmente importa, mas há as cartas, essas convém ter inteiras, porque não basta reter na memória as emoções que nos trouxeram, as palavras são importantes. Os sentimentos são sobretudo palavras, emoções são letras e canções... das que se escreveram e das que foram escritas e não enviadas. Tudo são palavras, pedras que comprovam a existência do edífício, da matéria, porque recordações etéreas se desvanecem sem a existência do que é físico.
Cartas são pedras, os marcos da nossa existência. Mails e sms, minha querida, esfumam-se na nuvem virtual, tão falível quanto a nossa memória alzheimeriada.
Pegou num maço de cartas, arrumou-as na caixa e disse:
- Se lhe forem úteis... pode de ler. A mim ajudam-me a pensar na relatividade dos factos, em como tudo é transitório e passageiro nesta vida, a perceber que só podemos contar connosco, porque mesmo quem se ama, um dia desaparece sem rasto e ficamos sós, tal como nascemos, sós no meio da multidão. Pensamos que os afectos são âncoras para a vida, mas é mentira, no fundo não são mais do que meros rebuçados, que lambidos perdem o sabor e se desfazem...
Peguei na primeira carta, ao acaso, e perguntei:
- Quem lhe escreveu esta?
- Eu... nunca seguiu, tanto quando me lembre... Mas é tão ou mais importante quanto as que recebi, porque mais verdadeira. Escrita por mim para mim mesma.
Levei-a comigo e li, com os olhos abertos e o coração apertado, envergonhada pela devassa de intimidade e curiosa porque precisava muito daquele alimento, não sabia de quê... não sabia o que ia encontrar, mas sabia que precisava de realismo, de um banho de afectos, onde mergulhar o meu coração atontado, pelas hormonas baralhadas da querida quarentena de quarentona...
Algures no tempo das cartas, alguém talvez com a minha idade, escrevera:
"Perdi a esperança. A
esperança de que poderão existir dias melhores, contigo.
A esperança é o que nos dá alento… é a motivação para
andarmos em frente, para viver um dia de cada vez. É a luzinha ao fundo do
túnel, o que nos faz aguentar, nos dá aquela migalha de alegria sofrida que
permite aguardar tempos melhores, que nos consegue fazer sorrir mesmo nos dias
cinzentos, sonhando outro futuro, que nos deixa adormecer em sossego, porque
talvez ao acordar o mundo esteja melhor.
Passaram longos meses… desde que tu mudaste e partiste em espírito, não
sei bem para onde nem porquê.
Partistes, mas fostes deixando uma vaga sensação de que
estavas por perto… e que poderias voltar. Nunca pensei que voltarias como
dantes, porque a história não se repete, mas imaginei sinceramente que fosse
possível que tu voltasses para mim, de outra maneira. Imaginei um outro modelo
de vida, mais confortável para os dois, sem stress, um convívio amigo, calmo e feliz. Imaginei
que conseguíamos manter bons sentimentos entre nós, que alimentávamos a chama
dos afetos, da ternura, da cumplicidade…
Agora verifico que estava, inocente e estupidamente, enganada.
Tu não fazias nem fazes intenções de voltar e retomar um qualquer convívio normal… seja lá o que isso for.
Tu não fazias nem fazes intenções de voltar e retomar um qualquer convívio normal… seja lá o que isso for.
A minha vontade de “compor as coisas” era tanta, que
esperei, esperei… mas nada!
Foi uma espera inútil e o fim da esperança.
Dei-me conta de que não voltas, de que não me queres … partiste
para sempre.
As chamadas telefónicas raras e as cartas espaçadas eram apenas um
paliativo que tu encontraste para minimizar o meu sofrimento. Tu és bom, generoso e por isso tens feito o possível
para reduzir o impacto que o teu abandono provoca em mim. Conheces-me muito bem
e sabes que sofro… sabes que aguento mal a perda… sabes que é uma enorme derrota
para mim perder uma pessoa de quem gosto.
Sabes também que não entendi completamente o porquê de um
corte tão radical.
Tu explicaste, é certo, em câmara lenta, aos bochechos… não
dando a má notícia toda de uma vez… mas explicaste o que te ia na alma. Foi por
isso, que eu aguentei… e não te odiei. Porque houve uma explicação, mesmo que
esfarrapada. Só que agora a explicação me parece falsa.
E eu não suporto a mentira. A história de que não aguentavas
o stress, andavas cansado, confuso, em correria para fugir à clandestinidade, a
falta de tempo para mim (sempre contrariada quando eu verificava que tinhas
tempo para os outros), tudo isso me parece mentira. Mentira não deliberada. Não
te estou a chamar mentiroso. Foram mentiras que inventaste para ti próprio e que
me contaste, para me calar. E a verdade é que fui acreditando… fui aceitando,
com sofrimento, mas crédula de que se não estavas mais comigo era porque não
podias, porque a princesa não deixava, porque estavas doente, etc.
Quando na realidade me davas cada vez mais provas de que
nada disto era verdade. Os teus impedimentos existem certamente, mas não são
tantos assim que justifiquem tanto afastamento. É demais!
Tenho tido muito mais calma do que me é habitual. Fui
tolerante, o que não está no meu feitio. Fui paciente… que é virtude que não me
assiste!
Aguardei e acreditei num milagre… que não aconteceu, nem irá
acontecer.
Gosto demasiado de ti para continuar assim … Estou cansada,
estou farta desta vida de espera sem esperança.
As poucas vezes que viestes “visitar-me” nunca foi por
mim… foi sempre por acaso …
É claro que o tempo passado comigo deixou de ser um
valor para ti, muito menos um prazer ou uma necessidade vital.
No meu entendimento, por muitas tarefas que tenhas, por muito
controlo que a princesa exerça… há sempre hipóteses. Basta querer! Não me parece
que seja de todo impossível, combinar um almoço, um lanche, umas horas de
passeio… algures. Não era preciso ser tantas vezes como dantes… mas agora é nunca!
Em seis meses, mais ou menos, devemos termo-nos visto aí umas
duas ou três vezes . E correu mal! Tu vinhas com pressa, frio, sem jeito, sem
avisar… uma situação meia parva. Percebi que não estavas à vontade e eu também
não. Tornámo-nos estranhos…
Entre nós, ficou um mal-entendido… um tempo de separação
idiota, idiota por parecer ilógico e inexplicável.
O tempo é um valor muito importante no mundo dos afectos.
Não se pode ir e voltar , com um espaço de tempo tão grande, e esperar
encontrar a mesma pessoa… Tudo mudou entre nós e não falar disso é mau.
Do meu lado, fico sem saber como me comportar. Pergunto a
mim mesma o que faço ali, quem é aquele estranho, porque está e não esteve.
Será que volta? Será que se comporta como dantes? Será que ainda é meu amigo? O
que sente com a minha presença? Gosta de mim um bocadinho ou esfriou de vez? Está
ali com medo de voltar a casa e apanhar no côco? A minha conversa dá-lhe
stress? Amanhã acorda com enxaquecas e a culpa é minha? A culpa para todos os
teus azares é sempre minha (ou tua), os outros são todos uns santos… ninguém
te faz mal (quando eu sei que és um escravo do dever e dos outros), ninguém está a mais na tua vida. Está tudo certo, menos eu!
Pensar nisto tudo… faz-me mal! Eu já não ando muito bem, com
os meus problemas, pelo que pensar em ti e na fraude que foi o teu
afastamento, é demais.
De que vale continuarmos a mandar bilhetinhos, sem saber se os
sentimentos o justificam? E que sentimentos? Somos amigos? Ainda gostas um
bocadinho de mim. Então porque não podemos vermo-nos, uma vez por outra, com
calma e com tempo de qualidade? Sabes que não posso ser eu a ligar. Isso irrita-me , porque não me
parece que seja crime, uma vez sem exemplo eu ligar-te mesmo estando tu acompanhado. Sempre podias dizer qualquer coisa como desculpa e falarmos mais
tarde. Bolas, eu não valho isso? Realmente nunca vali! Mesmo nos bons velhos
tempos. Nem no dia dos teus anos eu pude ligar de minha iniciativa. Uma amiga
não pode dar os parabéns? Então que raio de amizade é essa. Somos ambos velhos,
inofensivos… a vida é tão curta e há pequenas coisas que dão tanto prazer e não
fazem mal a ninguém.
Acho que o teu problema não é falta de liberdade… mas falta
de interesse por mim.
E é isso que me dói. Tenho de capacitar que assim é… e não
mais acreditar que ainda há esperança em seres meu amigo.
Estou muito triste. Eu gosto de ti, preciso de ti… e peço
tão pouco. Mas nem esse pouco tu tens para me dar. Os meses passam e as minha poucas e tímidas cartas ficam sem resposta.
Não estou à espera de uma resposta exaustiva… mas com franqueza, esperava que
acusasses o que te digo. Temo que estejas doente. As minhas palavras esbarram no silêncio. E eu estou
cansada. A esperança não morre… o amor também não, quando é verdadeiro… quem morre
sou eu de cansaço…
Sei que não podes fazer nada… se escrevo é só para que não te
preocupes com o meu silêncio. Silêncio é tudo o sobra entre nós.
Tu partiste e levaste o amor… eu fiquei . De nada serve continuar a pensar em ti. O pouco que escreves é como quem me dá uma aspirina… por piedade, para me manter em paz, para minimizar o meu sofrimento, porque sabes que o abandono é demasiado pesado para mim…
Tu partiste e levaste o amor… eu fiquei . De nada serve continuar a pensar em ti. O pouco que escreves é como quem me dá uma aspirina… por piedade, para me manter em paz, para minimizar o meu sofrimento, porque sabes que o abandono é demasiado pesado para mim…
Fico agradecida, porque sei que o fazes por bondade… mas não
quero a tua piedade, quero da tua amizade. Infelizmente, amor ou amizade não é
coisa que se peça. Ou existe ou não existe.
E tu mataste o que havia de bom entre nós. Eu esforcei-me
por manter uma chamazita de afeto, mas não consegui. Desisto. Isto é patético,
andar a esmolar afetos…
Vou fazer um esforço para
não te incomodar com os meus lamentos… Gosto de ti, não te serve de nada a ti,
mas aquece-me o coração saber que existes, apesar de doer imenso…".
Bati à porta da Rosa, de lágrima no olho, ia devolver-lhe a carta.
Esbarrei-me no carteiro que lhe tinha entregue um telegrama, coisa fora de moda também.
Ela mandou-me entrar e sorriu:
- A resposta chegou, ao fim de tantos anos. Tinha-me prometido que saberia dele, quando fosse importante e que a afilhada, em quem confiava, saberia o que fazer na altura certa. Estou grata à pequena, que cumpriu e que - por generosidade ou por mentira piedosa - teve o bom gosto de acrescentar que, mesmo no fim, ele lhe relembrou a promessa e a morada onde o beijo deveria ser entregue, juntamente com a rosa vermelha das segundas feiras.
E o sorriso alargou-se, vermelho cor da rosa vermelha, rosa como ela. Afinal ele veio, sob a forma de fim. Valeu a pena a esperança.
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