domingo, 18 de abril de 2021
Tristeza
Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! Vá… baixinho…
Por esse sonho, amor, que não existe!
Vamos encher-lhe o seu caixão dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho… ai!… reza baixo… amor…
Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!
Nosso sonho morreu… Reza mansinho…
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde… mais baixinho…
terça-feira, 30 de março de 2021
Viver o Momento
O Carnaval é um dia... há que aproveitar!
Qualquer filosofia barata, qualquer livro de auto-ajuda, nos aconselha a viver o momento presente, com toda a intensidade e otimismo. Como se fosse o último dia da nossa vida.
Mindfulness - Viver o aqui e agora!
Devemos esquecer o amanhã, preocuparmo-nos menos com o futuro, porque amanhã poderemos estar mortos ou cair-nos em cima uma qualquer desgraça.
Eu sei disso, mas não pratico!
O meu pessimismo persistente tende a criar mais facilmente cenários de medo, de uma hipotética hecatombe, de imaginar-me só, pobre, sem casa, abandonada pela família e pelos amigos, desligada de um ambiente de afectos, sem objetivos, sonhos ou projetos. Sou assim: negra... desiludida e confusa.
Na minha cabeça, imaginar um dia de amanhã com sol, é raro! O dia de amanhã - que contamina o de hoje pela aproximação do tempo - é quase sempre cinzento, assustador e sem esperança de melhoria . Tenho uma certa dificuldade em fazer planos de dias felizes, em olhar para a frente com esperança ou com ideias boas. Imaginar que um futuro radioso que me aguarda já ali ao virar da esquina, por sorte... sem eu ter de batalhar para o conseguir, não faz parte do meu processo mental de construção de uma narrativa prospetiva.
Não acredito em milagres, nem no destino.
Tudo o que consegui foi à custa de muito trabalho, com sacrifício do meu Eu, de ter de abdicar de momentos de lazer, de amores, de viagens , de pequenas/ grandes liberdades... de desistir de viver, enfim... Sempre achei complicado viver livre, ser dona de mim e capaz de influenciar o pequeno mundo que me rodeia.
Não tenho talento para ser feliz, sou uma falhada. Em termos de balanço vital, tenho a somar poucas conquistas, daquelas que são obtidas por mérito próprio. As que obtive, resultaram de (alguma) sorte, não contam para este currículo.
Tive dois filhos, não são mérito meu... nasceram e criaram-se sem que eu tenha feito muito por eles. Tive sorte, são relativamente saudáveis, inteligentes e têm bom caráter. São seres independentes e se saíram assim... é porque sim.
Pouco ajudei. Eles também não querem ajuda. Vivem as suas vidas. Agradecem o meu distanciamento. Por um lado é bom, não são “pedinchas”, por outro é mau : não querem a minha ajuda para nada.
E esta realidade, às vezes dói - pensar que sou dispensável, que eles negam a minha presença e apoio. Contudo, tenho de respeitar as suas opções.
A culpa é minha certamente porque não consegui construir uma família coesa. E sobre este trauma nada posso fazer, até porque me habituei a ouvir durante quase 40 anos que sou uma inútil como esposa e mãe. Que sou responsável pelo problema do filho (apesar de ser genético e eu não saber lidar com a doença). Sinto-me implicitamente acusada de ser indiferente aos problemas do filho, pouco colaborativa com a filha, de ser incompetente como esposa-agente-de-viagens, organizadora de férias, eventos e remodelações domésticas. De ser uma nulidade em termos de decoração, conforto no lar e de ser má cozinheira . Esta é a lista de incompetências que esmagaram a minha vida, retiraram a alegria de viver, que me fizeram afastar da família mais alargada e de amigos. Acresce talvez uma pequena qualidade: sou boa na cama (ou era) mas talvez demasiado boa... para um só uso.
Portanto, a minha única qualidade virou defeito.
Também tinha jeito para trabalhar. Mas agora já não tenho. Gastou-se o talento... passou o meu tempo.
Estou no fim da linha: as únicas duas coisas que podiam ser uma vantagem competitiva estão a deteriorar-se: fazer amor não é apreciado ... a concorrência faz melhor! Trabalhar não me deixam... quem supostamente veio para me ajudar, também faz melhor e não me deixa sequer dar um mísero contributo.
Conclusão;
- Tenho de deixar de me dar a quem não me ama e me usa com a indiferença de quem tem alternativas melhores e variadas;
- Tenho de me reformar e não trabalhar mais, naquilo que obviamente não sei ou que não está a resultar.
Está na altura de mudar de vida outra vez...
A vida é feita por turnos, de mudanças... eu sei... mas agora estou cansada e velha, com preguiça para novos desafios, mudnças, opções, decisões. Com preguiça e falta de impedância para ir procurar novos amigos e construir novos meios de afectos , de hobbies e alegrias.
Tento mentalizar-me de que o tempo do amor foi queimado por uma incendiária, que só desistirá quando eu arder e quando reduzida a cinzas, permita campo limpo para que ela possa reconstruir um ninho seu, sobre os escombros da minha ruína.
Tem um otimismo, coragem e fantasia desmesurados... vai longe É determinada, conseguirá um futuro radioso, com casa, carinho dinheiro, seguranca... e até merece, porque tem esperança, porque vive o dia presente como se fosse o último, porque acredita... acredita... acredita... na Senhora de Fátima e em yemanjás, no Totoloto que há de sair, no príncipe encantado que está mesmo ali na volta do caminho para a levar, não num cavalo branco, mas numa linda bicicleta.
Eu até tenho melhores condições à partida - mas como sou negra, pessimista, impotente e insegura - não chegarei longe.
Se nem os meus filhos me querem... como posso esperar algo de mais alguém? Se o amor de filho, tido por incondicional, me falha , o que posso esperar do afeto e do respeito de um homem que não me é nada?
Um homem que, por vezes, parece sorrir com um leve relampejo amoroso ou com um gesto de carinho mas que, na maior parte dos casos, age por oportunismo. Come o que há a jeito, sem muito primor na escolha ou no sabor, o que vem à rede é peixe e serve-se com mais ou menos sal, tudo marcha e alimenta...
Com gente desta, a única solução é viver o momento presente o melhor possível. Tentar ser feliz com o que se tem.
Hoje, vou esquecer as dores do passado e abrir um sorriso ao dia de amanhã - o dia da esperança de algo melhor. O sol nasce daqui a pouco e é nele que me quero concentrar ... ser feliz por um dia ... o resto não interessa.
Amanhã estaremos todos mortos ...
Hoje sou eu que canta e a bicicleta jaz moribunda no leito da sua inutilidade. Mesmo que o leito dos lençóis manche com o desespero de umas pernas abertas em nome de investimento futuro, o presente (lavado ou deslavado)... é meu!
E vou aproveitá-lo com o que tiver .
sexta-feira, 22 de janeiro de 2021
Inspiração pandémica
Inspiração pandémica é coisa que não me assalta.
Um amigo pediu-me inspiração, novos escritos, criatividade, emoções derramadas sobre o papel... talvez para espantar os tempos vazios dos meus (pouquíssimos) leitores, ocupar-lhes as tardes cinzentas deste Inverno pandémico que vivemos.
Pensava ele, quicá, que o estado de guerra sanitária em que vivemos e as carradas de perturbações que isso envolve seria motivo suficiente para despoletar o "estado de rotura interior", de extase ou de inflamação de que um escritor precisa para se lançar sofregamente à escrita.
Ora, eu não sou escritora e o meu processo criativo - quer ele ocorra na escrita ou em tarefas manuais que exigem maior ou menor imaginação, como pintar ou bordar - surge de "repentes" inexplicáveis...
A imaginação e a urgência da minha escrita surgem mais de dentro do que de fora. ´
Não é muito influenciada pelo que se passa na sociedade, na política, no mundo dos outros que me ficam longe. Claramente, não sirvo para comentadora política nem para historiadora.
As minhas "crises" criativas vêem do caos, das perturbações interiores, das raivas, dos fantasmas, das inseguranças, dos medos.
Mais raramente podem surgir do amor, da paixão, da doçura da vida que me abraça nas rotinas amigas e agradáveis... É pena, porque se eu fosse escrever sobre tudo o que tenho de bom, sobre as alegrias que vivo, sobre aquilo que conquistei e de que usufruo no presente, teria muito que dizer. E seria mais agradável.
Sou uma pessoa com sorte! Sorte essa que não proveio do destino abstrato, mas que foi a conjugação de factores benditos: nasci do lado certo do Mundo, numa família acertada com a sua civilização e valores, tive acesso à educação, à sáude e ao conforto material básico de uma classe média ocidental.
Tive a BASE e essa base que me foi oferecida pelo destino, que ganhei à nascença, foi muito importante.
Não foi sorte, foi apenas a prenda de vida que me calhou na rifa.
A partir daí, julgo que o que ganhei foi meu! Já não foi sorte, foi construído por mim. O que sou e o que tenho é da minha responsabilidade e, evidentemente, também o resultado das interajudas que fui obtendo, da parte de tanta gente que comigo se cruzou, ao longo da minha já longa vida.
Tenho o que conquistei, com paixão, trabalho, esforço, cedências, alegrias... e, por vezes, com pouca inteligência e falta de sentido prático, renunciando a algumas coisas a favor dos outros ou de valores "discutíveis". Mas não me arrependo.
O arrependimento é aliás um sentimento inútil! Depois de acontecido, não há como voltar atrás. O caminho é sempre em frente, carregando nós os erros (com leveza) porque eles orientam uma melhoria contínua.
Tive sorte e tive jeito (trabalho é igual a jeito, sempre, quer se trate e um artesão ou de trabalhador intelectual). Há uns com mais jeito dos que os outros. Há uns mais preguiçosos ou distraídos, outros mais obcecados e produtivos, outros mais aldrabões ou imaginativos. Tudo isso é trabalho, percursos diferentes de produzir algo, de bom ou mau, para si ou para os outros.
Desta miscelânea de gentes e feitios, vem o resultado: há quem some mais conquistas na vida do que outros, apesar de ter tido condições idênticas à partida.
Somos todos diferentes, em resumo. Também o processo criativo de cada um é diferente, uma parte é fruto dos "talentos" de cada qual (aqui também há os bons talentos e o talento para a asneira, a corrupção, o crime, etc.), outra parte provem daquilo que cada um faz com esses talentos, ou seja o seu jeito/trabalho próprio.
Tudo isto vem com o próposito de explicar que o meu processo criativo é diferente e que, realmente, a pandemia e o confinamento me inspiram pouco a escrever, porque é algo que vem de fora.
Já o medo vem de dentro. E neste momento, tenho muito medo porque me sinto mal. Mal, não por mim, mas por quem me é próximo e sofre. Mal, porque não tenho jeito nem talento para lidar com a morte, com a doença, com muitas trivialidades práticas do dia-a-dia, que muita gente é capaz de suportar.
O meu mal tal como a minha inspiração vêm de dentro e impelem-me a escrever.
O medo é um dos piores sentimentos porque nos tolhem os movimentos e criam fantasmas que nem a escrita afasta.
Vivi os últimos anos rodeada de bruxas e de medos... fui ultrapassando, acalmando angústias, aos poucos, apesar dos sonos ainda não terem regularizado por completo...
Vivi também conquistas maravilhosas - a liberdade foi uma delas. No fundo, só tenho razões para estar feliz - tenho afetos vários à minha volta, em especial os filhos, cujas alegrias superam as preocupações de mãe. Sempre assim foi, foram fáceis de criar e cresceram autónomos e equilibrados, espero que felizes também... mas isso é coisa que uma mãe nunca tem a certeza.
A felicidade e a saúde dos filhos é o que mais deseja, mas tem sempre apreensões e dúvidas sobre como se sentem!
Tenho amigos e tenho conforto material. Logo devo sorrir... sorrir aos outros que gostam de mim por isso mesmo, porque rio muito e, dependendo do ambiente em que estou, também falo muito. Sei que transmito energia, uma energia - que criei para mim própria para alimentar a minha auto-estima - e que, como devo produzir em excesso, há sempre sobras para oferecer aos outros.
A minha extroversão e pseudo-dinamismo é um truque inventado para o meu bem, para compensar alguma queda para o pessimismo, para afastar os fantasmas...
É deste equilibrio entre a alegria inventada para meu recreio (e dos outros) e o pessimismo ditado pela forma racional e realista com que olho para as dificuldades, que se constrói o meu equilibrio interior.
E quando as doses de produção de optimismo e de pessimismo não estão certas, a balança pende para um dos lados e é preciso compensar.A escrita é o peso que coloco do lado da balança que mais precisa de acerto.
domingo, 3 de janeiro de 2021
Paz e Rotina
Rotina, horas certas para cada coisa, as mesmas coisas feitas às horas certas.
Tão bom, quanto seguro. Tão mau, quanto tem de chato, descriativo...
A Paz é daquelas coisas com que todos concordam e apreciam, mas raramente abunda na quantidade desejada. Exceto nos concursos de Miss Universo, para onde todas aquelas belezas maravilhosas transportam carradas de paz, vindas diretamente dos respetivos países. Parece que combinam entre si - vindas dos países pobres ou ricos, dos países que estão guerra ou daqueles onde impera a corrupção, dos países de velha cultura, a par dos de grandes inovações, progresso e tecnologia... todos parecem ambicionar e encomendar às suas belissimas representantes um apelo de Paz, como se esse "El dorado" fosse ainda mais importante que a beleza, que ali se disputa.
A Paz, mundo maravilhoso de harmonia e felicidade, não existe. Se pensarmos bem até cheira um pouco a pasmaceira... se ela nos amolecer por dentro... Porque entre a paz mundial tão desejada e nobre e a paz individual vai uma grande diferença. A paz interior, adormece ...
A paz interior pode matar a criatividade e a alegria, o desafio de viver, o grito de orgulho de quem supera dificuldades e sorri... Tão dificil articular valores e projetos, quanto saber dosear a paz e não cair na rotina.
A rotina é feiosa, pouco desejada, mas lá no fundo é um lugar de conforto e de segurança. Descansa a alma saber que tudo fica igual, hoje igual a ontem, a casa no mesmo sitio, o marido original, a roupa nova igual à velha, que se gastou de rota e foi substuida por trapo idêntico, talvez mais moderno mas com idêntica funcionalidade. A rotina é prática e normal, como se a normalidade fosse a onda mais certa para surfar a vida. Igual, igual... pacificamente neutra, conhecida, Sem riscos, para além dos acidentes exteriores a que todos estamos sujeitos - uma doença, uma morte, um emprego que se perde, um filho que nasce, um novo amor ... Quebras na rotina que nos fazem despertar - para o bem ou para o mal - são o que nos fazem sentir gente!
Porque só na mudança se acorda.
Porque queremos uma pacífica rotina de sossego e de amor eterno, quando sabemos que não existe? Viver na mudança, cansa. Viver sem paz, viver em permanente sobressalto interior desgasta (e por vezes deprime). No entanto, é nestes altos e baixos que nos revelamos. É sabendo que a paz nem sempre é o estado permanente e perfeito, que procuramos inovar, provocar, chatear o próximo, encontrar lugar para quesílias e pequenos ódios, intrigas e invejas... que quebram a paz.
O que pode quebrar esta paz? Os fantasmas interiores ou as bruxas exteriores?
Todos, todos ao mesmo tempo são capazes de provocar a guerra, a guerra fria, latente que espreita o mundo da politica e o mundo pessoal, da mente em ebulição.
No meio da paz e da rotina surgem nuvens negras, cinzentas, rosa... ou podem até chover lágrimas. Não é o caso de hoje. Hoje acendo uma vela imaginária à boa rotina de uma lareira quentinha. Brindo com champanhe à vida. E apetece-me oferecer uma rosa, cor de rosa amor a quem não me ama.
Hoje estou em "in the moode" miss qualquer coisa, feliz por uma paz que não é minha, mas faz de conta. Afastando probleminhas que rolam da minha cabeça para fora... como se fossem pérolas de um colar valioso que se quebrou e derramou as suas pequenas bolinhas, pelo chão... saltitantes...
No fim de contas olhando para as pérolas rolantes no chão de mármore, fazendo plic ploc... assalta-me a dúvida:
Será que o probleminha redondo era verdadeiro ou falso? Tal como as pérolas... nunca saberemos.
domingo, 29 de novembro de 2020
Ler ...
Ler é viver a cores!
É viver num mundo em que a nitidez é perfeita, em que tudo se entende como sendo a verdadeira cor que cada coisa tem, como o verdadeiro som que cada música ou voz emite.
A literatura é a realidade em estado puro, aquela que, mais tarde, a vida pessoal se encarregará de nos provar que é verdadeira. Se não no seu todo, pelo menos naquilo que se vier a cruzar com as nossas experiências, comprovando que existem mesmo, que existem para além do conhecimento que adquirimos nos livros, nas arte , na música, na filosofia...
Menos nítidas na vida, as cores resplandessem quando constatamos que já tinham sido descobertas num livro.
Ler é viver por antecipação.
A leitura - sobretudo a poética - traz-nos do mundo um saber antes do tempo.
Só mais tarde com o amadurecimento pessoal, com a reflexão e o saber... e com a leitura, claro, é que conseguiremos comprovar que aquela vivência, que nos acontece no presente, já foi vivida e descrita por alguém antes de nós.
Por isso, os clássicos são tão importantes, são eternos. Transportam a natureza humana em estado teórico, limpo e perfeito, referência que dará conforto à nossa vida imperfeita...
Dá sossego saber que antes de nós, séculos ou semanas atrás, já alguém sentiu o mesmo, e escreveu o que lemos hoje. Lemos... helás, já sabíamos! Estamos portanto à frente de quem não o faz tão bem, temos ferramentas de orientação para descobrir dentro de nós o mundo que já foi descoberto por outros... os muitos escritores e pensadores de quem bebemos e quem gostamos por nos serem iguais. Por nos terem preparado e precedido, dando-nos com a sua escrita e leitura a "endurance" necessária para enfrentar a vida mais seguros, calmos, felizes... e quiçá sábios... se lermos muito.
Ao contrário daquilo que muitos pensam, a ficção não é um campo da fantasia e de mentira que nos desfoca quando a vida diverge do modelo lido (sonhado, por vezes mal lido e empolgado). A ficção e o ensaio de séculos de pensadores/escritores que nos precederam são a “cama”, a nossa cama de leitura e conforto, onde acreditamos seguir com confiança. Porque esperamos do mundo aquilo que já lá está há séculos à nossa espera.
A literatura não cria ilusões, nem fantasias exotéricas ou vãs. Cria verdade, é o caminho que vamos recorrer como familiar quando lá chegarmos.
Ler é caminhar na direção da nossa casa futura, mais pobrezinha em lindas palavras e sonoras frases... mas mais rica porque a “ideia”, a substância que absorvemos da leitura, é bem mais valiosa.
É a nossa experiência vivida, a emoção ao vivo, a alegria, a tristeza, o amor-paixão, os afectos amigos sentidos na nossa pele ... muito depois de lidos no papel.
Felizes daqueles que lêem e encontram em cada dia o seu lugar dentro de uma página, no meio de uma linha da grande literatura e se acham abonados por isso. Porque nada é melhor que viver, desde que se tenha sabido antes pela literatura ou pelo saber antigo o que da vida nos espera.
Infelizes daqueles que não lêem porque também não pensam, esses não têm esperança de encontrar no caminho a tal frase do tal livro, a tal lenda antiga, não têm a possibilidade de reconhecer a tal bela flor que encontraram num jardim, sobre a qual nada leram, nada sabem. Infelizes os que não conseguem apreender na poesia a essência das palavras, naquilo que é verdadeiramente importante. Poderão estes reconhecer um amor-paixão, aos primeiros sinais, se nada sabem de Tristão e Isolda ou da Mariana do Camilo? Claro que podem, mas não é a mesma coisa! O amor vivido é único. Não é substituível pelo melhor poema ou romance, mas se a leitura do escrito comandar a leitura interior dos sentimentos que emergem, a explosão será total!
Livros para os confusos, precisam-se! Para que estes fiquem melhores, mais ricos e nunca jamais se sintam desiludidos, para que não digam que a vida lhes parecem pior do que o romance ou o filme. Só um mau livro ou uma má película pode trazer este desconsolo.
Porque ler é o melhor de tudo e logo a seguir, um pouco acima ou abaixo, vem a vida.
Se pudermos carregar a bateria da literatura antes de sair de casa, se conseguirmos ver e sentir em abstrato as coisas que talvez nos venham a acontecer (ou talvez não) estaremos a antecipar a grande jogada da felicidade e a cantar vitória. Ou a entender melhor a derrota.
Eu encontrei em real o que li: sinto que sou igual, melhor ou pior, mais sensível ou se calhar mais trôpega do que aquela personagem Dostoiévskiana... que me foi apresentada num livro e que tanto me ajudou a ser o que sou. A ser melhor porque a leitura ou a compreensão dos símbolos anteriores a nós e que vão para além da escrita, são um trunfo para quem leu e por isso está à frente.
Á frente no caminho da vida real... limpa de fantasias romanceadas, de delírios espirituais, de sucedâneos religiosos ou meditações transcendentais... É o que acontece com os livros de auto-ajuda um bálsamo para algumas dores. Mas não são a pedra sólida do caminho que dorme sobre os livros. Dos bons. Não dos vendilhões de dançaria ilusória e desmoralizante...
Porque se lêem os clássicos e se representam as mesmas peças, ano após ano em todo o mundo, já pensaram?
Nem toda a leitura é fumo, nem ilusão de espetáculo tipo “André de Rieu”. Há sabedoria na literatura. Há vida antecipada que nos motiva a ir ver como é "na real". E quando a encontrarmos “em tons pastel” saberemos apreciar aquela que lemos em cores garridas nos nossos livros preferidos.
Então a suavidade da cor e da emoção sabermo-nos-á melhor! Serão a paz do encontro que junta o livro amado com a vida ou com a pessoa amada (que é muito melhor em carne e osso do que em papel... se tivermos a sorte de encontrar alguém com alma!).
A literatura é o parente rico, o que não faz da vida o parente pobre, uma sua fraca e desiludida imitação! Pensar o contrário, é viver em permanente estado de ilusão fantasiosamente à espera de que o romance em papel tenha alma, corpo e pele de gente....
terça-feira, 10 de novembro de 2020
Amar como missão de vida
MEC - na última entrevista ao Expresso - disse: amar pode ser apenas e por si só uma missão para uma vida!
Não sei se foram exatamente estas as palavras certas, mas foi este o eco que fez no meu coração . Amar como o único valor importante para conduzir uma vida, como o único objetivo porque vale a pena lutar, a única razão que leva a abrir um olho ensonado de manhã, ao mesmo tempo que, a custo, se põe o pé descalço na beira da cama e se faz um esforço inaudito para levantar, sair da cama, ensonada e trôpega.
Demasiado trôpega para pensar, demasiado lenta para trabalhar ao ritmo esperado de uma ex-profissional de sucesso. A urgência em acordar para mais um dia de trabalho, acaba por falar mais alto, mas é uma tortura para quem tem sono, um sono paralisante e cansado. Um sono estonteado, pedrado, acarretado de drogas anti insônias ou de insônias passadas a lutar, perante a evidência de que elas (as drogas) são necessárias... mas tentndo a todo o custo evitar.
O que tem isto a ver com o amor? Muito! Quem acorda com um objetivo, com o coração cheio do prazer da espera do amor, acorda senão mais leve, pelo menos, com um brilhozinho de alegria na alma, que justifica uma ida à casa de banho para lavar a cara com água fria. Para que o choque térmico traga a lucidez de encarar uma promessa de alegria e dissolva o sono. Para que o novo dia não seja o prolongamento da angústia ensonada da noite, mas antes uma brisa de suspeita de algo mais... da emoção de um amor sonhado, vivido, inventado, real , longínquo ou passado ... que talvez exista, sei lá ! Existe real ou virtualmente e vai trazer sol no coração... que nos transporta para a esperança, para a busca, para a imaginação ... que procura modos de encontro, com a certeza de que, por mais complexo que possa ser , haverá um caminho , um esquema rebuscado para comunicar, ver, apalpar, sentir sem toque, olhar, mergulhar na mente... e fazer tantas coisas que só o amor nos permite engendrar!
É preciso é haver amor, que exista um qualquer ser que nos ame - com ou sem reciprocidade - que torne a vida na tal missão, a única porque vale a pena viver e acordar feliz em cada dia.
Pode ser o amor a uma causa, a um projeto... ou a uma pessoa especial.
Pode ser tudo, desde que lhe chamemos amor.
Pode ter nascido de uma paixão avassaladora, de um delírio louco, pode ser uma amizade especial, pode ser um cabaz de afectos, um depósito de intimidades... vale tudo, chamemo-lhe qualquer nome.
Amor é Todos Os Nomes. É o tudo universal que nos mantém vivos a sorrir, quentes no inverno, na velhice, na pobreza ou na doença. Estas últimas partes são desejavelmente dispensáveis, mas existem... e o Amor aguenta-se.
Triste de quem nunca se apaixonou e perdeu a chance maravilhosa de perceber que amar pode ser uma missão gratificante e total, pode ser A Missão!
Estou velha - oficialmente daqui a dias - na prática, estou velha desde a última vez que perdi uma paixão-amor, suave e doce! Estou velha mas não atrasada, estamos sempre a tempo de amar e ser amado.Todos nós, sem idade, sem pressa e sem prazo.
Para além das perdas e dos equívocos, continuo a amar e a sentir-me amada, feliz por espalhar alegria e conforto a todos os meus amantes reais, virtuais, irreais, fantasmagóricos ou mesmo os equivocados, os frios e os descrentes nesta causa, que se têm cruzado comigo nos últimos anos. Todos transportam ou buscam esse elixir que os pode transformar em agentes secretos da tal missão espantosa - 007 Ordem Para Amar!
segunda-feira, 5 de outubro de 2020
Forrest Gump
Run, Forrest run!
O estranho síndrome Forrest Gump assalta-me por vezes com grande acuidade, como uma força que impele a urgência de fugir, de correr sem parar, para fugir daqui, depressa... já... sem destino, só pelo prazer de sair para um lugar incerto... que fica em frente e não tem retorno à vista. O maior prazer é saber que fica em frente, numa estrada que se abre mas cujo destino se desconhece. É um impulso que vem de dentro. Uma mola chamada Ir!
Pode ser estranho, um pouco assustador mas simultaneamente parece fácil de executar, não carece de objetivos precisos nem de planos traçados, basta ir em frente, pois será o próprio caminho a orientar a senda a prosseguir.
As surpresas da viagem são o único empurrão, a força motriz, a par daquilo que é preciso mesmo fazer para ir sobrevivendo: comer, dormir, responder talvez a algum rasto de espanto... Ir é o único objetivo, a única certeza é que não se pode parar, há que continuar a correr ou a caminhar mais lentamente se o corpo cansar, sabendo que é o destino que nos orienta e surpreende e que não tenho de me preocupar muito mais com as consequências.
É ir, mochila às costas, mantimentos básicos, alguns abrigos para pernoitar, um lugar quente para parar, refletir, descansar e prosseguir ... até onde não sei e essa é a parte gira.
Ir porque sim, porque o imobilismo e a angústia me tolhem e cortam pedaços de vida. Ir porque o meu lugar pode não ser aqui, porque pode não ser em lado nenhum, mas só o movimento o comprovará. Porque a vida, o amor e o meu papel de gotinha insignificante no universo deve estar algures por aí, à minha espera.
Ir porque a estrada é larga e parece comprida demais para que faça sentido fixar uma meta. Por isso, há que ir sem ambições, nem destino, pelo amor à natureza, à vida e aos outros (eventuais avatares), pessoas não familiares, sem compromissos.
Gente que encontrarei e me será indiferente, me tornará invisível, gente simpática e acolhedora mas sem amor para dar. Gente louca e capaz de se apaixonar e de me levar a voar. Gente simples que me aquecerá as noites mas não a alma, gente boa, gente má... que nas bermas da estrada encontrarei.
Não sei muito bem para onde vou, mas talvez reconheça essas pessoas e esse lugar de destino, aquele que me dará um abrigo feliz e a plenitude de me sentir útil aos outros. Só essa retribuição me dá alento. Esse lugar de paz, de me encontrar com a minha própria existência, da qual até eu própria duvido, é essencial. Há um ponto de equilíbrio e recompensa, de felicidade, até ... no fim desse caminho para onde vou a correr estupida e caoticamente como o F.G.. Onde fica, não sei .
Talvez descubra, talvez não!
Mas para isso é preciso correr sozinha, que é como estou e me sinto.
Foi a solidão da liberdade que escolhi, foi nela que mergulhei conscientemente e em alegria. Não culpo ninguém, não posso esperar nada dos outros; nem de apoio, nem de compreensão por parte de alguém.
Não posso exigir nada. A única coisa que ambiciono não se exige, nem se compra, nem se procura. Alguns encontram, como que por acaso ou por milagre, têm sorte.
Também já tive: vislumbrei e vivi intensamente, enquanto foi possível, a centelha brilhante de um alma enamorada, espelhada em olhos alheios, que me confirmaram a sua existência. Foi bom. A paixão dura o tempo da passagem do cometa mas fica, cá dentro, um brilho que até na escuridão eu vejo. E sei ver se é amor, se a poeira dourada deixada pelo astro é minha e me alimenta e adormece. Mais ninguém vê, muitos nem sabem desta reserva de energia vital. Armazenei uma reserva de paixões vividas e consequentes, fazem parte de mim. São talvez o motor que me impele a correr pela estrada imensa, de aparente non sense, que a simplicidade de um Forrest Gump meio tonto me inspira.
Pego na mochila. É noite de nevoeiro, o outono chegou de mansinho, com calor diurno e com frio e humidade na noite que sobe do mar. Vou para a rua num lugar quase desabitado, rural, distante? Só teria o barulho do mar como companhia e orientação.
Se sair agora vou enfrentar o desconforto da noite. Posso esperar pela claridade da manhã e partirei com alegria no bolso, à procura de um aconchego. De um abraço com dois braços e não apenas um encosto de um só braço. De um beijo com dois lábios e não de um toque atarantado. De um sono a quatro pernas em vez de uma caminhada só com duas (as minhas). De uma vida a duas vozes, de vozes que transmitem os pensamentos de duas mentes, que sendo diferentes as trocam como iguais.
Porque o melhor do mundo é a intimidade, a amizade amorosa repartida num almofada, um abraço colado e sentido... de dois braços.
E a solidão da partida pela estrada aberta da liberdade só tem um braço, ou nenhum.











