Amo o amor-alimento da alma e do espírito criativo, amo o amor-paisagem, amo o amor feito carne e feito sexo, amo o amor-amizade indestrutível e sólido que nos ampara nos piores momentos, amo o amor-carinho, o amor ternura da infância e solidariedade adulta, amo o amor-futuro, aquele que é o horizonte indispensável para que o caminho para a morte se faça certo, pacífico, direito..
É como eu estou, nesse caminho - uma quase vida de moribunda que se arrasta… enquanto os pés não lhe obedecem, ando na rua em desequilíbrio, na verdade não ando em passo terreno mas também não flutuo.
Sou um fantasma vestido de branco ou de preto ou de outra cor qualquer, que ninguém vê.
Alguém que circula na multidão, aos tombos, vazia de amor, não vê ninguém nem alguém a vê .
Sou como um daqueles montes de trapos e papelões nas soleiras das portas, que tem por baixo um sem abrigo.
Alguém que ninguém vê , a que quase todos viram a cara, por ser invisível, por ser mal amado . Ninguém lhe fala, nem lhe dá um beijo porque está sujo e isso repele os contentinhos-um qpoço e coberto por um fardo de palha, fechado num contentor de lixo descarregado no mar. Partir para algures onde a sua existência não exista, algures onde não seja gente, porque gente já não é há muito.
Quem deixou de saber amar ou de fazer-se amar por pessoas, quem foi desclassificado pelo baixo valor das causas que defendeu ou das obras que fez e deu com amor e boa vontade (algo que é quase o mesmo) não tem direito a circular por aí, não tem direito a comer, nem a dormir, nem levantar os olhos do chão ou tocar num seu semelhante … devia preparar - se para morrer sem chatear ninguém. Afastar-se para não ferir os corações daqueles que ainda sabem amar a sério, ou dos que têm migalhas de afecto guardados para um pobre faminto de amor, e também daquela gente que até é decente … mas que egoisticamente não está Interessada em ver a realidade da miséria humana, que definha e adormece ao som das drogas e das lágrimas, que se afunda na depressão e tanto mal faz a si à família e aos amigos . Poucos são os corajosos que se abrem a um sem abrigo e perguntam do que precisam…
Eu não preciso de um cartão, nem de um edredão, nem de sopa ou meias secas. Vivo num palácio (tipo t2 confortável) que não é revestido a ouro porque as paredes são manchas tristes de desamor, de vazio e de saudade . Cobre-o uma liga metálica que é uma mistura de ódio com injustiça e de impotência por não conseguir fazer os outros felizes.. Em tempos, consegui sentir me amada porque gostava de fazer os outros felizes. E sabia o bem que um abraço faz. Agora ninguém me dá um abraço sério.
Vivo de raiva de eu própria não saber ser feliz, de raiva por ter perdido esse talento, que julgava ter - a capacidade de fazer, partilhar e comer amor todos os dias. E de me agradecerem e apreciarem por isso.
Raiva por ser invisível para a família e por não poder nadar ao seu ritmo, de adormecer embalada na esperança, de que no dia seguinte algo de útil espera por mim , que eu possa sorrir e que isso me seja agradecido só com um olhar, porque o que fiz foi por amor.
Era para bem dos outros que tanto me davam e agora me abandonaram e me deixaram vazia de amor. Perdi o valor de mercado por ser velha.
Estou cheia de saudades e de boas recordações. Eu já fiz coisas bem feitas, dei beijos sérios e cambalhotas gratificantes, mimos e ternura.
Dei por amor sem pedir nada em troca, mas sinceramente julgava que o caminho seria recíproco - que podia pedir uma esmola de amor quando mais precisasse. E não esperava recusas …desalmadas .
Virei incompetente no amor e incompreendida nas minhas mais tristes carências . Não só de quem eu mais quero, mas de todos.
A minha depressão não é apenas o resultado da insensibilidade de quem me rodeia. É o resultado de um Mundo de gente má, sem amor ao próximo onde eu caí. Por minha culpa , eu sei.
O mundo está mal, são todos ingratos e autistas perante o sofrimento humano, a bondade desapareceu .Já não se fabrica.
Não há a mais pequena pinga de afeto à minha volta . Morro de sede… morro sozinha como todos nós…mas estou a morrer demasiado devagar … e estou cansada.
Ninguém me telefona ( salvo uma pequena exceção) ninguém me dá um beijo ou pega na mão. Fogem do cheiro obsceno da minha depressão e vão depressa lavar se em águas perfumadas e alegres . Não ligam ao desamor de que eu sofro … talvez porque não saibam bem o que é o amor e como ele faz falta para levar a vida em frente; construir uma casa, criar um filho, plantar uma flor, cozinhar qualquer coisa, trabalhar ou ler.
Sem paixão por um assunto, pessoa ou coisa, nada se cria e mundo não avança.
Aqueles que perderam a paixão por fazer dar ou receber, não fazem falta a sociedade. Podem partir … porque não há prisões para estes loucos inúteis que tiveram o desplante de roubar o amor que existe no ar . E agora sem esse oxigênio vital , morrem devagar e cheiram mal .
Se não fazem prisões para os incompententes do amor e para os mal amados diversos, ao menos empurrem nos de uma falésia abaixo.
Quem não sabe amar, não merece viver!
