terça-feira, 29 de maio de 2018

Vida


Uma vida sem amigos é como um jardim sem flores.
Até há jardins bem bonitos, só verdes e mais verdes, castanhos escuros e claros, com árvores e com arbustos.
Jardins há muitos!
Mas um jardim sem flores, é coração sem amor! Até bate, até existe... mas não é a mesma coisa.
O amor-perfeito é uma flor quase rara, não pelo seu exotismo mas pela sua tão curta duração, mantém-se fresca tão pouco tempo... 
Flor pequena, intensa na cor e nos sentimentos que disperta, uma beleza que surge em tons diferentes mas todos maravilhosos... diferentes como são as pessoas, como somos todos nós e os nossos afectos... No entanto, ninguém lhes fica indiferentes, a intensidade e o seu calor saltam à vista, em geral, rastejam nas bermas dos canteiros, baixinhas mas cantando alto e aquecendo o coração de quem passa. Lembram alegria, lembram sol, primavera e verão.
Por vezes, até lembram amores menos perfeitos, que guardamos no baú das recordações e dos afectos, como se perfeitos fossem... Imperfeitos mas amados, com o aroma das flores e com a doçura do aveludado das suas pétalas, que mesmo secas não secam no nosso coração.

Amores-perfeitos ou imperfeitos em intensidade, em coloração e alegria que Madrid oferece aos mais românticos e aos mais distraídos... para não esquecer que a vida merece ser vivida mesmo com todas as suas imperfeições. Desde que haja amigos e jardins!



sábado, 26 de maio de 2018

Perder nas trincheiras

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”
Clarice Lispector


 


A rendição pode ser um sinal de derrota ou de vitória. Depende da forma como cada qual vê a guerra, ou mesmo se a guerrra existe.
Por vezes, a guerra não é mais do que um conflito latente, imaginado, fantasiado ou até empolado.
O inimigo até pode ser um objecto real, uma situação desconfortável ou uma pessoa verdadeira e perigosa. No entanto, a sua “existência” na nossa vida e a sua transformação em inimigo, em bruxa ou em fantasma aterrador.... depende sobretudo de nós.
Podemos ignorar o adversário e então não haverá lugar a contenda. Ou podemos assumir que é um inimigo real, mas de tal maneira poderoso e bem apetrechado em armas e talentos, que a atitude mais inteligente é não o enfrentar.
A guerra pode ser jogada no campo de batalha, em campo aberto, com os adversários medindo forças em concorrência, com armas supostamente comparáveis. Mas também pode ser vivida nas trincheiras à defesa.
Não sair à luta e ficar discretamente escondido atrás da trincheira não é, por si só, uma boa estratégia.
Pode-se perder uma guerra atrás das trincheiras ...
A rendição não é derrota, é uma perda, isso sim. Mas é uma perda que resulta da justa incapacidade de lutar e de ganhar, é o lugar certo e inteligente de quem é incompetente ou não tem talento para vencer, para amar, para viver.
Há outros lugares onde se pode ser feliz... lugares de sol e de esperança. A felicidade não é o prémio ganho numa contenda, nem pressupõe que se ganhe uma guerra. 
Não devemos ficar acocorados, cobardemente, atrás da trincheira, à espera que o mundo mude e nós fiquemos na mesma. Humildes e humilhados, parados no tempo, deixando que o inimigo nos paralise de terror... isso não!
O lugar da felicidade é o do paz e esta não se deve confundir com vitória, como se a paz fosse um sub-produto da guerra.
Perder nas trincheiras é possível ... 
No entanto, melhor seria viver em paz, mesmo que a gente não entenda o que se está passando em redor ...


Viver é tão difícil que ultrapassa qualquer entendimento, como diria Clarice.

sábado, 19 de maio de 2018

Estar e Gostar





Estar e Gostar





GOSTAR, silenciosa obsessão, acontece a tempo inteiro,
enquanto que
ESTAR é coisa boa ... para fazer em part-time!

Felizmente que assim é!
Mal seria se o GOSTAR não viesse sempre primeiro,
porque o ESTAR mesmo pouco, é bom ... e muitas vezes on-line

Estar demais, às tantas, enjoa, pode até estragar o gostar.
Mas gostar de menos é pobre e empobrece o gosto de estar.

GOSTAR é como respirar, ESTAR igual a comer.
Pois respirar é preciso, é vida e tem mesmo de ser...
Enquanto comer é um prazer, que não se está sempre a fazer.




terça-feira, 15 de maio de 2018

Viajar





Viajar enquanto lugar de reflexão, porque é de caminho que se trata, de pensamento orientado, na busca do que vem a seguir...
Viajar é ir e ver. Ver com todos os sentidos alerta... sendo que todos são igualmente importantes nessa busca... 
É sentir a alma dos lugares... e arrumar a nossa no sítio certo... 
O tal sítio certo que tanto pode ser ali como noutro lugar qualquer, que umas vezes se encontra e outras não. 
Viajar exige movimento, meio de transporte, vontade, necessidade, curiosidade e alegria de viver. 
E, sobretudo,  inquietação!
Pois se inquieto é o estado de quem não está quieto... não é isso mesmo o que faz o viajante? Sair de si mesmo à procura do mundo, porque carece de um rumo, porque tem fome de movimento, porque precisa de aprender e de se surpreender, não sabe o caminho... e precisa de um barco que o leve por aí.


Uma gôndola parada à noite é uma promessa de rumo, ainda não é a viagem mas o início de um despertar ...


Mas o caminho, faz-se acordado, de dia, de olhos bem abertos à vida... seguindo em frente. Viajamos para nos sentirmos vivos, para que a emoção nos surpreenda... Mesmo que se viaje quieto, dentro de nós, de olhos nas coisas, na natureza, nos outros humanos que circulam por aí e que viajam perdidos como nós.
Gosto dos que não sabem bem o caminho, mas não desistem de o procurar, não desistem de encontrar as emoções de um lugar novo, de um quadro velho, de uma escultura partida. Gosto de quem segue a rir sem saber porque o faz, de quem ri apesar de perdido, mas sem vergonha de continuar a procurar o seu rumo, tal como a gôndola de quilha empinada, altiva, certeira ... aparentemente... porque até pode encalhar na próxima curva do canal. Mas vai...


Sabemos o que é ter fome de carícias, sabemos tão bem a falta nos pode fazer a sua falta. Porque será? Porque desejamos um beijo, um abraço, gente que goste de nós, gente que goste que gostemos delas? A resposta está na emoção esperada...
É tal qual como com as viagens - buscamos o toque da emoção, da surpresa, do afago emocional, intelectual, da novidade, da beleza, da diferença...
Uma emoção que até pode ser conhecida, experenciada ou, pelo contrário, ser simplesmente sonhada, uma fantasia ou um absurdo. Mas é a emoção que buscamos...
Tanto nas viagens, como nos afectos... procuramos o que mexe connosco, procuramos o que nos mate a fome, o que nos preenche as faltas e as falhas. Remendos!
Sim, remendos para consertar buracos da vida, a fome de conhecimento. Buscamos encontrar o que falta conhecer. E há tanto ainda para aprender!

Precisamos de sentir a arte, tanto quanto gostamos do suave toque da nossa pele na superfície de outra pele gostada. 
Procuram-se lugares como se procura o amor. O qual - como sabemos - não se procura, encontra-se!
Marcar uma viagem é como comprar um bilhete de lotaria, pode ser que saia. Porque quem não procura, não encontra. Quem não arrisca a viagem pode perder a oportunidade de ganhar...a sorte, a emoção.

Fui à procura ... porque ir é dar mais um passo a caminho do futuro e o futuro está sempre um passinho à nossa frente, mesmo ali, logo a seguir...

Fui viajar porque não se pode parar... e o tempo corre, mesmo que fiquemos parados. O tempo corre, sòzinho, não espera por nós.
Viajar é andar ao ritmo do tempo, para que o futuro não nos fuja.  
É um modo de não perder o passado, conhecê-lo, amá-lo, vê-lo com outros olhos, com o olhar do presente... porque o presente é tudo quanto existe de certo e de seguro.


O presente é a casa onde moramos... 
Olhar para as casas dos outros, daqueles que nos antecederam, ajuda a focar o "aqui e agora" e pensar que o lar é onde está o nosso coração...






sexta-feira, 4 de maio de 2018

Lírios do Campo







Não havia cravos vermelhos! Mas havia lírios do campos...

Era 25 de abril, os cravos - flor de cidade e de jardins burgueses - voaram para os locais habituais...
No campo, na sua calma habitual, no seu lugar natural...restavam as flores do campo.


E eram muitas, algumas pareciam humildes lírios roxos...que se misturavam com pequenos antepassados de orquideas lilazes, flores amarelas (das azedas e das outras não provadas) e, ainda, parentes próximos dos malmequeres brancos e amarelos, além das primas afastadas dos brincos-de-princesa cor de rosa chocking. 






Muitas e muitas flores em ponto pequenino, caoticamente misturadas e dispersas na paisagem.
Sobre um fundo verde..que em breve será castanho e seco, branco e loiro...



E todas pareciam estrelas brilhantes e coloridas ao sol.



Quando a noite caiu, as estrelinhas coloridas viraram fogo e cairam com estrondo sobre as pessoas expetantes que festejavam a festa ... sem cravos (ou muito poucos!) ... 



... mas festejavam a memória que é o que importa!


Fiquemos pelos lírios do campo, esses reais, mais do que memória...
Lembrando apenas a Biblia, que às vezes tanto nos ensina sobre os lírios do campo:

«Ninguém pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e amar ao outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas. Por isso vos digo: Não andeis cuidadosos da vossa vida pelo que haveis de comer ou beber, nem do vosso corpo pelo que haveis de vestir; não é a vida mais que o alimento, e o corpo mais que o vestido? Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem ceifam, nem ajuntam em celeiros, e vosso Pai celestial as alimenta; não valeis vós muito mais do que elas? Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um cúbito à sua estatura? Por que andais ansiosos pelo que haveis de vestir? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam, contudo vos digo que nem Salomão em toda a sua glória se vestiu como um deles. Se Deus, pois, assim veste a erva do campo, que hoje existe, e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Assim não andeis ansiosos ..."

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Partilhar



Partilhar não é possível! Nem faz sentido, quando se trata de bens espirituais, incorpóreos ou infinitos. Partilha-se o que é material, escasso e finito... como o tempo, por exemplo.

Não se partilha afeto, nem amor. Quanto muito vivem-se sentimentos parecidos, mas diferentes na sua essência, com mais de uma pessoa. Mas não se partilha a pessoa.
Não faz sentido eu gostar de um abraço e tu preferires um beijo, tu admirares a força de uma brelaitada e eu gostar de um entalanço morno e querido... 
Não se partilha uma pessoa, nem um afecto, nem um amor. Vive-se, simplesmente, por inteiro... sem partir em bocados, nem em horas, minutos ou locais. Pessoas não são fatias de um bolo, nem servem para comer. São o nosso alimento por inteiro, por excelência, por gosto, por tudo...
Mas infelizmente só gente boa percebe isto. Gente de bom coração, inteligente, sem interesses materiais, sem desejo de lixar o próximo, desrespeitar ou magoar o seu semelhante . 
Em paralelo, há gente que tendo a sensibilidade suficiente para perceber que os seus actos são maléficos, tortuosos, sibilinamente venenosos, usa esses "talentos" para amachucar o próximo. Desses(a)s reza a história, profusamente... e não têm desculpa, nem razão de existir, quando sabem que estão a magoar inocentes. Ninguém deve ter o poder de humilhar o seu semelhante e, muito menos, se este for sério e inocente. No entanto, a maldade e a pequena vingança cerca-nos a todos, todos os dias a propósito de tudo. 
Percebe-se que muitas vezes a maldade radica apenas no instinto de sobrevivência, tão forte que ele é ...
Quem haje de boa fé não devia sofrer por isso. Mas o mundo é um lugar injusto e quem vence é quem tem uma melhor estratégia ou uma tática mais apurada, aqueles que pensam que os meios justiifcam os fins, os que julgam que ficarão impunes às suas malfeitorias, que têm o  direito de dominar os seus amores e os seus irmãos - pela força dos interesses e  pelo egoísmo. 
De gente sem balizas nem valores de seriedade está o mundo cheio. Ou seja, de quem não olha a meios para atingir os seus intentos, sem medo de pisar os outros...



Muitas vezes, quem faz tanto mal, até pode ser um pobre-diabo digno de dó. 

A miséria é uma dos caminhos que leva ao crime, a sobrevivência implica, muitas vezes, um predador que tudo faz para se alimentar e matar a presa.

Nós somos tomos humanos e não devia valer comermo-nos uns aos outros. Esta antropogagia é a causa de tanta sofrimento. Porque quando há um predador que tenta sobreviver a todo o custo, há uma vítima - porventura, gente que gosta de paz, de sentimentos bons  e reciprocos, que quer descartar a vingança, que abomina a intriga, que se afasta dos maus espiritos, da macumba e da maldade, no seu estado mais egoista . E é tão injusto!
É tão injusto que para um vencer o outro tenha de ser um derrotado... que para um comer o outro tenha de passar fome...

O mundo precisa de amor e de gente boa. Gente  que goste de si, porque sem isso não pode ser feliz, nem gostar dos outros. Não precisa de teatro, da representação da peça do "carinho" repetidamente encenada em  maldade e em fantasia, em mentira tão interesseira quanto doce. O mundo seria melhor sem estratégias de dominação e poder, sem gente que pensa que é por abrir as pernas, mandar mensagens, fazer cafunés ou docinhos de coco... comanda os acontecimentos. Até pode conseguir os seus intentos, ter sucesso nesta empreitada, mas um dia a velhice e a sabedoria talvez lhe diga quão vã é a glória de mandar. 
No fundo, no fim da vida, restará o vazio... o vazio que fica no palco quando o pano cai e o actor se consciencializa da futilidade e vacuidade do seu papel. Conquistou um público, talvez, um amante ou um país ...mas ficou só no seu palco, ficou só e preso na sua mentira grandiosamente construída em fantasia... na vã glória de um poder falso e efémero...
E digo tudo isto sem raiva, porque sou otimista e acho que a paz e a harmonia vão prevalecer, se não ligarmos às guerras , se desprezarmos quem não merece sequer o estatuto de concorrente, quanto mais de inimigo.




O amor e os bons sentimentos, em silêncio e em solidão, são a verdade do mundo. 


As palavras leva-as o ventos, tal como a calúnia ou as piadas das supostas amigas. Prevalecerá a verdade dos sentimentos verdadeiros.
Que não são eternos, como nada na nossa curta existência, mas são a melhor coisa que a vida nos dá. tal como a saúde e as pessoas sãs a quem podemos chamar amigos.

E abomino o poder nas suas várias formas. Detesto e assusta-me, sobretudo, o poder dos fracos, daqueles que se assumem como desgraçadinhos e usam esta arma como forma de manipular corações mais moles.
Detesto quem se ache superior porque sofre. Sofrimento de pobre vale tanto quanto sofrimento de rico. Nisso somos todos iguais!

E eu acredito na vida, nas pessoas verdadeiras e nos afetos!
Por isso, sou feliz! E tento fazer felizes quem de mim gostar.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Palavras



As palavras são bem pobres suportes para o que nos vai na alma.
Transportam mal e porcamente aquilo que queríamos transmitir mas, no fundo, há todo um mar... um mar enorme e profundo onde jaz muito do não dito.
Porque se a mensagem a transportar forem sentimentos e não factos, as palavras são frágeis canoas que vacilam e podem naufragar. Os sentimentos cavalgam a onda e afogam o verbo solitário que, cheio de boa vontade, tenta chegar ao seu destino.
Talvez seja esse o destino da palavra - a de morrer na praia, deixando na melhor das hipóteses um rasto ténue do que queria dizer... fica um traço apenas... uma névoa para o leitor perceber apenas um pouco, apenas um leve sentir, daquilo que os areais absorveram e o mar apagou.

Pobres... pobres e infelizes, incompetentes palavras que não servem de casa para o amor, nem para a amizade, nem de bandeira para sentimentos grandiosos de honra ou de heroísmo, nem de montra para a abnegação ou a solidariedade.
Sobram os actos, para cumprir essa missão.
É pelos actos, é pela honestidade e pela sinceridade com que se praticam que sabemos do outro. 
São os actos que nos fazem acreditar.
Não são as palavras, que de pouco valem para criar uma fé, não são as palavras que comportam valores, não são elas que nos provam a força e a verdade dos sentimentos. São as pessoas, o seu sentir e o seu agir.
As palavras, além de fraquinhas, são mentirosas, fantasistas e, quantas vezes, estrategicamente concebidas e tacitamente usadas para outros fins. Podem ser usadas, para o melhor ou  para o pior, com boa-fé ou por fraude deliberada. 
Em qualquer situação - nefasta ou virtuosa -, as palavras são os instrumentos, de que a mente se serve, que marcam um caminho, que seria eventualmente diferente... se fosse o nosso arbítrio a decidir...
As palavras dos outros conduzem-nos a nós; não conduzem necessariamente os sentimentos que anunciam.
E, no entanto, nós gostamos delas... das palavras! Precisamos de as ouvir, vindas dos amigos, de quem amamos ou até dos nossos inimigos... porque são elas o espelho da nossa cara miserável. Mais vale ver um rosto despenteado no nosso reflexo no olhar dos outros, do que mirar um espelho e ver uma parede... opaca... vazia... sem gente, sem opinião... 

As palavras... as palavras... o ruído que elas fazem...
É uma música de que gostamos... Tantas palavras à nossa volta, uma cabeça cheia de palavras que são mentiras, de mentiras que entram cá dentro com o passaporte legítimo de serem palavras e de terem sido escritas especialmente para nós. E também tantas palavras que são de conforto, que amamos até pela sua mentira... 



As cartas de amor são talvez a mais querida mentira de palavras, bem organizada. 
E se, por causa das palavras, perdermos o dom de saber pensar com a nossa cabeça? 
A verve dos outros, as notícias do jornal, as recebidas por correio ou no ouvido, em direto, ao telefone ou por interpostas pessoas - tudo palavras esperadas, agarradas com carinho ou com rancor... mas nossas.
Há as palavras construídas especialmente para nós e que nos deixam vaidosos - que alguém escreveu para mim, sinceras, ou talvez não, de amizade, de apreço, de incentivo, de agradecimento - como se palavras fossem iguais a sentimentos bons. 
E, contudo, quantas comportam mentira, não porque quem nos as enviou seja mentiroso, mas porque as usou para atingir o seu fim, por si, pelos seus intentos e não para nos dar consolo.
Também, há palavras genuínas de amparo, de solidariedade... de amizade e de parceria quando se vive em união de entendimento de corações, quando se partilha um projeto, um afecto ou um luto, quando algo de comum é suficientememte forte para que seja entendido e aceite... quase sem palavras. 
São casos mais raros, mas existem.
Há corações que se entendem quase sem palavras, sem ruído.

Mas a maior parte das palavras - que supostamente carregam sentimentos - são uma manifestação de interesse, não são uma declaração do apreço de um ser por outro, mas de ele por si mesmo. São uma forma linda e encapotada de egoísmo.

Logo e em conclusão, palavra e sentimento não são uma combinação séria e feliz. Mesmo que os intervenientes pensem que sim. Mesmo que eles estejam convencidos que usaram a palavra certa para transmitir um sentimento verdadeiro. Até nesses casos, podem estragar tudo. 
Por detrás de uma palavra errada pode estar um sentimento certo e verdadeiro, tal como por detrás de uma palavra certa pode estar uma mentira, um mal-entendido ou um  miserável sentir.
Quanto sentimento existe e permanece... para além da palavra!
Pode é ficar impotente e timidamentemente à espera de melhor sorte para se mostrar, para mostrar o que vale... por actos... já que as palavras não chegam...


E o sentimento, coitado, pode até morrer na praia, apagado pela onda que vem a seguir... ou pode ser roubado na praia onde se estendeu ao comprido, na alegre espuma da onda, orlado da nudez fria e envolvente do mar, na pureza do ar, do cheiro  a maresia, do sol que brilha e que despe... em silêncio e sem palavras.

Se tivesse força e descernimento, entregar-se-ia aberto inteiro ao arrebatamento do mar... sem palavras. Para que o som dos seus gestos e o silêncio do seu sentir, gritasse naquela imensidão.

Esperando  por quem venha recolher o sentimento no estado puro... sem palavras,  sem livros e sem sons, sem raciocínios nem filosofias, sem complicações ...

Apenas uma mão... ou duas, uma na outra, sem palavras... 
Um simples voar de dois corpos ou de dois espiritos, navegando dali até ao horizonte... dois seres com a ternura e sobretudo com a grande intimidade que só a amizade verdadeira comporta... sós e em silêncio, com o sentimento que tiverem para dar - não importa a quantidade nem a qualidade -  não importa que se amem muito ou pouco, importa é que seja sem palávas, só com gestos, intimidade e entreajuda. 
O que importa é que seja a corporização do sentimento verdadeiro e não a espuma da fantasia, o ruído das palavras já inventadas e repertidas, O que importa é que o ruído das palavras se vá embora, subtraída a calúnia da boca dos homens, limpa a maldade da cabeça da mulheres, varida a inveja. 
Que fique a paz e a coragem, que restem os homens e mulheres mais duras e valentes, mais sérios, amigos dos ventos  de bonança, que sobrevivam os seres que gostam de viver na profuncidade do mar, daqueles que respeitam e admiram (e temem) a profundidade do mar e se aventuram à descoberta. Que vivam os amantes da verdade, os que preferem ir ao limite do desconhecido e ficar mais rico em sabedoria, do que ficar pela espuma da praia e pelo cor de rosa alegres dos bikinis.
Há quem se vista de espuma, de conchas e de flores e tente seduzir o mar, há  quem julgue que o arco iris surgiu no horizonte apenas para seu deleite, que o luar lhe pertence como as palavras que constroi.
Da mesma maneira, que há quem lance sentimentos em posts de facebook ou em blogues como quem pendura bolas na arvore de Natal. 
Como se as palavras derramadas no mundo virtual, substituíssem sentimentos.

Nesta selva em que palavras lutam pelo seu lugar ao sol, que se batem para torrar os neurónios alheios, que o marketing nos tenta engoliar a todos, é preciso sabedoria e um modo diferente de olhar o mundo para aguentar à tona.
É preciso sobreviver e ser feliz porque a vida é curta, é preciso aguentar as palavras e os gestos, que nos fazem mal, com coragem e resistência para não desfalecer ... visto que é aqui, neste mundo, que queremos morar mais algum tempo.

É bom viver num lugar de verdade e de paz, onde seja possivel demorarmo-nos, fechar os olhos, dar a mão a quem merece a nossa confiança e prosseguir em frente... por um caminho de serenidade, onde seja possível dormir abraçado por quem nos quer bem, abraçado por quem entra em nós e traz a luz. onde se fica quente e suavemente em segurança. 
Porque as palavras mesmo poucas... devem ser boas e verdadeiras ou então que sejam más e sinceras, 
Do teatro, esse palco de fantasia oportunistica há que fugir.
Há que fugir desse mundo de fição e de fantasia travestido de verdade, bêbedo de mentira...
Há que resisitir com todas as forças, porque confundir fição como realidade é uma prisão, é dependencia e perda de liberdade.
Liberdade exige autonomia, algum dinheiro, auto-estima, realismo, e não ter medo da solidão nem do silêncio, quando tal for preciso.
É preciso austeridade nos sentimentos sérios e saber descartar a espuma das coisas fúteis, desconfiar de quem se apresenta envolta em acúcar, em promessas de carinho... 
O que é bom não precisa de marketing, nem de palavras inúteis. 
O que é genuino é discreto e reconhece-se, porque a luz interior é mais forte do que aquele holofote articial que incide sobre a artista em palco. Aquela (ou aquele actor) cujo brilho carece da exposição pública e dos seus aplausos para se sentir realizada. Que sonha e  espera ser despertada pelo beijo do príncipe encantado e se veste da fantasia das palavras, reinventando os sentimentos que estão no guião da peça ...que não lhe pertencem (talvez pertençam ao dramaturgo, mas mesmo esse perdeu-os para a mente dos outros, para quem o lê ou vê a peça).
Para o actor, só são verdadeiros os aplausos - a excelência, a virtude está na forma como usa as palavras para fingir os sentimentos ... dos outros!
Para esses - os actores deste mundo - só resta a glória das palavras ditas. Parece pouco, no entanto, quantas vezes, são suficientes para vencer na vida.
Porque a vida é um palco.
Um local onde a verdade e os sentimentos pouco importam, o que vale são as aparências, a fantasia tornada realidade.
Vamos morrer... e até mesmo a nossa passagem por aqui...vai virar aparência...não tarda nada.